MALINAR, Angelika. The Bhagavadgītā: doctrines and contexts. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.
Bhagavadgita 5: a substituição da agência
1. Diante do pedido de Arjuna para saber se é melhor a renúncia aos atos ou sua execução yóguica (5.1), pergunta que revela a novidade de combinar ideias tidas como mutuamente exclusivas, Krishna declara o karmayoga superior à renúncia aos atos, mas admite que ambos levam à meta suprema e identifica Samkhya e yoga como uma só coisa quanto aos frutos (5.4-5), afirmação paralela a passagens do Mokshadharma que talvez indique o interesse de um redator em ligar a Gita a essas posições, sem impedir a preferência pelo karmayoga.
2. A preferência pelo karmayoga se justifica porque a renúncia sem perícia no yoga é difícil e pode gerar nova servidão kármica, ao passo que o yogue logo alcança o brahman (5.6), sendo o yoga necessário à verdadeira renúncia por conferir o autocontrole de um caminho fundado na cosmologia do Samkhya, descrito como subida pela escada dos elementos da criação até a “conquista” do mundo criado (5.19).
3. A conquista do mundo criado explica como agir sem consequências kármicas e por que essa capacidade é condição da libertação, deslocando-se a ideia de equiparação dos capítulos anteriores para a busca yóguica de efetivamente “tornar-se brahman” e agir como ele, mediante o domínio progressivo da hierarquia de faculdades do eu ativo, processo ao mesmo tempo subjetivo e cosmológico, pois, pela continuidade entre indivíduo e cosmo pressuposta no Samkhya, o yogue alcança os níveis cósmicos correspondentes e os poderes extraordinários neles contidos, tratados explicitamente na Gita apenas no yoga da soberania atribuído a Krishna.
4. O yogue que atinge o estágio supremo da hierarquia cósmica, o brahman, aqui equivalente à prakriti em seus poderes criadores, fica livre do karman e torna-se brahman (5.24), estado de transição em que suas atividades continuam, mas já cósmicas e impessoais, sem servidão, e do qual, mantida a união desapegada, ele será libertado na morte, sendo também um ser poderoso, siddha ou ishvara, num domínio que é ao mesmo tempo plenitude potencial da criação e estágio indiferenciado chamado avyakta ou mahan atman.
“O eu de todos os seres”
1. A explicação começa pelo fim do processo, com o yogue purificado e senhor de si e dos sentidos que não se mancha ao agir porque seu eu se tornou o eu de todos os seres (5.7), composto cuja interpretação oscila entre a identificação do eu imortal com o de todos os seres e a equiparação do eu elementar, o complexo físico-mental criado pela natureza, com o de todos os seres, sendo esta segunda leitura preferível por explicar a ausência de mancha na atividade contínua e concordar com o contexto, que não menciona um eu imortal.
2. Nesse estado o yogue, ao ver, ouvir, comer, andar ou respirar, pensa que nada faz, sabendo que apenas os sentidos se ocupam de seus objetos (5.8-9), e, lançando todas as ações sobre o brahman e abandonando o apego, não é manchado pelo mal, como a pétala de lótus pela água (5.10), de modo que renunciar não é deixar de agir, mas deixar agir a fonte cosmológica de toda atividade, equiparando o eu ativo à sua causa última.
3. A equiparação do eu físico com a causa de toda existência física gera desapego e indiferença sem suprimir a atividade, pois despersonaliza as faculdades e as expande em sua forma cosmológica, ao mesmo tempo que abre a possibilidade de abandonar definitivamente o mundo, sem que se informe nada sobre essa libertação ou sobre um eu imortal, revelando que o interesse central é explicar como o yogue pode agir livre de consequências kármicas.
4. Esse estado demarca uma interface cosmológica e uma encruzilhada soteriológica, em que se pode permanecer no controle do próprio eu corporal e dos poderes criadores ou deixá-lo e libertar o eu imortal, sendo, de cima para baixo, o estágio da criação imanifesta em plena potência e, de baixo para cima, o último estágio do yogue antes da libertação, noção presente também em outras partes da epopeia, em Upanishads e no budismo, cujo exame ilumina os capítulos 5 e 6 e a posição de Krishna como libertado e poderoso senhor de todos os seres.
Significados de atman
1. A polivalência semântica de atman exige distinguir seu sentido original de pronome reflexivo, que designa o corpo ou a pessoa empírica, o complexo físico-mental a ser contido na prática yóguica, por vezes chamado “eu elementar” (bhutatman), do sentido de eu imortal ou superior, eternamente libertado e impossível de ser objeto de controle yóguico, de modo que o composto de 5.7 pode ser entendido como “seu eu elementar tornou-se o eu elementar de todos”, isto é, do cosmo, ligando o yogue ao eu elementar do universo, o brahman, causa e plenitude da criação.
