O momento indeciso em que a noite termina com o anúncio da aurora impõe silêncio, e entre o ensinamento já passado do Templo exterior e a luz prometida, Her-Bak espera.
Uma resposta é proveitosa na proporção da intensidade da busca, e o problema claramente considerado e a questão nitidamente definida contêm em si os elementos da solução.
Antes de ser introduzido entre os discípulos do Templo, Her-Bak deve passar pela prova de escolher a única questão à qual atribuiria interesse principal, pesando as razões da escolha e expondo-as em palavras concisas.
Her-Bak revisa os temas de sua busca apaixonada, escava suas bases e se esforça por podar os argumentos fúteis para libertar as raízes essenciais.
Ao amanhecer, surge a silhueta do mensageiro, e Her-Bak se deixa conduzir sem medo, consciente de ter dado sem negligência a medida de sua possibilidade atual.
O candidato é introduzido na sala hipostila, onde a luz viva e a obscuridade se combatem, e guardas impedem a aproximação de estranhos.
À direita do Sábio estão três homens venerados no Templo como Mestre da Mística, Mestre das Medidas e Mestre do Símbolo, cuja dignidade nada no traje revela, mas que são os verdadeiros pilares do Templo.
A poucos passos do Peristilo, os rumores e as querelas já parecem distantes, e Her-Bak, prostrado, deseja ao menos permanecer como humilde servidor dessa majestade caso não seja recebido.
Chegada a hora de provar que o esforço está à altura do sonho, Her-Bak pede para expor sua busca na ordem em que se desenrolou, pois segurou uma ponta da corda sem saber aonde ela o conduzirá.
A primeira questão nascida do coração foi por que se está na Terra, mas ela se mostra insuficiente, pois não se sabe o que se é nem o que é a Terra.
A Terra é o que não é nem o céu nem a Duat, segundo a fórmula do que há no Céu, na Terra e na Duat, e o homem está sobre a Terra e sob o céu.
O homem nasce, vive e morre, estava antes de nascer em seu pai e sua mãe, e surge a pergunta sobre a origem do primeiro pai.
Quando o homem morre, volta à terra, e a Terra permanece, mas muda de aspecto com as estações, governadas pelo Sol, pela Lua e por Sothis, das quais depende a vida terrestre e, portanto, a do homem.
Coloca-se a questão de saber do que dependem o Sol, a Lua e Sothis, se há forças acima deles e qual a estrela mais poderosa, pois saber isso seria saber o que comanda o Mundo.
Se a Terra se transforma, o Sol, a Lua e Sothis também podem transformar-se, e o que pode mudar parece destinado a morrer, o que faria da morte o mais forte de tudo.
A morte é o fim de uma existência, e isso reconduz à questão do fim da existência, que não pode ser a morte, sob pena de o Mundo ser horror e loucura.
Antes disso seria preciso saber se o próprio homem escolhe seu fim ou se este lhe é imposto por uma vontade ou uma lei que o arrasta como arrasta o Sol, a Lua e Sothis.
Se o homem fosse conduzido apenas pelas leis da Natureza, não teria liberdade nem fim, e não haveria o que buscar nem razão de ser para o Templo.
O Templo existe e ensina a Sabedoria desde os tempos antigos, e o fato de se poder merecer ou perder seu acesso prova uma certa liberdade.
A aquisição da Sabedoria poderia ser o fim do homem, e quem nada sabe não tem o direito de concluir que os Sábios de todos os tempos mentiram, e como eles afirmam que se pode aceitar ou recusar o caminho da verdade, essa escolha é uma liberdade.
Essa liberdade parece ultrapassar as leis da Natureza, pois o animal tem liberdade menor e nem a planta nem a pedra podem dominar essas leis.
Para saber de onde vem a liberdade, é preciso perguntar o que é o homem, e embora o homem seja o ser mais completo da Terra e conhecê-lo permitisse conhecer o resto, o próprio homem não se conhece.
O médico que ensina no Peristilo não explica a origem do primeiro homem, nem o fim da Vida, nem o sentido da morte.
