Os exemplos, imagens e comparações que tecem o texto de Wang Fuzhi são mais do que simples ilustração — a temática que organizam comunica com uma certa atenção do olhar e revela escolhas determinantes na relação com o mundo, restituindo a primitividade de uma intuição e permitindo remontar ao que motivou a orientação da reflexão.
Os chineses foram tão cedo um povo de agricultores — mais do que pastores ou coletores — que foram por isso levados a ser mais atentos à fecundidade da terra ritmada pela alternância das estações.
O ponto de vista do funcionamento cosmológico serve definitivamente de ancoragem à sua visão de mundo: a natureza é um processo, contínuo e regular, inesgotavelmente generoso.
O grande ciclo da natureza é precisamente aquilo de que todos sempre fizeram experiência: na percepção individual, o menor desvio é anormal e decorre de causa patológica ou de efeito de ilusão; os fenômenos meteorológicos que podem parecer extraordinários são, quando percebidos em comum, absolutamente normais e legítimos, mesmo que nem sempre se perceba as razões dessa normalidade.
A referência à ordem da natureza cria unanimidade, evacua a estranheza — o mistério não é mais um fato primeiro, mas apenas residual.
O discurso letrado é um discurso eminentemente simples, tanto mais difícil de ler quanto mais simples — pois não constrói nada —, e todo seu esforço é o de tentar se afastar o menos possível da evidência de um curso natural; e, uma vez que tal experiência da natureza como Processo desvela por si mesma sua própria coerência, que lugar poderia ainda haver, num tal mundo, para a espera de qualquer Revelação?