0.1 Introdução

PANIKKAR, Raimon. Mysticism and spirituality I-1. English edition ed. Maryknoll, New York: Orbis Books, 2014.

Introdução

1. O primeiro volume da Opera Omnia tem caráter em parte autobiográfico, por tratar do tema mais importante de uma vida inteira, a mística, que inspirou todos os demais escritos a ponto de tornar-se sua chave hermenêutica indispensável.

2. A mística representa a terceira dimensão que dá relevo e vida a todas as páginas, pois reduzir a existência aos sentidos ou à razão limita o homem a uma espécie entre as formas de vida, o animal racional, quando a vida humana, zōē, não é apenas existência biológica, bios, e o homem é não só semelhança de Deus, Fonte, Princípio, Manancial ou Causa, equivalentes homeomórficos, mas também imagem da Realidade, mikrokosmos que espelha todo o makrokosmos, como diziam os antigos até Paracelso e os seguidores da philosophia adepta, sendo a distinção entre imagem e semelhança mais teológica que lexical.

3. A divisão do volume em duas partes atende a razões práticas, mas mística e espiritualidade podem ser distinguidas, não separadas, e poucos temas tiveram pior reputação em certos círculos do que a mística, sobre a qual se escreveu demais e mal, situação ainda mais grave quando se acrescenta o tema da espiritualidade.

4. Como filhos do tempo presente, aceitou-se acriticamente a segunda regra de Descartes, crendo que a especialização traria clareza e distinção e confundindo evidência racional com compreensão, o que reduziu a mística a fenômenos extraordinários ou esotéricos e a espiritualidade a um treino do espírito separado do corpo, quando não antagônico a ele, como se o homem fosse alma aprisionada num corpo, crença que o próprio cristianismo adotou em contradição com o dogma da ressurreição da carne, de modo que, sob a persistente influência cartesiana que torna a res extensa alheia ao pensamento, sem o corretivo da mística o homem se reduziria a um bípede racional ou racionalista e a vida humana à supremacia da razão.

5. A definição mais concisa de mística seria experiência da Vida, tratando-se da experiência e não de sua interpretação, ainda que o conhecimento dela seja concomitante, de modo que ambas devem ser distinguidas sem ser separadas, e de uma experiência completa e não fragmentária, já que frequentemente não se vive a plenitude da vida por uma experiência incompleta e dispersa em nível superficial.

6. A mística não é privilégio de poucos eleitos, mas a característica humana por excelência, sendo o homem essencialmente místico ou, se concebido como animal movido por uma anima, o animal místico, embora a animalidade, mesmo racional, não o defina, pois ele é mais espírito feito carne que forma de vida racional, talvez animal espiritual, se anima for entendida segundo a etimologia indo-europeia de sopro e respiração, incluindo também o espírito.

7. As múltiplas práticas espirituais, chamadas meditação, yoga, contemplação, vipassana, tantra, jing ou de outro modo, reduzidas à sua essência, convidam todas a concentrar-se no essencial e a ter plena consciência de estar vivo e de poder viver a vida em plenitude sem distrações, pois nem todos têm inteligência ou saúde médias, riqueza, bondade ou instrução, mas todos estão vivos e podem sabê-lo, ainda que a plena consciência da vida muitas vezes escape.

8. A consciência que se tem da própria vida costuma estar associada à sua interpretação, objetivada pelas próprias categorias e julgada pelo modo de vivê-la, e não é a consciência pura da vida em si, a vida que toma consciência de si mesma, o cit anantam dos Upaniṣad, consciência infinita de cujo destino se participa, que não pertence ao ego e desaparece quando se tenta apropriá-la, razão pela qual a mística ensina que é preciso morrer para o ego egoísta para fruí-la, tendo a expressão experiência da Vida dupla declinação possessiva, objetiva e subjetiva, como experiência que se tem da Vida e como experiência da Vida que está em nós.

