VISÍVEL-INVISÍVEL

FJPC

O pensamento ocidental da criação não se limita à explicação mitológica das origens do universo, servindo também para cifrar uma experiência do absoluto e do inexprimível, abrindo para a dimensão religiosa da existência.

A tradição idealista do Ocidente opõe o visível e o invisível como aparência e realidade, distinção que a tradição letrada chinesa ignora categoricamente por não se colocar a questão do “ser”.

As noções de latência e atualização indicam a relação do visível e do invisível na tradição letrada.

A relação do invisível ao visível é a da latência à sua atualização, concebida sem ingerência externa pelo fato de o invisível ser o ser constitutivo do processo e sua atualização, o funcionamento.

Quando a energia universal se condensa, o visível aparece e uma atualização se forma; quando se dissolve, o visível desaparece e a atualização é resolvida.

A estrutura do hexagrama do Livro das Mutações, tal como concebida por Wang Fuzhi, representa de forma adequada a realidade ao fazer coabitar o latente e o manifesto.

O hexagrama ensina que o invisível não apenas circunda ciclicamente o visível, mas coexiste em seu seio como seu reverso ou seu duplo.

A tradição chinesa foi atenta à lógica interna que conduz do estágio do mais ínfimo e sutil ao pleno desenvolvimento, como na análise de Wang Fuzhi sobre a consciência para a prevenção moral.

A visão chinesa distancia-se dos graus do “ser” da metafísica platônica, que opõe a aparência efêmera do visível ao estatuto eterno e separado do invisível.

A concepção chinesa do visível e do invisível serviu de fundamento privilegiado para a reflexão estética, utilizando a imagem do vento para evocar o sentido poético.

A intuição estética da relação entre visível e invisível manifestou-se cedo na tradição chinesa, fundamentando o valor dos ritos e da música.