2. A estrutura aparentemente binária é na verdade triádica, pois o eu empírico compreende, além dos elementos da natureza, um eu encarnado que lhes dá coerência e propósito, chamado eu interior, controlador interno, eu vivo, conhecedor do campo ou “eu dos elementos”, semelhante a um deus criador que controla, dirige e transforma o eu elementar, como na Mundaka Upanishad, onde o purusha cósmico é o eu interior de todos os seres.
3. No Samkhya clássico esse eu responde pelo desenho e pela condição soteriológica de sua encarnação, pois ao unir-se à causa da criação o eu imortal mas ignorante entra momentaneamente em contato com todo o potencial criador, depois restringido pelo karman na formação de um corpo individual, estágio que em textos antigos e no Samkhya épico é também o do criador, chamado eu de todos os seres ou grande eu, primeiro momento indiferenciado e imanifesto da criação em plena potência, multiforme e universal, razão pela qual deuses criadores e outras fontes do universo podem assumir uma forma que contém todas as formas, interpretando-se a cosmogonia como encarnação e protótipo da somatogonia.
4. Nesse estágio convergem criador e poder criador num estado de expansão e totalidade em que todos os seres existem virtualmente antes de se manifestarem, chamado avyakta do ponto de vista do poder criador e mahan atman do ponto de vista do eu encarnado, encruzilhada entre criação e libertação que BhG 5 apresenta da perspectiva do yogue que o alcança e o vive como identidade e totalidade, vendo todos os seres iguais por serem criados pela mesma causa, de modo que o centro de interesse não é o eu imortal, mas tornar-se brahman e o eu de todos os seres.
Libertação como “igualdade”
1. Visto da perspectiva de um eu encarnado que busca a libertação, atingir a convergência entre eu e poderes criadores implica o conhecimento que distingue o funcionamento do karman e da criação da posição do eu, continuando a ação de modo impessoal e sem repercussões, estágio que é a última parada antes da libertação, porta de saída que deve desaparecer, ou lugar de queda para quem fracassa, sendo controlado pela faculdade suprema, a buddhi, que mantém o conhecimento de nada fazer, posição alcançada pelo yogue após longa subida, enquanto para o eu supremo ou a causa da criação é o ponto de partida.
2. Atingir essa posição explica por que a verdadeira renúncia se dirige ao apego e não aos atos e por que o yogue conquista uma paz duradoura (5.11), existindo então como eu encarnado soberano, desligado de um corpo individualizado, que compreende a atividade de mente, sentidos e corpo como processo natural e impessoal, e os que conquistaram a criação veem o mesmo num brâmane, numa vaca, num elefante, num cão e num pária, repousando na igualdade do brahman imaculado e indiferente (5.18-19), encontrando bem-aventurança permanente pelo contato com o brahman (5.21) e, resistindo ao desejo e à ira até deixar o corpo, alcançando como brahman o brahmanirvana (5.23-24).
3. O brahmanirvana, já presente em BhG 2.72 no contexto de yoga e morte, tem sido interpretado como reino de libertação, como esfera entre libertação e criação ou como equivalente da prakriti, sendo as duas últimas leituras mais condizentes com a descrição da prática yóguica, em que o brahman é força criadora pronta para criar e esfera em que toda atividade cessa se o eu dela se separa, enquanto a tradução “nirvana que é brahman” sustenta uma doutrina monista sem mencionar a fusão do eu encarnado com o brahman.
4. Numa leitura samkhya, a fusão dos elementos do corpo na prakriti ou brahman significaria a separação do corpo e a libertação do eu como extinção do brahman enquanto domínio da atividade, sem declaração clara sobre a libertação do eu, ausência explicável por ser o objetivo do capítulo ensinar a verdadeira renúncia e a morte libertadora do yogue, que garante o fim do renascimento e protege Arjuna das consequências de seus atos, e, excluída a interpolação teísta de 5.29 que faz de Krishna a meta, o brahmanirvana permanece como meta própria, sendo mais plausível uma interpretação monista em que o eu individual se funde e se extingue no brahman, origem e fim de todos os seres.
5. O uso de nirvana indica familiaridade com o budismo, numa época de comunidades e doutrinas em formação em que os autores da Gita lidam com diferentes tradições de yoga e renúncia por meio de duas estratégias, a reinterpretação por equiparação e a subordinação por hierarquização, prevalecendo nos capítulos 2 e 5 a primeira, com um yoga voltado à destruição do karman e à morte libertadora, cuja mensagem às tradições budistas seria a de que sua doutrina da libertação nada tem de nova e pode ser descrita em termos upanishádicos, enquanto, do ponto de vista do Samkhya, a hierarquização se faz separando o aspecto criador do aspecto libertador do brahman e definindo a libertação como autorrealização, o que abre caminho à sobreposição de um eu supremo como senhor de todos os eus, como no caso de Krishna.