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A abertura do livro revela não uma, mas duas instâncias no começo da realidade, cujo engendramento não se deve a um querer divino transcendente, mas à interação espontânea de dois polos: o Céu e a Terra.
O mundo não é atravessado pelo raio de uma fonte única (Bem ou Amor), mas é promovido pela cooperação de duas aptidões opostas e complementares: a capacidade de “iniciativa” e a “receptividade”, simbolizadas pelos dois primeiros hexagramas do Clássico das Mutações (Qian e Kun).
A divergência entre a visão cultural chinesa e a ocidental (de tradição grega ou cristã) é flagrante, embora a antiga religião chinesa tenha conhecido cultos animistas e a ideia de um “Senhor do alto” com poder real.
A partir do fim do segundo milênio a.C., e sobretudo com a dinastia Zhou, a representação antropomórfica do todo-poderoso desaparece progressivamente, sendo suplantada pela noção de “Céu” e pela ideia de uma marcha regular do mundo (alternância do dia e noite, ciclos das estações).
As antigas divindades ctônicas fundem-se na entidade única “Terra”, parceira da eficiência reguladora do Céu, estabelecendo-se o princípio de um funcionamento bipolar (yin e yang) que se torna uma evidência para os chineses.
O Clássico das Mutações sistematiza essa representação, instaurando as duas figuras simbólicas do céu e da terra em seu dispositivo, para uma visão coerente da realidade fundada na reciprocidade e na imanência.
A importância do livro é mostrar como essa outra visão do mundo, através do trabalho do texto e comentários (especialmente o estudo de Wang Fuzhi), conseguiu justificar-se e constituir-se em lógica, colocando em questão a visão e a racionalidade ocidentais.
O primeiro movimento interpretativo de Wang Fuzhi separa os dois primeiros hexagramas (Qian e Kun) dos sessenta e dois restantes.
Os dois primeiros representam o que “preside” à mudança e que, como tal, “não pode mudar” (p. 41-42): Qian (seis traços yang, Céu) e Kun (seis traços yin, Terra) simbolizam todo o “capital” da realidade, constante e “absolutamente suficiente” (seis traços yin mais seis traços yang).
As sessenta e duas outras figuras, nascidas do cruzamento dos traços, constituem a série das variações que decorrem por interação dessa relação inicial, como casos de figura particulares.
Os dois primeiros hexagramas são independentes da particularidade do momento (p. 43), são partes integrantes de cada etapa da transformação e coextensivos a todo o processo.
O real é visado sob o ângulo dos fatores constitutivos (Qian e Kun, constância da mudança) e sob o ângulo da operação mesma da mudança (outras figuras, modificação contínua).
Nos termos neoconfúcianos, os dois primeiros hexagramas dão conta do “ser constitutivo” da mudança (seu ti) e os outros do seu “funcionamento” (seu yong).
Qian e Kun são como dois “picos” ou dois “vantais” (da mesma porta) donde procede a “via da mudança” e que não cessam de abrir sobre a transformação das coisas.
Estabelecer “em cabeça” e “a paridade” os dois primeiros hexagramas é decisivo: a mudança decorre dessa relação inicial como consequência necessária, não se constituindo em entidade metafísica anterior aos fenômenos.
A essa posição de início, a tradição chinesa deve poder representar o engendramento do real não como criação, mas por simples interação, dispensando uma causalidade transcendente.
A natureza da relação inicial (Céu e Terra, yin e yang, iniciativa e receptividade) pode ser analisada sob três ângulos diferentes: fenômenos, materialidade e capacidade.
Do ponto de vista dos “fenômenos”, o Céu espalha sua influência sobre a Terra e a penetra, enquanto a Terra se abre a essa influência e faz prosperar os existentes.
Do ponto de vista da “materialidade” (energia), o yang é “firme” e “sólido”, o yin é “souplo” e “maleável”.
Do ponto de vista da capacidade, o hexagrama Qian-Abyang corresponde ao “desdobramento” das energias (iniciativa constante de “ir sempre para frente”, jian), enquanto Kun corresponde à “condensação” (capacidade de se conformar, shun).
O yang atravessa de parte a parte a condensação yin, que tende à concentração e atualização material, desdobrando-a, animando-a e orientando-a positivamente (p. 43).
O mérito da energia yin é obedecer e “se conformar” (shun), tornando-se disponível à penetração benéfica, sob risco contrário de se coisificar e tornar inerte.
A legitimidade de isolar os dois termos antitéticos (puro yang e puro yin) é questionável, pois na realidade não existe yin sem yang, nem yang sem yin, céu sem terra, nem terra sem céu (p. 43).
Embora yin e yang “nunca se deixem um ao outro” nem “triunfem um sobre o outro” (p. 74), a inseparabilidade não significa que não possuam, cada um, sua identidade própria.
Eles são inseparáveis quanto à existência conjunta, mas são separáveis quanto aos fatores constitutivos e propriedades (em sua “natureza” e “efeito”, como zhuan).
O Clássico das Mutações privilegiou o ponto de vista das duas capacidades (iniciativa e conformidade) para evidenciar a relação inicial bipolar da qual depende todo o real.
Qian e Kun não tratam diretamente do céu e da terra (embora remetam simbolicamente) nem do yang e do yin (embora por eles compostos), mas das duas capacidades encarnadas por cada polo.
Diferentemente, os outros hexagramas remetem diretamente à natureza das coisas e às atividades humanas.
Do ponto de vista da capacidade em atuação (o de), o Sábio pode comunicar com a lógica inerente ao grande processo do real e acessar o fundamento do curso do mundo.
O processo do real se desenrola de forma imanente, independentemente do homem; é porque o Sábio experimenta pessoalmente, através de sua conduta, aquilo que promove o real no seio do yin-yang, que ele pode a ele aceder.
Embora o masculino não seja sem yin e o feminino não seja sem yang (assim como o céu não é exclusivamente yang e a terra exclusivamente yin), do ponto de vista da “atividade que desdobra”, o masculino, “espalhando”, se afirma completamente como yang, e o feminino, “recebendo”, se afirma completamente como yin (p. 822).
O céu não é totalmente yang, mas a operação que lhe é própria é totalmente yang; como realidade, tudo existe sempre como mistura, mas no nível das capacidades postas em atuação percebe-se uma pura oposição.
É legítimo representar face a face, como nos dois primeiros hexagramas, “puro” yin e “puro” yang.