2 Os “estados” da alma e sua transcendência

ALSTON, Anthony John. Śaṅkara on the Soul. London: Shanti Sadan, 1981. (A Śaṅkara Source-Book, v. 3).

1. Sonho

1. A exposição teórica da natureza da alma e de seus estados conserva uma ligação essencial com a disciplina espiritual, pois até a crítica das concepções equivocadas possui a finalidade prática de afastar obstáculos à realização; a compreensão desse percurso exige reconhecer a continuidade entre os fundamentos do ensinamento e sua culminação na transcendência da experiência limitada.

2. O sofrimento e as limitações humanas decorrem da ignorância da própria natureza como Espírito infinito, cuja presença já é de algum modo reconhecida, mas permanece encoberta por conhecimentos falsos; a sabedoria tradicional desfaz esse encobrimento por meio de palavras que, pertencendo ao domínio da pluralidade, começam por afirmações provisórias capazes de desviar a atenção de interesses espiritualmente estéreis e devem depois ser ultrapassadas pela negação.

3. A aproximação ao Absoluto passa por suas determinações mais abstratas, por sua concepção pessoal como Criador e governante e pela explicação do mundo e das divindades que o presidem, até que uma perspectiva superior suprima todas essas atribuições finitas; o ensinamento afirmativo conserva, assim, uma função preparatória cuja realização exige a superação das limitações inicialmente admitidas.

4. A realidade da alma é a luz da Consciência eterna e infinita, que a ignorância identifica com o corpo, a mente e suas faculdades, produzindo a experiência de finitude, sofrimento e mortalidade; a investigação da vigília, do sonho e do sono sem sonhos conduz ao reconhecimento de uma natureza que não pertence a nenhum desses estados, designada provisoriamente como “o Quarto” (Turiya), sem constituir uma realidade separada deles.

5. A investigação do mundo e da alma segue um mesmo movimento, acolhendo inicialmente a experiência limitada e reconhecendo nela a indicação de um fundamento autoexistente e autoluminoso, para depois negar a realidade independente das manifestações e os atributos finitos atribuídos ao Absoluto; a passagem contínua entre os estados da alma prepara o reconhecimento da Testemunha atemporal, permitindo identificar Brahman, fundamento do mundo, e Atman, fundamento da experiência individual, na transcendência de toda pluralidade.

6. A exposição dos três estados não pretende estabelecer que o Si mesmo esteja realmente submetido a eles, mas revelar que essa atribuição é equivocada, assim como a identificação de uma figura humana pode ser corrigida pelo reconhecimento de que se trata apenas de um poste; antes da iluminação, porém, os estados possuem validade para a experiência individual e podem receber esclarecimentos úteis a partir da tradição.

7. Os sonhos, considerados da perspectiva desperta, não possuem a coerência causal da vigília e devem ser compreendidos como aparências ilusórias, mesmo quando certos ensinamentos lhes atribuem figurativamente realidade ou capacidade de antecipar acontecimentos; suas imagens são produzidas pela alma individual segundo os efeitos das ações anteriores, iluminadas pela Consciência universal e condicionadas pela ignorância, como evidencia a ocorrência de experiências desagradáveis.

8. A irrealidade do agente onírico impede que suas ações sejam imputadas ao indivíduo desperto e favorece o reconhecimento de que a realidade da alma também permanece intocada pela vigília; a luz dos objetos sonhados procede da Consciência interior e permite compreender a dependência de toda experiência em relação a ela, enquanto a descrição do sonho como recolhimento da mente nos canais sutis constitui apenas uma explicação provisória formulada da perspectiva de quem ainda vive sob a ignorância.

2. Sono sem sonhos

1. O sono sem sonhos revela a possibilidade de uma existência livre de ideias, desejos e sentido de eu, aproximando-se da libertação porque nele a atividade dos órgãos se recolhe enquanto a Energia Vital permanece atuante e a Consciência persiste sem objetos a conhecer; a imortalidade do Si mesmo implica a superação da identificação com uma personalidade particular e de todas as limitações, em vez da perpetuação da individualidade empírica.

2. A serenidade do sono sem sonhos não equivale à iluminação daquele que ainda desconhece sua natureza verdadeira, pois nele permanece uma semente de ignorância que conduz ao retorno do mesmo indivíduo à vigília e ao sonho; somente o conhecimento libertador elimina essa condição latente e interrompe a continuidade das experiências limitadas e dolorosas.

3. A dissolução da mente no sono profundo distingue-se de seu apaziguamento pela realização espiritual, pois a primeira conserva as sementes do sofrimento futuro, enquanto o segundo envolve discriminação e ausência das divisões ilusórias entre sujeito e objeto; essa compreensão aproxima a disciplina de concentração da tradição de Gaudapada e de formulações do Mahayana que relacionam a libertação à cessação das agitações mentais.