9. Até muito recentemente a mística foi vista como fenômeno particular e fora do comum, alheio ao âmbito normal do conhecimento humano, patológico, paranormal ou sobrenatural, quando se trata de reinseri-la no próprio ser humano, espírito místico, animal racional e ser corpóreo, como dimensão antropológica e não campo de especialistas, sendo toda pessoa mística ao menos em potência, de modo que a verdadeira mística não desumaniza, mas mostra que a humanidade é mais, e não menos, do que pura racionalidade.

10. A vida humana une e distingue todas as pessoas, e até o século passado a crença na geração espontânea fazia da vida o transcendental absoluto do ser, sinônimo de Ser, até que no século XIX, com o refinamento da empeiria, surgiu em torno de Pasteur o dogma de que todo vivente procede de outro vivente, tornando a vida privilégio de certos seres caracterizados pela reprodução biológica, que traz consigo a morte, consagrando cientificamente o abismo entre matéria inerte e ser vivo, relegando outras concepções à magia e ao pensamento primitivo, restringindo a física à matéria inerte e tornando a vida de Deus um dilema, a menos que também Deus morresse, apesar da tentativa de alguns teólogos de distinguir zōē e bios.

11. Sem negar as diferenças essenciais entre os seres nem adotar acriticamente interpretações de outras tradições, Vida e Ser podem ser aceitos como homólogos, aplicando-se a analogia entis à analogia vitae e propondo, a partir da fórmula latina de origem aristotélica segundo a qual para os viventes viver é ser, que para os entes o ser é a vida, pois o ser é conceito abstrato e a vida noção imediata, intuição afim à tradicional e tantas vezes mal interpretada crença na anima mundi.

12. O mythos do século passado, simbolizado por Sigmund Freud, que via a mística como fenômeno psicológico de evasão, e por Romain Rolland, que a via como sentimento oceânico, situava-a ambos no âmbito do primitivo e do sobrenatural, mas nomes como Radhakrishnan, Dasgupta, von Hügel, Otto, Heiler, Eliade, Lévy-Bruhl, Blondel, Bergson, Baruzi, Brémond, Guénon, William James, Huxley, Sherrard, Underhill e Zaehner representam uma recente reintegração da mística na reflexão filosófica, sem falar de numerosos pensadores contemporâneos e da própria noção tradicional de filosofia, essencialmente mística.

13. Trata-se de uma experiência da Vida circunscrita ao especificamente humano, a experiência humana da Vida, cuja forma completa seria a experiência mística em seu sentido mais genérico, razão pela qual a mística é alegre, como diz o ditado de que um místico triste é um triste místico, sendo a realidade sat, Ser, cit, Consciência, e ānanta, Infinitude, ou ānanda, Felicidade, segundo o vedānta.

14. A grafia de Vida com maiúscula visa não excluir a priori que a vida tenha dimensões além das fisiológicas e psíquicas, pois existe também uma vida espiritual, uma Vida do Ser e, paradoxalmente, uma Vida da matéria.

15. Por mística entende-se, portanto, essa experiência integral da Vida.

16. A palavra vida é preferida a realidade por estar mais próxima da experiência, pois, embora no fim se equivalham, a realidade é um conceito que exige explicação, enquanto a vida é algo que se experimenta diretamente, já que como viventes se participa da Vida, ao passo que o Ser é concebido por dedução, indução ou, no máximo, intuição, e a Vida é vivida e conhecida, de modo que o título poderia ter sido Experiência do Viver, não fosse demasiado ambíguo.

17. Por clareza, a palavra realidade será usada muitas vezes em lugar de Vida conforme o contexto, e o horizonte assim delineado não abriga fenômenos extraordinários nem elucubrações conceituais, mas uma aproximação ao problema fundamental do ser humano, o Ser que somos.

