0 Prólogo

PANIKKAR, Raimundo. Espiritualidad hindú: Sanātana dharma. 1. ed ed. Barcelona: Kairós, 2005.

1. Tudo o que se faz, come, oferece em sacrifício, dá em esmola ou pratica como austeridade deve tornar-se oferenda ao divino, pois aquele que o ama não se perde. (Bhagavad Gita)
2. O Espírito sopra onde, quando e como quer, manifestando uma liberdade que não se submete à determinação humana. (Jo III,8)

3. A experiência iniciática no hinduísmo, amadurecida durante meio século, conduziu da prática impulsionada pela condição biológica e pelo karma à reflexão intelectual destinada a assimilá-la criticamente, tornando necessário um estudo sistemático menos condicionado pela linguagem cristã previamente adquirida.

4. Apesar da abundância de estudos sobre o hinduísmo, uma exposição didática e sintética de sua espiritualidade conserva sua utilidade, reconhecida novamente durante uma interrupção circunstancial do percurso de investigação.

5. A retomada de um escrito antigo, quando ainda permanecem estudos aparentemente mais importantes por concluir, suscita a questão do sentido de dedicar a essa revisão o tempo disponível em uma etapa avançada da vida.

6. A interrupção de outros estudos por motivos de saúde possibilitou retomar uma antiga exposição da espiritualidade hindu, inicialmente destinada a acompanhar intelectualmente a imersão pessoal na religião dos antepassados, mas sua atualização exigiu muito mais que correções formais, pois cada linha precisou ser repensada à luz da experiência revivida para responder à busca espiritual de leitores decepcionados com religiosidades rotineiras.

7. O tempo dedicado à revisão, considerado desperdiçado por alguns amigos, adquire sentido como serviço aos possíveis leitores e como preparação para uma transformação espiritual mais profunda, cuja realização concerne à humanidade inteira e não apenas à aventura individual.

8. O interesse legítimo do Ocidente por outras formas de espiritualidade requer uma apresentação descritiva dos traços fundamentais da tradição hindu, sem exaltações nem depreciações, acompanhada de esclarecimentos que favoreçam o aprofundamento e contribuam para enfrentar a superficialidade disseminada na cultura contemporânea.

9. A introdução ao dharma hindu deve oferecer acesso a leitores diversos e possibilidades de consulta aos interessados em aprofundamento, contrariando a ilusão de que seria possível apropriar-se dessa espiritualidade com esforço mínimo.

10. A designação hindu abrange um conjunto de religiões do subcontinente indiano, também presentes em grande parte do sul da Ásia, cuja diversidade não remonta a um fundador único.

11. O dharma designa uma realidade sem fundador e cujas fronteiras não são outras senão as humanas, ultrapassando delimitações institucionais particulares.

12. O dharma hindu não possui limites previamente fixados nem fronteiras doutrinais rigorosamente delimitadas, mantendo uma relação transcendental com uma maneira concreta de encarnar a espiritualidade humana.

13. Enquanto a tendência ocidental privilegia a árvore individual e apreende a floresta como abstração, grande parte da sensibilidade oriental contempla a floresta sem enfatizar seus elementos isolados, de modo que a autocompreensão hindu se funda no horizonte humano comum das diferentes maneiras de realizar plenamente a humanidade, considerando secundárias suas características distintivas, cuja indevida absolutização produziu graves equívocos históricos.

14. A classificação por gêneros e diferenças, exemplificada pela árvore de Porfírio e pelo edifício da ciência moderna, mostra-se inadequada à compreensão da espiritualidade hindu, pois as espiritualidades não se deixam separar pelo mesmo princípio de exclusão aplicável aos elementos químicos e aos conceitos, e aquilo que caracteriza externamente uma tradição não constitui necessariamente sua essência.

15. A autocompreensão humana da espiritualidade hindu não a torna universal, mas favorece a descoberta de dimensões obscurecidas da própria identidade, permitindo reconhecer possibilidades de vida espiritualmente significativas sem exigir uma conversão entendida como simples transferência de pertencimento entre instituições.

16. A espiritualidade pode ser utilizada como justificativa para a omissão diante dos problemas políticos, mas esse perigo não legitima sua exclusão da vida coletiva, pois uma tarefa decisiva do presente consiste em recuperar a dimensão sagrada da secularidade, compreendida como secularidade sagrada e distinta do secularismo.

17. A separação histórica entre este mundo e o outro, entre religião e política, exige uma união dessas dimensões humanas que preserve sua distinção e supere os monismos, encontrando na não dualidade, ou advaita, uma chave para a transformação radical e necessariamente não violenta do sentido da vida, reclamada pelo sofrimento de grande parte da humanidade.

18. A espiritualidade autêntica participa dessa transformação profunda, diante da insuficiente duração das revoluções e da vitória apenas aparente dos que se proclamam vencedores, enquanto os fracos, mediante sofrimento e paciência, acabam por fazer prevalecer suas aspirações, cuja compreensão pode ser favorecida por experiências alheias mais que por doutrinações.

19. A renovação da antiga investigação encontra sua justificativa na possibilidade de favorecer a metanoia, entendida como transformação inspirada por um chamado que, embora frequentemente ignorado e traído durante dois milênios, permanece entre as poucas fontes de orientação para a humanidade.