Diante dos funerais, a morte aparece como fim das coisas, e se fosse fim total, a ciência seria inútil, o cantor que exalta o gozo da vida teria razão e o Templo, a Sabedoria e os ritos funerários seriam absurdos.
Seria outro absurdo, porém, concluir sem provas.
Her-Bak declara que seu coração se recusa a crer que a morte seja fim total, mas que deve buscar sua questão sem se ocupar daquilo em que crê, e os Mestres aprovam.
O amor por Nadjar fez compreender a separação: antes da morte ele respirava o mesmo ar e via as mesmas coisas, e agora seus olhos não veem e suas narinas não sentem.
Se nada dele vê ainda, há aniquilação total, e se algo vê, talvez veja coisas que os vivos não veem, de modo que os olhos dos vivos estariam mortos para esse outro mundo e as duas vidas estariam separadas apenas por uma diferença.
Um Mestre marceneiro afirmou que a morte é transformação, mas o corpo mumificado não pode mais mudar, e o BA e o KA, que podem retornar, não têm mais corpo para comer, o que conduz à questão do que é estar vivo.
O Sábio reconhece que Her-Bak buscou em verdade e ousou falar, e os Mestres concordam em ajudá-lo a elaborar sua questão.
Para elaborar uma questão, é preciso ir ao coração do problema, que é o impulso que governa toda a vida de cada ser.
O impulso de Her-Bak é aprender o que deve saber para que sua existência cumpra seu fim essencial, e por isso deve começar por buscar esse fim.
Todo axioma de verdade deve poder exprimir-se geometricamente, pois todo fenômeno se situa no espaço como resultante de movimentos e ritmos que lhe dão forma e caráter pelo número.
Linhas de força e números determinaram o nascimento de cada um, e a existência revela características harmônicas que conduzem a um fim, sendo esse o campo de busca.
A existência termina na morte e talvez em algo desconhecido, e o fim definitivo não pode ser conhecido sem conhecer o término definitivo.
As linhas de força ou tendências de cada ser determinam seu fim atual, que é fatalmente orientado por seu término e seu fim definitivos, e o fim atual de Her-Bak é conhecer seu verdadeiro término.
A tendência do mineral é definida por sua inércia, pela qual espera e sofre a transformação imposta à sua passividade.
A tendência do vegetal, limitada por sua fixação ao solo, consiste em encontrar condições favoráveis à respiração, à nutrição e à fecundação, e seu fim é a produção da semente.
A tendência do animal é buscar alimento, abrigo e acasalamento, e seu fim é a continuação da espécie e a satisfação dos instintos.
As tendências e o fim da natureza animal jamais bastarão às aspirações de Her-Bak, e a medida em que sua tendência e seu fim superarem os dos outros seres medirá a qualidade de seu término e de seu fim definitivos.
O coração crê na continuidade da vida após a morte do corpo sem ter provas, e é preciso escutar primeiro essa convicção, mesmo que pareça absurda ao raciocínio.
Se há um conjunto de leis que liga todas as formas da Vida, ele estabelece entre elas relações sensorialmente incontroláveis que escapam à lógica racional e podem ser chamadas absurdas até que a experiência mostre que o fato concreto pode resultar do intangível.
A recusa indiscriminada desse absurdo fecha a possibilidade de conhecer tais leis, e é preciso distinguir entre a certeza do coração, ou Fé, e a crença, adesão cega a palavras.
A crença cega deve ser rejeitada, mas a Fé é indispensável para entrar no conhecimento divino, e a certeza do coração deve ser aceita provisoriamente para depois buscar as provas de sua verdade ou de seu erro.
Uma questão se formula como conclusão de dúvidas e respostas insatisfatórias, procedendo por eliminação.
A morte é o fato inegável, enquanto a vida não é um fato, mas um conjunto de efeitos de uma causa incompreensível e abstrata, e por isso é preciso partir do fato da morte.
Pela aparência, a morte parece um fim do qual resulta o nada, mas resta um resíduo tangível, o cadáver.
A mudança que transforma o corpo em cadáver admite duas possibilidades: se a vida cessou definitivamente e foi aniquilada, a morte é subtração, e se algo se separou do corpo residual, a morte é divisão.