18. Todos têm consciência de estar vivos e de que a vida é um valor supremo do qual tudo depende, sendo sua preservação o primeiro instinto humano, e essa experiência básica atinge níveis distintos e inseparáveis de profundidade, pois uns se sentem vivos ao sentir o sangue pulsar nas veias, com toda a riqueza de paixão e sentimento, outros ao pensar e perceber sua capacidade de sentir o pulso da realidade, numa experiência intelectual da Vida, e outros ao compreender que a Vida os transcende e lhes foi dada como dom e graça, ainda que às vezes pareça desgraça, três experiências unidas, correspondentes, segundo a antropologia tripartite, ao corpo, à alma e ao espírito.

19. A experiência da Vida pode ser entendida em sentido possessivo subjetivo, como experiência não minha nem nossa, mas da própria Vida, que, não sendo nossa, parece exigir um sujeito, o que levou alguns a postular um Ser absoluto, como nas escrituras que dizem que nele estava a Vida, enquanto outros evitam substancializá-la fora da miríade de viventes, mas em todo caso essa Vida tem experiência de si mesma, e cada um participa dela com graus variados de clareza e profundidade.

20. A experiência da Vida não é a da própria vida, mas a daquela Vida que não é minha, embora esteja em mim, imortal e infinita segundo os Veda, divina para alguns, que se pode sentir pulsar ou simplesmente viver dentro de si, admitindo interpretações que vão do sentimento oceânico à sensação biológica de viver e à experiência de Deus, de Cristo, do Amor ou do Ser.

21. Segundo são Justino, no século II, a experiência da Vida, zōē, é a experiência do doador da vida, pois a vida própria não vive por si mesma, mas participa da Vida.

22. Isso não elimina o discernimento nem afirma que todas as experiências, intimamente ligadas à sua interpretação, sejam iguais e de igual valor, nem nega que, por sua formulação, se possa falar de experiências falsas ou imaginárias, que então não seriam experiências, pois não se trata aqui das diversas formas de mística, mas da própria experiência, que só pode ser chamada humana e é definida precisamente como mística.

23. Segundo a antropologia tripartite, é preciso manter abertos os três olhos para essa experiência integral da Vida, intocada pelas faculdades reflexivas, mas a euforia moderna pelo racionalismo, e não pela razão, atrofiou o terceiro olho, o da fé não reduzida a credo, aquela fé que santo Tomás chamava vida da alma e que torna possível a fruição da Vida, aquilo em que mais se encontra deleite, de modo que a experiência mística conduz à plena alegria de viver, como mostram Ramon Llull ao dizer que o filósofo está sempre alegre, o vedānta ao fazer de ānanda um dos nomes de sua Trindade e são Justino ao chamar a fé de alegria da Vida.

24. A experiência da Vida não se confunde com nenhuma das funções do ser, pois viver a Vida não é pensá-la, senti-la ou fazê-la, nem desprezá-la ou querer pôr-lhe fim, faltando outra palavra senão que a Vida é para ser vivida, e a mística é precisamente essa experiência, embora falar dela já a traduza numa linguagem que exige interpretação, não se tratando da experiência da duração da vida nem da consciência da passagem do tempo, mas do momento da tempiternidade, pois a experiência não se mede pelo tempo.

25. Numa consideração intercultural, a experiência da Vida redime do domínio, para não dizer da tirania, da razão dialética, pois não se pode contemplar sua negação, já que a morte é identificada com a não vida e não pode ser objeto de consciência, e, se tudo tem sua contradição possível, a árvore a não árvore, o Bem o não Bem e até o Ser o não Ser, pensamento abstrato e provavelmente vazio, não se pode experimentar a não vida quando o sujeito pensante vivo já não existe, podendo-se pensar a morte alheia sem partilhar sua experiência, e menos ainda a própria, de modo que há experiência da Vida, mas não da morte.

26. É impossível experimentar a não vida, mas só o pensamento dialético identifica não vida e morte, pois a morte é distinta e contrária à vida sem contradizê-la, salvo na dialética, e, embora não se possa ter experiência da morte, pode-se meditar sobre ela, pensamento abstrato que ilumina a Vida.

