1 Certeza

U. G. Mind is a Myth: Conversations with U.G.. Edited by Terry Newland. Goa: Dinesh Vazirani, 1988. (Reedição: New Delhi: Penguin Books, 2003).

UG:

A discussão abstrata sobre a vida e a raiva afasta-se da realidade imediata dessas condições, enquanto a esperança de uma transformação futura perpetua o sofrimento e leva à invenção de outras vidas quando a existência presente parece não oferecer saída.

Q:

Se essas conversas não proporcionam esperança nem procuram consolar ou instruir, permanece a questão de sua finalidade e do motivo pelo qual continuam acontecendo.

UG:

A conversa surge como resposta à presença e às perguntas alheias, mas a proteção construída pelo pensamento impede o contato direto com a própria condição, ao passo que, no estado natural, a dor alheia se reflete sem constituir uma experiência pessoal.

Q:

A sensibilidade ao sofrimento alheio parece coexistir com a ausência de sofrimento pessoal, como se fosse possível reconhecer a dor sem ficar aprisionado nela.

UG:

O sofrimento pressupõe experiência e separação, enquanto a vida constitui um movimento unitário no qual não existem uma pessoa isolada e um mundo exterior de coisas independentes, razão pela qual esse movimento não pode ser convertido em experiência de um sujeito.

Q:

A possibilidade de viver sem experimentar parece incompatível com os critérios habituais de racionalidade.

UG:

A lógica preserva a estrutura de separação produzida pelo pensamento, cujas reações defendem os limites individuais contra um movimento vital que os excede e cuja intensidade, quando deixa de ser contida, pode ser dolorosa para o organismo.

Q:

Se sacerdotes e gurus também atribuem os problemas humanos à separação, torna-se necessário esclarecer em que essa posição difere dos ensinamentos religiosos.

UG:

A crença na unidade da vida permanece uma construção verbal quando resulta da aceitação de autoridades, e, como a identidade individual se constitui por essas crenças, o desaparecimento das ilusões implica o fim daquele que nelas encontra sua continuidade.

Q:

A continuidade das conversas parece pressupor uma filosofia ou uma mensagem, ainda que os interlocutores não consigam compreendê-la adequadamente.

UG:

A fala ocorre como resposta imediata às perguntas, sem um sujeito que pretenda ensinar, aconselhar ou comprovar alguma coisa, assim como uma bola retorna ao atingir uma parede sem carregar uma intenção própria.

Q:

A transitoriedade do corpo parece justificar a aspiração à imortalidade e a procura de respostas na filosofia, na religião e na espiritualidade.

UG:

A imortalidade pertence à continuidade material da vida, na qual o corpo muda de forma após a morte, enquanto a exigência de permanência pessoal é uma invenção do pensamento que, por medo, procura repetir indefinidamente a própria existência.

Q:

Uma transformação radical parece necessária, desde que não seja produzida pela interferência da vontade.

UG:

Uma transformação independente da vontade não pode ser interrompida ou dirigida, e a libertação pertinente refere-se às metas, crenças e pressupostos que produzem as perguntas, pois estas desaparecem quando seus objetivos são abandonados espontaneamente.

Q:

A perspectiva de perder toda possibilidade de controle desperta o medo do desaparecimento e da destruição completa.

UG:

A esperança de continuidade mantém a procura de um caminho salvador, enquanto o reconhecimento da inutilidade de depender de qualquer recurso exige o confronto com a própria impotência, sem que garantias externas possam substituí-lo.

Q:

Apesar dessas objeções, persiste a convicção de que deve existir alguma solução para os problemas humanos.

UG:

Os problemas persistem porque as soluções imaginadas os sustentam, e a dependência de respostas oferecidas por autoridades religiosas, psicológicas e políticas perpetua a busca sem resolver aquilo que promete eliminar.

Q:

A complexidade dessas questões parece tornar necessária a orientação de pessoas que dedicaram a vida ao estudo da sabedoria e da autorrealização.

UG:

A inteligência própria do organismo supera as construções filosóficas, pois suas atividades mentais, emocionais e corporais integram um processo unitário que permite sobreviver e reproduzir-se sem depender de doutrinas sobre a vida, a morte ou a liberdade.

Q:

A eliminação de todas as esperanças de transformação parece deixar apenas a autodestruição, suscitando a questão de por que o suicídio não constituiria uma saída.

UG:

O suicídio não encerra o movimento da vida, pois a decomposição corporal participa de outras formas de existência, enquanto a preocupação com a sobrevivência pessoal após a morte nasce do medo e alimenta a dependência de autoridades espirituais.

Q:

A consideração da vida como sagrada também parece fundamentar esforços para proteger crianças, preservar o ambiente e impedir novas guerras.

