Essa história misteriosa — ou antes essa ficção — tornou-se o fundamento da Teologia Egípcia, que se encontrava oculta sob os símbolos dessas duas divindades, enquanto os filósofos e sacerdotes nelas viam os maiores segredos da Natureza.
Osíris era para os ignorantes o Sol ou o astro do dia, e Ísis, a Lua; os sacerdotes neles viam os dois princípios da Natureza e da Arte Hermética
As etimologias desses dois nomes contribuíam para induzir em erro: Plutarco pretendia que Osíris significava santíssimo; Diodoro, Hórus-Apolo, Eusébio e Macróbio diziam que significava aquele que tem muitos olhos, aquele que vê com clareza — e tomavam Osíris pelo Sol
Os filósofos, porém, viam no nome desse deus o Sol terrestre, o fogo oculto da Natureza, o princípio ígneo, fixo e radical que anima tudo
Ísis para o povo comum não era senão a Antiga ou a Lua; para os sacerdotes, era a própria Natureza, o princípio material e passivo de tudo
Apuleio (Metamorf., l. 1) — faz falar assim a deusa: “Sou a Natureza, mãe de todas as coisas, senhora dos Elementos, o começo dos séculos, a Soberana dos Deuses, a Rainha dos Manes, etc.”
Heródoto — ensina que os egípcios tomavam também Ísis por Ceres e acreditavam que Apolo e Diana eram seus filhos; diz alhures que Apolo e Hórus, Diana ou Bubástis e Ceres não diferem de Ísis — prova de que o segredo dos sacerdotes havia um pouco transpirado para o público
Os sacerdotes haviam encontrado a arte de velar seus mistérios, seja apresentando Osíris como um homem mortal cuja história narravam, seja dizendo que era não um homem mortal, mas um astro que cobria o universo inteiro, e o
Egito em particular, de tantos benefícios pela fertilidade e abundância que proporcionava
Sabiam ainda desviar a atenção daqueles que, suspeitando algo de misterioso, procuravam instruir-se e penetrar no assunto — dando-lhes lições de Física; e muitos filósofos gregos hauriram sua filosofia nesse tipo de instruções