27. A experiência da Vida é a experiência do próprio mistério, a consciência de experimentar algo que não pode ser pensado, razão pela qual, de Sócrates aos dias atuais, a filosofia foi interpretada como meditatio mortis.

28. A experiência da Vida traz consigo por vezes a experiência do morrer, não agradável, mas que não se identifica com a angústia da morte, dependente de fatores mais anímicos e fisiológicos que espirituais, e na qual o corpo está presente em seu aspecto mais espiritual, como na respiração, podendo ser chamada experiência da contingência humana, pois a vida não é própria nem se sustenta por si, mas depende da Vida, e, se no princípio a vida de cada um era Vida, ainda que não sua, no fim retorna à Vida.

29. A experiência integral da Vida é a experiência total do corpo que se sente vivo ao ritmo do prazer e da dor, da alma com suas intuições de verdade sob risco de erro e das centelhas do espírito vibrando de amor ou repulsa, não sendo apenas sensação fisiológica, nem euforia do conhecimento, nem perfume do amor que partilha o dinamismo do mundo, mas a união mais ou menos harmoniosa das três formas de consciência antes que o intelecto as distinga, uma complexidade trinitária ao mesmo tempo corporal, intelectual e espiritual, ou material, humana e divina, isto é, cosmoteândrica, em que sentir-se vivo é sentir a plenitude da Vida nos limites concretos, incluindo a consciência dos opostos, da dor, do erro e da repulsa, sem que isso seja reducionismo, pois não se trata de três experiências, mas do entrelaçamento indissolúvel de uma experiência única, hierarquizada, que abraça até a experiência de morrer, como no morro todos os dias de são Paulo.

30. A tese central pode reduzir-se a uma paráfrase do título.

31. O maior obstáculo ao fluir espontâneo da experiência da Vida é a preocupação com o fazer em detrimento do ser e do viver, de modo que a mística requer uma maturidade mais fácil de alcançar no crepúsculo da vida, quando a ação de certo modo já está concluída, sendo a experiência mística mais fruto do ser que do fazer, consciência do ser como ato e não como resultado da ação, grande conselho místico da Bhagavad-gītā e do Evangelho: o amor é supremo.

32. Para muitos, alcançar a experiência da Vida tem um custo, por temerem a experiência da morte, igualmente inefável, como mostra o mestre zen Dogen, que assimila intrinsecamente as duas formas de experiência, sendo talvez significativo que tenha esperado muitas décadas para escrever esse texto.

33. À objeção de que essa concepção de mística não corresponde ao entendimento comum, responde-se que a mística não é um conceito e que a objeção apenas constata a recusa em seguir a moda, e, ainda que se alegue que a moda representaria maior maturação da reflexão, o racionalismo esclarecido que envolve o estudo moderno da mística não sustenta esta abordagem, ligada a outra filosofia, e embora se pudesse argumentar que os textos místicos estão mais próximos desta do que daquela, isso também não vale, pois interpretar não é adivinhar a intenção do autor, preferindo-se, como a polêmica é incompatível com a mística, descrever a experiência simples, sem garantia de estar livre de pressupostos criticáveis, críticas que são bem-vindas, pois, segundo Sófocles citado na Carta de Aristeias, nada há de maior no homem do que aprender sempre.

34. O volume compõe-se de uma primeira seção, A Nova Inocência, porque a mística autêntica não é reflexão sobre o Ser, mas atitude livre e espontânea que brota da plenitude da pessoa, de uma segunda seção sobre a contemplação, da qual pouco se pode dizer por ser silêncio, seguida de três exemplos de santos que mostram não haver um conceito único de santidade, de uma terceira seção com estudo sistemático e filosófico da experiência mística que refuta a ideia de fenômeno extraordinário reservado a uma elite, pois todos estão potencialmente abertos a ela, como sugere a ideia, repetida em tantas religiões e pouco meditada, de que todos são filhos de Deus, e de um apêndice com uma reflexão filosófica sobre a experiência suprema e uma oração nascida do ser mais íntimo.