UG:

A defesa abstrata da sacralidade da vida torna-se contraditória quando convive com bombardeios, massacres, fome e pobreza, revelando uma preocupação convertida em argumento político, sem correspondência com a proteção efetiva das pessoas.

Q:

O reconhecimento dessas contradições pode coexistir com um interesse real em transformar as condições coletivas, sem se reduzir ao egoísmo.

UG:

A indignação e o cuidado permanecem rituais quando se limitam ao discurso, pois a raiva efetiva é absorvida pelo organismo no próprio momento em que ocorre, enquanto a procura de auxílio no comércio espiritual apenas prolonga a dependência de promessas.

Q:

A recusa dessas alternativas suscita a vontade de abandonar toda a busca e recorrer à renúncia.

UG:

A renúncia conserva a ilusão de possuir algo espiritualmente abandonável, e o ascetismo que nega necessidades básicas não amplia a consciência, pois a tranquilidade depende do desaparecimento dessas expectativas e do funcionamento automático, sem avaliação incessante das próprias ações.

Q:

A rejeição da renúncia parece também negar o valor da ioga, das práticas religiosas e da formação moral, reduzindo o ser humano ao funcionamento de uma máquina.

UG:

Os valores morais, espirituais e éticos não oferecem uma saída válida, e a crise da psicologia não pode ser resolvida mediante o retorno às tradições religiosas que perpetuam os mesmos impasses.

Q:

A ausência de qualquer apoio ajuda a compreender a dependência histórica de messias, mahatmas e profetas.

UG:

Os messias não eliminaram a miséria humana, e a presença de um novo salvador tampouco permitiria superar uma condição que não pode ser resolvida por outra pessoa.

Q:

Se sábios e salvadores não podem ajudar, talvez a libertação dependa do conhecimento da verdade, conforme a promessa das escrituras.

UG:

A verdade é um movimento que deixa de ser verdadeiro quando capturado como conhecimento utilizável, e a impossibilidade de transmitir a certeza desfaz a legitimidade do comércio espiritual que explora a privação e a credulidade alheias.

Q:

A insistência na negação parece aproximar-se de neti neti e indicar que o abandono de escrituras, gurus e autoridades permitiria reencontrar um estado natural originário.

UG:

Transformar o abandono de gurus e escrituras em método de libertação reproduz a procura de remédios contra a dor, e nem a renúncia às autoridades nem a resistência espiritualizada ao sofrimento constituem um caminho para esse estado.

Q:

A crítica parece indicar um destino humano diferente, em vez de expressar apenas fatalismo ou cinismo diante da condição presente.

UG:

A liberdade procurada associa-se à morte, pois a libertação, moksha, anuncia o encerramento daquele que pretende alcançá-la, e a morte constitui o destino inevitável de todos.

Q:

Essa morte parece designar um acontecimento físico efetivo, sem se reduzir a uma metáfora psicológica, romântica ou abstrata.

UG:

A morte em questão envolve a interrupção real do funcionamento corporal, seguida, neste caso, por uma renovação do organismo que se estabilizou ao longo de anos e tornou vida e morte aspectos de um mesmo processo.

Q:

A consideração da morte poderia então tornar-se objeto de meditação e de uma consciência cultivada sob formas místicas.

UG:

A idealização de um estado meditativo plenamente consciente introduz uma vigilância artificial que prejudica ações naturalmente automáticas, como caminhar ou conduzir um navio, convertendo a atenção deliberada em embaraço e perturbação.

Q:

A recusa de todos esses procedimentos parece exigir o abandono daquilo que se considera sagrado.

UG:

As representações do sagrado integram a mesma idealização que sustenta a busca, e qualquer remédio oferecido apenas se incorporaria a ela, razão pela qual não existe uma técnica superior ou uma promessa disponível para quem procura continuar esse empreendimento.

Q:

A condição humana parece implicar ao menos algum desejo de servir à humanidade, ainda que motivado pela compaixão.

UG:

A função de redentor não decorre da condição humana, e a existência de numerosos santos e salvadores não exige acrescentar outro, podendo a conversa simplesmente ser interrompida e retomada no dia seguinte.

Q:

A conversa fica adiada para o dia seguinte, quando poderá ser retomada.

UG:

O encontro encerra-se com um agradecimento pela conversa.

Q:

A morte associada à liberdade parece exigir plena sanidade e ausência de autopiedade ou absorção em si mesmo, suscitando a questão de se essa condição poderia ser ensinada ou desenvolvida pela educação.

UG:

A educação pode transmitir técnicas, mas não integridade, e a tentativa de ensinar desinteresse em uma sociedade organizada pela ambição produz conflito, pois a condenação da cobiça frequentemente encobre a continuidade da própria cobiça.

Q:

A meditação parece oferecer uma profundidade menos repetitiva do que o pensamento habitual, embora também deixe uma insatisfação persistente.

