I CHING

FJFI

O I Ching se desdobra e se organiza independentemente de um texto, repousando inteiramente no jogo de dois tipos de traço (pleno ou partido), com a série das figuras sendo exaustiva.

Os comentadores chineses se interrogaram sobre a coerência do Clássico e sua unidade, destacando a continuidade que liga os diferentes estágios de sua elaboração, cuja coerência corresponde à lógica unitária de um processo.

Diferentemente da Bíblia, cuja unidade é assegurada pelo status de texto inspirado e pela divindade da Escritura que se estende a todo o texto sagrado, os chineses, desprovidos da comodidade de uma fé na transcendência, tiveram como recurso para estabelecer a coerência e a unidade do I Ching justificar estas a partir do modo como o livro se teria constituído, retrabalhando cuidadosamente sua gênese.


O I Ching pode ser comparado à Bíblia pois ambos os livros têm a vocação de esclarecer o mistério do real, possuem uma visada absoluta e um enjeito total, servindo para “revelar a Via” (dao) e aceder à dimensão de “espírito” insondável que anima a realidade.

A única maneira de estabelecer a demarcação entre o que corresponde ao ensino do livro (porque corresponde ao real) e o que o ultrapassa e falsifica é retornar à articulação de base instaurada pelos dois primeiros hexagramas (Céu e Terra, yin e yang).

Diferentemente da Bíblia, onde Deus oculta os mistérios sob o revestimento de textos mais fáceis, criptando a Verdade para excitar o desejo dos homens, no I Ching ocorre o movimento inverso.


A manipulação do I Ching é regida pela alternativa entre “adequação” e “inadequação” (o’) que se manifesta em cada traço em relação ao momento de seu aparecimento e à posição que ocupa.

A busca no I Ching é por um relacionamento de adequação para estabelecer a conduta em harmonia com o curso do mundo, e não por uma verdade, o que cria um fosso radical entre as culturas em termos de motivação.

O I Ching coloca em adequação com a marcha das coisas (grande processo do mundo), conectando à eficácia própria deste ao colocar em fase com seu desenrolar.

O uso essencialmente moral do I Ching pode ser pervertido quando se recorre a ele com um objetivo interesseiro, para “espionar” o grande jogo do yin e yang visando a fins egoístas.

A responsabilidade do homem é estabelecida sobre estas bases: embora a “via do homem seja misturada, em seu fundamento, à realidade do mundo (Céu e terra)”, o uso que é feito do yin e yang repousa sobre o homem, “seja no bom ou no mau sentido”.