O wu — simples negação, por vezes empregado substantivamente — é o instrumento da via negativa que denega ao Tao toda qualidade e toda forma suscetível de precisão, tratando do Tao que “retorna onde não há seres” (Lao 14), o vazio no sentido de ausência de qualquer coisa existente, o vazio original do qual só se pode ter uma imagem sem forma.
No plano do comportamento, o wu é o emblema da despossessão do Santo: a virtude deste é não-virtude, seu agir é não-agir — rejeitado está todo esforço laborioso em direção ao bem ou ao melhor, bem como todo juízo de valor.
O Santo, como a Via natural (o Céu), como o Tao, é “indiferente”: “Céu e Terra são sem benevolência; / Tratam a miríade dos seres como cães de palha. / O Santo é sem benevolência; / Trata as cem famílias como cães de palha.” (Lao 5)
“O Santo se estabelece na prática do não-agir, / Dispensa um ensinamento sem palavras. / A miríade dos seres emerge e ele não os rejeita; / Fá-los viver, mas não os possui; / Age sem assurance. / Sua tarefa cumprida, não se demora nela. / Como não se demora, ela não desaparece.” (Lao 2)
“Grande perfeição parece um defeito, / Mas se exerce sem se esgotar. / Grande plenitude é como vazio, / Mas se exerce sem se secar. / Grande retidão parece torta, / Grande habilidade parece desajeitada, / Grande eloquência parece gaguejar.” (Lao 45)
A um só tempo vazio intersticial e vazio de acolhimento, o wu é sinônimo de receptividade — é o que torna habitável uma casa, utilizável um vaso: “Trinta raios se juntam a um único cubo, nesse vazio se funda o uso do carro. / De um torrão de argila se molda um vaso, em seu vazio se funda o uso do vaso. / Janelas e portas são abertas em um cômodo, nesses vazios se funda o uso do cômodo. / A existência traz uma vantagem, e a não-existência (o vazio) é seu uso.” (Lao 11)
O vazio extremo é quase sinônimo de quietude (Lao 16) — vazio mental e afetivo, ausência de preconceitos, preferências e desejos; em razão da dialética dos opostos, esse vazio receptáculo atrai o pleno, é flexibilidade e força atrativa, da qual a feminilidade é o símbolo.
Apoiando-se na renúncia, o Santo toma as coisas a contrapé: renuncia para obter, faz-se fraco para ser forte — “O Santo, colocando-se para trás, é posto à frente, / Pondo-se fora do curso, permanece presente.” (Lao 7)