A tarefa que se impõe é buscar o que pode ter saído do corpo.
Para encontrá-lo, é preciso observar na Natureza o que provoca a morte e como ela se manifesta, e o que a provoca é a cessação ou realização de uma razão de viver, que a própria morte revela.
Mesmo a morte acidental pode ser permitida ou provocada pela cessação da razão de viver.
A Natureza mostra a relação entre morte e fim: a flor morre quando nasce a semente, o trigo morre quando o grão amadurece, certos insetos machos morrem na cópula e em todos os animais a decrepitude começa com o esgotamento das funções procriadoras.
Entre os homens há uma diferença, pois homens e mulheres que, pelas faculdades do Intelecto, já não são escravos dessa função têm uma razão de viver que ultrapassa o fim animal, e para eles a morte pode ter outro sentido.
A morte se manifesta pela parada do movimento e pela cessação do calor, e seu primeiro efeito aparente é o fim do impulso incompreensível que dava movimento ao coração e ao corpo.
O corpo é então abandonado a transformações destrutivas, o que prova que aquilo que o abandona era o que o mantinha em continuidade, e isso é chamado de alma animante.
O primeiro movimento vem do instante incompreensível em que o germe desperta na matriz, pois sem matriz a semente nada pode, e a Natureza lança sementes em profusão, muitas das quais se perdem por não encontrar matriz.
O ser fêmea recebe a semente, concebe o germe, nutre-o com sua própria substância e murcha quando essa função se esgota nela.
A terra é a mãe que gera e nutre sem cessar os germes, nutriz de todos os vegetais e, por meio deles, dos demais seres, mãe dos minerais e destino de todo corpo.
A terra pode empobrecer à força de dar, mas volta a beber das fontes da Natureza para transmitir a vida, e somente um fogo sethiano excessivo pode deter seu poder regenerador, como na terra vermelha desértica.
Tudo o que nasce deve sofrer a morte, e por isso uma mãe que não morra não pode ter nascido nem ter forma corporal, pois é sobre o corpo que a morte exerce seu poder.
Essa mãe, nutriz da Vida, é necessariamente da natureza daquilo que dá a Vida e que se chama alma.
A possibilidade da Mãe-que-não-morre revela o sentido da morte como passagem do ser pelo ventre da grande Mãe Nut, que provoca todas as transformações.
Se a morte é um momento de transformação, resta fora do corpo inerte algo que continua a viver, e esse algo é a própria Vida.
A questão fundamental formulada por Her-Bak é o que é a Vida, se ela é algo além de aparência passageira, maturação de semente e transição entre nascimento e morte.
Her-Bak não escolheu como questão o que é o Neter, embora sempre o tenha perguntado, por começar a crer que essa é a última coisa a buscar.
É inútil buscar o Neter: se ele não está no homem, não será encontrado em parte alguma, e se está, revelar-se-á nele mesmo e será então descoberto em todas as coisas.
O desejo mais profundo de Her-Bak é sentir a Vida em si e em todas as coisas, e por isso deve aprender a conhecer o mundo em si, mas nunca buscar a si mesmo no mundo, onde apenas transporia suas ilusões pessoais.
Her-Bak quer conhecer o mais verdadeiro, mesmo que não seja agradável, e deve buscá-lo nos Números e na função geométrica, cujos resultados se impõem e não podem ser desviados por considerações pessoais ou sentimentais.
Her-Bak quer dar aos outros o que tiver adquirido, mas para dar é preciso ter, e para ensinar é preciso conhecer a natureza, isto é, o símbolo daqueles a quem se dá, estudando homens e coisas pelo simbolismo.
Para o Mestre da Mística, o Homem é o Naos do Verbo divino.
Para o Mestre Geômetra, o Homem é a medida do Universo.
Para o Mestre do Símbolo, o Homem é a estátua viva do Grande Mundo, cujos símbolos ele resume todos.
O Sábio promete responder no dia seguinte à questão sobre o que é a Vida, por ocasião da entrada de Her-Bak no Templo interior.
Her-Bak oferece sua obediência e sua fé e acrescenta que, se o Mestre lhe ensinar o que é a Vida, lhe dará sua vida.