O pensamento ocidental concebe o espaço e o tempo como meios diáfanos, nos quais todos os fatos se situam ou são datados. Ordem das simultaneidades, ordem das sucessões, segundo Leibniz. Formas a priori da sensibilidade, segundo Kant. E Newton via neles duas realidades, cada uma delas homogênea.
Isso nos vem da herança grega: o espaço de duas ou três dimensões, para Euclides, e o tempo, quadro abstrato dos movimentos no espaço, ou, mais precisamente, como diz Aristóteles, “número do movimento”. Esses dois domínios permitiam encaixes formais; sabe-se que Bergson detectou no Estagirita a propensão a admitir o espaço apenas como algo que comporta localizações: todo dado espacial se determina por seu lugar, topos, ou seja, por sua situação em um recipiente (Quid Aristoteles de loco senserit).
A civilização indiana difere, nesse ponto, da grega, na medida em que não chega à física por meio da geometria, à qual os helenos se deram conta ao meditar sobre o levantamento topográfico egípcio. Fato tanto mais notável quanto a comunidade da língua indo-europeia poderia sugerir semelhanças no pensamento. Os latinos não têm, em locus (lugar), a palavra sânscrita loka, que significa mundo ou parte do mundo? Mas o espírito grego era essencialmente geométrico, enquanto o espírito indiano se deleitava com a álgebra: uma referência que nunca deveríamos ignorar.
As inclusões algébricas dizem respeito mais ao cálculo do que à intuição. Elas são manobradas e jogadas, em vez de serem contempladas (em uma theoria). A Índia possui uma física vibracional, de dança e de jogo, e não uma física da geometria como a de Platão e a de Descartes. Bergson nunca teria precisado se esforçar para fazer com que os hindus admitissem que o tempo verdadeiro, a duração pura, difere da localização espacial; pois esse povo considera o tempo e o espaço como abstrações e o ritmo como a única realidade. Acrescentemos que o gênio do Extremo Oriente compartilha da mesma convicção. E que a antropologia atesta, em geral, entre os chamados “primitivos”, a primazia do ritmo vivido sobre a representação abstrata, espaço-temporal, do Cosmos. O caso “helênico” — considerado normal — é, na verdade, bastante excepcional; e nosso intelectualismo vem de Atenas.
Mas há espaço, na opacidade das mentalidades indianas, para teorias diversas e complexas, das quais este artigo dará apenas uma vaga noção. O espírito indígena se deleita com uma concepção vibracional. O âkâça, que traduzimos imprudentemente como “espaço”, é a vibração universal na qual se integra a de cada realidade particular, a das coisas e a dos processos vitais, inclusive psíquicos, denominada vritti, redemoinho. Não obstante, a reflexão indiana concedeu um espaço imenso ao atomismo. Digamos, antes, a múltiplos átomos. Pois, se a Grécia conheceu apenas os de Demócrito e, depois, os de Epicuro, a Índia concebeu atomismos da mais variada relatividade. Destacaremos apenas dois exemplos: os corpúsculos do jainismo, envoltos em invólucros protetores (relação entre recipiente e conteúdo, como em Aristóteles), e os átomos temporais dos budistas, com a fugacidade do instante.
Essa física vibratória se coaduna com teologias nas quais os deuses são sobretudo animadores, assim como com soteriologias em que os bodhisattvas também o são. Os hindus, mesmo os que alcançaram o nirvana, não concebem nem o absoluto nem a libertação como uma inércia beatificamente eterna: eles a querem viva e se afirmando em atos religiosos incansavelmente renovados.
Vishnu, que atravessa o mundo em três passos, é o onipresente, o arquetipo do deus da imanência. O devoto se deleita em repousar nele, em total passividade, onde se iguala a tudo. Ilimitadas são as formas do divino que essa divindade assume como seus avatares, encarnações temporárias. Por coincidir com a totalidade do ser, ela se manifesta como um estilo de espacialidade integral.
Shiva, por outro lado, situa todo o devir em seu jogo diapré. Como asceta, ele domina; como dançarino, ele emana em sua shakti sob formas incontáveis. Não é o ritmo que dispõe de tudo, instituindo no tempo aparências espaciais? Vishnu se deixaria confrontar com o absoluto, segundo Malebranche ou Fénelon; Shiva só pode ser comparado à substância que jorra eternamente em infinidade de atributos infinitos, segundo Spinoza, mestre dos românticos. A extensão, domínio da nossa ciência física, é apenas um de seus atributos; nosso pensamento também. O Ser é arte ou fervor: arte para Tagore, fervor para Ramakrishna.