4. O coma e a concentração meditativa profunda apresentam afinidades com o sono sem sonhos, mas não se confundem com ele nem constituem necessariamente iluminação, pois podem apenas suspender temporariamente a experiência entre sujeito e objeto; enquanto depender de uma atividade e permanecer transitória, a concentração não equivale ao conhecimento espiritual da natureza do Si mesmo.

5. A tradição posterior desenvolve uma compreensão da ignorância como força cósmica ou substância modificável, interpretando a lembrança de ter dormido feliz sem conhecer nada como evidência de sua percepção no sono profundo; essa elaboração atribui a felicidade a uma modificação da própria ignorância e introduz distinções entre Maya e Avidya e sua associação ao corpo causal, afastando-se da concepção em que a Natureza é uma aparência estabelecida pela ignorância.

6. A ausência de experiência entre sujeito e objeto no sono profundo decorre da não dualidade natural do Si mesmo, mas o retorno do indivíduo exige reconhecer a persistência de uma semente de ignorância que impede identificar esse repouso com a libertação definitiva; essa semente não deve ser tomada como substância ou entidade positiva, mas como ausência do reconhecimento de si enquanto Si mesmo infinito, condição que torna possíveis as representações falsas da experiência empírica.

7. A afirmação de que a ignorância está ausente no sono sem sonhos refere-se frequentemente à suspensão das concepções positivas equivocadas e das sobreposições que produzem dor e limitação, sem significar a eliminação do desconhecimento fundamental; enquanto não ocorre o despertar ao Si mesmo universal pela disciplina e pelo ensinamento de um mestre competente, permanecem as impressões que, sob a força das ações anteriores, voltam a manifestar-se como vigília e sonho.

3. Turiya

1. A atribuição dos três estados à alma integra o método de sobreposição e posterior negação (adhyaropa-apavada), pois apenas a consciência ignorante se considera submetida à vigília, ao sonho e ao sono sem sonhos; como esses estados se sucedem e se excluem, enquanto o Si mesmo permanece idêntico através deles, sua natureza deve ser reconhecida como distinta de todas essas condições passageiras.

2. A divisão simbólica do Si mesmo em quatro partes permite relacionar os três componentes audíveis de OM à experiência da vigília, do sonho e do sono sem sonhos, enquanto sua essência permanece em uma realidade transcendente designada como “o Quarto”; esse princípio não está separado dos demais, pois constitui seu próprio Si mesmo, e somente pode ser comunicado pela negação das determinações que lhe são provisoriamente atribuídas.

3. Um único princípio consciente, Prajna, parece diferenciar-se por ilusão em sujeito e mundo da vigília, sujeito e mundo do sonho e condição indiferenciada da qual ambos emergem, recebendo as designações Vaisvanara e Taijasa conforme essas manifestações; no sono profundo, a identidade com o Absoluto permanece sem reconhecimento, enquanto a realização do Quarto torna essa identidade conscientemente conhecida, sem produzir uma realidade nova.

4. A distinção entre os aspectos individual e cósmico da vigília permite compreender o organismo físico (Pinda) como inseparável do universo material (Virat), articulando as descrições simbólicas de Vaisvanara à identidade fundamental entre indivíduo e cosmos; essa compreensão exclui uma pluralidade de princípios independentes e integra a experiência particular em uma unidade mais abrangente.

5. O corpo físico individual não possui existência independente do universo material, assim como o conjunto de impressões sutis que condiciona sua experiência é inseparável da totalidade cósmica dessas impressões, designada como Hiranyagarbha; no sono profundo, a identidade com a Consciência universal permanece desconhecida e permite o retorno à dualidade, de maneira análoga à emergência do Intelecto cósmico a partir do Não Manifesto (Avyakrta), entendido como o Si mesmo ainda não reconhecido.

6. A identidade do organismo individual com Virat e da experiência sutil com Hiranyagarbha significa que essas manifestações particulares não possuem existência autônoma em relação às totalidades correspondentes; Prajna, considerado da perspectiva daquele que recorda o sono profundo sem iluminação, corresponde ao Si mesmo em sua condição não manifesta, concebida cosmicamente como princípio seminal ou Energia Vital universal.

7. A comunicação do Quarto segue uma via negativa, atribuindo inicialmente ao Si mesmo os estados reconhecíveis de vigília, sonho e sono sem sonhos para depois negar que eles constituam sua natureza; essa negação corrige o ensinamento provisório e permite indicar a transcendência sem convertê-la em mais uma condição empírica.

8. A condição seminal do sono profundo não designa uma matéria oculta, mas o desconhecimento da realidade que possibilita o reaparecimento das concepções falsas na vigília e no sonho; a superação dessa condição revela a Consciência não dual que permanece quando ilusão, diferença e sofrimento são desfeitos, culminando no reconhecimento da identidade entre OM, Turiya e o Absoluto.