20. A relativa ausência de referências explícitas à Índia moderna decorre da permanência do caráter clássico da espiritualidade hindu, apesar do peso sociológico da modernidade, ficando o exame mais específico dessa relação reservado a uma investigação desenvolvida ao longo de décadas.

21. O hinduísmo não deve ser identificado com sua apropriação pelos partidários da hindutva, pois valorizar os ensinamentos da Gita e a tradição sânscrita não implica depreciar o Tirukural ou a língua tâmil, embora permaneça o risco de uma perspectiva unilateral.

22. A grande família das religiões hindus não compreende todas as espiritualidades do subcontinente, deixando fora desse âmbito tradições populares anteriores ao hinduísmo, a espiritualidade adivasi e a consciência dalit, razão pela qual o predomínio das fontes sânscritas precisa ser reconhecido como uma limitação histórica, compatível com a valorização da dessanscritização do hinduísmo e da deselenização do cristianismo.

23. A espiritualidade hindu possui lacunas e sombras, como qualquer religião, mas seu valor próprio e sua capacidade de enriquecer outras formas de religiosidade justificam a atenção aos aspectos que interpelam o leitor ocidental, mediante uma abordagem que procure conciliar abrangência e imparcialidade sem ocultar deficiências nem concentrar-se exclusivamente nelas.

24. A regra de ouro da hermenêutica exige que uma interpretação seja reconhecida como válida por aqueles cuja experiência interpreta, de modo que a descrição de uma visão monista deve ser aceita como fiel pelos próprios monistas, sem que esse reconhecimento impeça uma crítica posterior.

25. A tolerância religiosa contemporânea foi frequentemente alcançada mediante a privatização da espiritualidade e sua perda de relevância social, favorecidas pela caricatura de Deus e pela ideologia tecnocrática, mas a superação dessa situação não precisa assumir formas fanáticas, podendo encontrar estímulo em uma espiritualidade que ainda constitui uma força viva na cultura indiana, apesar de também atravessar uma crise.

26. O dharma hindu, embora marcado por particularidades e por recentes manifestações fundamentalistas, não pretendeu restringir-se à especialidade de uma religião, mas expressar uma espiritualidade universal como sanatana dharma, capaz de favorecer o aprofundamento da própria vida para além da aquisição de informações sobre uma tradição alheia.

27. A compreensão intercultural da espiritualidade hindu exige reconhecer que palavras como Deus e homem adquirem sentidos diferentes nos horizontes hindu e ocidental, devendo ser inicialmente situadas no campo de inteligibilidade de sua cultura de origem, enquanto comparações pontuais com o cristianismo e generalizações limitadas podem esclarecer contrastes sem reduzir nenhuma dessas tradições a uma identidade monolítica.

28. As quatro décadas transcorridas desde a preparação inicial permitiram aperfeiçoar formulações e introduzir novas ideias sem romper a continuidade da exposição, conferindo à reelaboração o caráter de uma investigação renovada.

29. A vulgarização da vida espiritual e a atrofia de suas raízes, perceptíveis tanto no Ocidente quanto no Oriente, tornam necessária uma fecundação recíproca entre tradições, pois o conhecimento de outra religião pode revelar dimensões da própria que permaneceriam desconhecidas em uma experiência culturalmente isolada.

30. A espiritualidade hindu compreende a vida humana como uma liturgia na qual a natureza, o ser humano e os deuses cooperam para a manutenção do universo, expressa pelo lokasamgraha da Bhagavad-gita, oferecendo uma possibilidade de compreensão que ultrapassa a discussão sobre o monoteísmo rígido e o aparente fracasso do Deus da história.

31. A resposta de um comerciante de Mumbai que, interrogado por turistas ocidentais sobre quem era o dono do estabelecimento, apontou para o céu e nomeou Bhagavan, o Senhor, manifesta uma percepção na qual Deus está em todas as coisas e todas as coisas estão em Deus, inseparável da integração entre religião e vida, entre o divino e a criação, e vinculada a uma cosmologia renovada, uma antropologia distinta e uma teologia mística.

32. A comunicação espiritual pode revelar por sugestões aquilo que não formula explicitamente, à maneira da Sibila de Delfos, pois a função de quem escreve consiste em fazer crescer quem escuta, mediante uma inspiração que exige também do leitor uma iniciação à compreensão, uma vez que ninguém nasce sabendo ler.

33. Entre a pretensão de dizer tudo e a redução da realidade a compartimentos isolados, a atualização de uma investigação espiritual exige reviver suas intuições e penetrar novamente sua complexidade, reconhecendo as sombras da tradição sem renunciar à força nutritiva de uma espiritualidade positiva e livre de fanatismo, cuja ascensão convida a interromper o caminho, respirar mais profundamente e perceber que a jornada não é solitária.

34. A exposição preserva sua extensão manejável ao dispensar a tradução integral de numerosos textos importantes e limitar-se à indicação de suas fontes.

35. A colaboração de Germán Ancochea tornou possível recuperar a primeira edição, renovar sua apresentação e preparar a publicação, incorporando a perspectiva do leitor não hindu e contribuindo para que a investigação se convertesse em alimento espiritual acessível para além dos participantes de uma única tradição.