A morada de Menkh flameja sob a luz crua do meio-dia, assinalado pelos gaviões que giram no céu, enquanto o porteiro cochila prostrado na soleira.
Pois Chiche chega correndo e troca com o porteiro saudações zombeteiras, nas quais um é chamado de porteiro filho de porteiros e o outro de vagabundo filho de vagabundos.
O porteiro adverte que Menkh já pediu suas sandálias e debocha da aparência suja do menino, manchado de tinta vermelha e preta como um porco malhado.
Pois Chiche exige respeito por vir da escola, e o porteiro o chama de borrador que não sabe segurar o cálamo, ao que o menino responde chamando-o de asno.
O insulto provoca uma briga furiosa em que os dois rolam pelo chão, até que a voz dura de Menkh interrompe os combatentes comparando-os a animais.
Menkh humilha o futuro escriba diante dos servidores e ordena que ele recolha suas obras, os cacos de cerâmica caídos do pano rasgado.
Na sala alta, Menkh dispensa os servidores e pergunta se é esse o fruto da escola, em que o instruído insulta o ignorante e o saciado despreza o despojado.
O dom do Céu é gratuito, e quem se vangloria dele com arrogância logo ocupará o lugar daquele a quem desprezou.
Na penumbra, as figuras coloridas dos painéis parecem ameaçadoras e a poltrona do Mestre parece um tribunal, e o menino conta os losangos das tapeçarias para acalmar o medo.
Menkh retira de um cofre de cedro um espelho de cobre, que, atingido por um feixe de luz vindo de uma estreita abertura junto ao teto, torna-se em suas mãos uma lança de fogo.
Diante do espelho, o menino vê o próprio rosto grotesco, manchado de tinta, suor e lágrimas, enquanto Menkh pergunta se Thot ensinará seu macaco desajeitado que não sabe dominar o cálamo.
A vergonha se transforma em decisão, e Pois Chiche pede que a justiça de Menkh castigue seus dedos culpados, mas que seu desprezo não esmague o servidor que não havia compreendido.
A ignorância não é desculpa, e foi o aprendizado da importância do gesto perfeito desde as primeiras lições que permitiu a Menkh ser introduzido nos segredos dos Técnicos, dos quais hoje é chefe.
Após doze meses de escola, Pois Chiche afirma conhecer os hieróglifos e saber transpô-los para a escrita cursiva.
O trabalho vale as mãos do operário, e Menkh espalha sobre a esteira os cacos borrados do aluno.
O escriba professor nunca fez reprovação alguma a Pois Chiche e desde o primeiro dia o fez sentar a seus pés, privilégio jamais retirado.
Usurpar o lugar de um bom aluno é motivo de vergonha, e o menino que partira como um jovem leão em caça corre o risco de assumir os modos de um cortesão de coração tão sujo quanto os dedos.
Vencido, Pois Chiche cai aos pés de Menkh e declara não querer ser vil.
Os textos dos cacos são exercícios de autoelogio em que o menino se intitula nobre escriba real, escriba de dedos hábeis, conhecedor de todos os segredos do Céu e da Terra e preenchedor do coração de seu Mestre.
Menkh guarda esses cacos como assinatura do aluno até que outra assinatura venha apagá-la, e proíbe que nova fanfarronice saia de sua boca.
O erro do professor não pode ser reparado pelo próprio aluno mimado, e a decisão de Menkh fica anunciada para o dia seguinte.
O Sol é escuro para os olhos velados de remorso, o pão é amargo para o ingrato e não há repouso para seu coração.
No caminho da escola, Pois Chiche rumina os preceitos de que a prática da Sabedoria expulsa todo o mal e conclui que precisará mudar de meio para encontrá-la.
Ao chegar ao outeiro onde ocorreu seu último encontro com o Sábio, o menino é tomado de angústia e teme que já seja tarde demais.
Na sala de aula, os alunos agachados transcrevem e repetem incansavelmente as sentenças de uma Sabedoria clássica, ritmadas pelo instrutor para fixar frases e ortografia.
Menkh entra sem ruído e encontra Pois Chiche na última fila, sem arrogância no rosto e com atenção grave e esforço ansioso, sinal de que a lição surtiu efeito.
Menkh dispensa os alunos, compara os cacos de todos e cobra do escriba o que fez de Pois Chiche, filho de Sita, confiado a ele pelo Sábio.
O escriba alega ter tratado o menino como aluno de escol, digno do interesse do Mestre de Sabedoria, mas Menkh o acusa de tê-lo tratado como vil favorito, poupando-lhe reprovações e incensando sua vaidade.
A lisonja do professor é responsável pela queda do aluno, que ao crescer não terá respeito por ele.
Menkh bendiz o mestre cujo bastão lhe inculcou na infância a necessidade do esforço, pois o homem paga com lágrimas o preço da consciência quando o animal não foi dominado na criança.
O escriba argumenta que o menino já sabe letras, números e fórmulas suficientes para servir a um sacerdote, mas Menkh determina que ele precisará esquecê-los para purificar-se desse veneno.
Pois Chiche não aprendeu um único gesto correto, nem o respeito pelas ferramentas, nem a proporção, nem o sentido dos signos divinos que transcreve.
O escriba invoca a máxima de que o peito do homem é mais vasto que um celeiro e cheio de possibilidades a escolher, e Menkh retruca que ele escolheu a cultura do cortesão.
Se não houvesse outro ensinamento além das classes estreitas de escribas formalistas e sacerdotes aproveitadores, a Sabedoria dos antepassados teria de ser enterrada como tesouro escondido dos profanadores.
Temendo perder o emprego, o instrutor promete conduzir o menino segundo as instruções de Menkh.
Há um tempo para cada coisa, um tempo para a harmonia e um tempo para a anarquia, ninguém pode mudar a marcha das estrelas, e a sabedoria consiste em sabê-lo, enquanto o bom grão deve ser salvo para o futuro.
O escriba deve continuar seu ofício, mas o aluno querido será doravante conduzido por outras mãos.
Na manhã seguinte, Menkh comunica sua decisão ao porta-sandálias: a memória inflada de fórmulas e o coração cheio de presunção revelarão um saber falso diante do de um canteiro, de um mestre carpinteiro ou de um oleiro de dedos hábeis.
As mãos devem aprender que a matéria obedece a leis que não são convencionais, e que fazer de uma pedra uma obra-prima exige ter o ouvido no coração e a alma viva nos dedos.
Escolher na rocha o bloco sem defeito para o obelisco ou a estátua perfeita exige do Mestre de obras um instinto tão seguro quanto o que revela ao animal selvagem o perigo imperceptível ou a planta que o curará.
Pois Chiche deve deixar a túnica de escriba e entregar sua paleta, recebendo uma tanga nova e um avental de couro como os dos técnicos, e entrar na oficina já no dia seguinte.
O menino pergunta se deixará de ser porta-sandálias de Menkh, e este, com voz mais branda, concede que ele manterá o posto nas horas livres se for digno.
Arrasado, Pois Chiche vaga pelos campos até cair na margem do Nilo, junto a um prado semelhante ao de seu pai.
Nas águas da cor do céu refletem-se agora os hieróglifos e as imagens dos templos, levados rumo ao Norte, para outras cidades fabulosas cujos recintos interiores permanecem fechados para ele.
Os escribas da escola parecem ignorar os mistérios ocultos aos profanos, enquanto o Sábio, de olhos que sabem, certamente os conhece, embora o menino não tenha certeza de que haja algo a saber.
Se apenas escribas e sacerdotes possuíssem o saber, o belo sonho estaria acabado, e o menino se despede do cálamo, dos godês, dos cacos, dos papiros e sobretudo da bela túnica plissada que o fazia brilhar como uma garça branca entre pardais nos dias de festa.
Pois Chiche elabora um novo programa de estudos para impressionar Menkh e lamenta a feiura do avental de técnico, sonhando ao menos tornar-se chefe deles como Menkh.
Menkh é grande e poderoso em seu traje de gala, com o bastão de poder, o peitoral de pedras coloridas e o colar de ouro recebido do Rei, e sua túnica perfeita parece saber o gesto que ele fará e conter escrito o que ele diz.
O Sábio, por sua vez, vestia uma túnica branca e simples, sem joias.
A túnica de escriba foi sujada por seu próprio portador, sinal de que o menino ainda se engana de caminho.
Um açougueiro privado de faca e avental se sentiria tão diminuído quanto o escriba sem túnica, o que revela que é o ofício que veste o traje.
Pois Chiche reconhece que era menos estúpido quando conversava com seu burro e que precisa voltar atrás.
Nas águas surgem novas imagens: um sapateiro hábil decorando sandálias e um canteiro de pedreiros zumbindo como colmeia, cheio de vida, ritmo e canto.
Cada ofício confere poder ao artesão, e a tanga do técnico é tão bela para ele quanto a túnica plissada para o escriba.
Se os antigos companheiros vierem zombar, o menino saberá o que eles são, mas eles não saberão o que ele sabe.
Com novo ardor, Pois Chiche volta a Menkh e promete ser o melhor de seus técnicos, pois compreendeu que não existe ofício tolo.
O menino se compromete a só deixar as oficinas depois de vencer todas as dificuldades que um técnico de dedos hábeis pode encontrar.
Menkh pergunta se ele poderá começar como aprendiz, e Pois Chiche, olhando as próprias mãos, afirma que sim.
As manchas dos dedos deixarão de ser tinta e se tornarão assinaturas de um ofício, capazes talvez de apagar as assinaturas dos cacos.
Menkh responde com um sorriso e uma única palavra: age.