UG:

Meditações, disciplinas espirituais e métodos de transformação pressupõem, sem examiná-lo, um sujeito que precisaria mudar, enquanto a certeza de que esse sujeito e suas autoridades são falsos não pode ser transmitida nem convertida em ensinamento público.

Q:

Se nenhuma certeza pode ser transmitida, permanece a questão de por que a conversa continua.

UG:

A conversa não pretende satisfazer expectativas espirituais, mas ocorre em um silêncio que não conserva experiências, de modo que o interlocutor pode abandonar a busca ou afastar-se quando percebe que não receberá aquilo que deseja.

Q:

A existência de uma inteligência natural, independente da acumulação de conhecimentos e técnicas, parece exigir uma explicação mais precisa.

UG:

A inteligência consiste em reconhecer as limitações naturais do organismo, cujo funcionamento integra estímulo e resposta em um processo unitário, enquanto a procura de liberdade absoluta, os ideais religiosos e a crença no progresso introduzem conflitos e ampliam a capacidade humana de destruição.

Q:

A capacidade humana de amar poderia oferecer uma alternativa à destruição recíproca, como sustentam os ideais humanitários.

UG:

Amor e ódio, quando incorporados a crenças e sistemas coletivos, participam da violência histórica, enquanto o apego ao passado procura compensar a ausência de sentido e transforma até a crítica das ideologias em uma nova ideologia.

Q:

Aquilo que cada pessoa precisaria descobrir por si mesma parece corresponder a Deus ou à iluminação.

UG:

Deus, iluminação e libertação representam a expectativa de felicidade permanente, mas esse prazer ininterrupto não existe e sua imposição ao organismo contraria o caráter transitório dos prazeres corporais, produzindo um conflito fisiológico.

Q:

As religiões parecem contrariar essa interpretação, pois recomendam orações, meditações e práticas destinadas a transcender a busca de prazer.

UG:

As práticas espirituais funcionam como substâncias entorpecentes quando prometem um prazer supremo para fugir da dor, mantendo a contradição entre o desejo de felicidade contínua e a condição efetiva do organismo.

Q:

A ausência aparente dessas contradições e uma felicidade fundamental suscitam a questão de por que determinada vida seguiu esse curso, enquanto outras não o fizeram.

UG:

A história pessoal não conserva apego ou conteúdo afetivo privilegiado, e a explicação psicológica da libertação permanece inadequada quando os problemas humanos pertencem ao funcionamento fisiológico e à herança biológica.

Q:

Mesmo diante de uma herança biológica marcada pela brutalidade, as práticas religiosas poderiam ajudar a ultrapassar essas limitações naturais.

UG:

A meditação estabelece um combate contra pensamentos classificados como bons ou maus e, embora possa produzir experiências místicas passageiras, conserva uma meta culturalmente imposta cujo resultado predominante é o aumento da dor.

Q:

A finalidade pretendida não consiste em experiências místicas menores, mas na liberdade.

UG:

A libertação não oferece benefícios a um sujeito preservado, pois implica a perda de tudo aquilo que sustenta sua identidade, sendo jivanmukti uma condição na qual o corpo permanece vivo após atravessar a morte, sem se definir por felicidade ou infelicidade.

Q:

A investigação livre e a consciência parecem permitir uma descoberta progressiva, como indicam ensinamentos de Jiddu Krishnamurti.

UG:

A promessa de uma jornada de descoberta ou de uma transformação radical conserva uma viagem inexistente, e tanto os ensinamentos védicos quanto suas reformulações modernas oferecem construções incapazes de produzir a realização anunciada.

Q:

A recusa dos ensinamentos antigos suscita a questão de se a psicologia moderna merece maior confiança.

UG:

A psicologia mantém a crença em uma psique transformável sem demonstrar a existência dessa entidade, enquanto a repetição de fórmulas e a capacidade de atrair multidões não conferem validade às promessas de revolução interior.

Q:

A linguagem empregada nessa crítica parece aproximar-se da linguagem das próprias autoridades contestadas.

UG:

O emprego de palavras e expressões de Jiddu Krishnamurti devolve a ele a crítica que dirigia a outros gurus, mas não implica adesão à sua posição, pois qualquer interpretação religiosa dessas formulações elimina seu sentido.

Q:

Apesar das críticas, alguns mestres parecem possuir algo relevante a transmitir e apresentar uma liberdade efetiva.

UG:

A distinção entre perceber uma possibilidade e realizá-la não resolve o problema do interlocutor, pois investigar a liberdade de outra pessoa desvia a atenção da própria falta de liberdade e conserva a dependência das concepções de libertação oferecidas por mestres.

Q:

Se paz, graça e liberdade transcendentes são ficções, torna-se necessário perguntar por que continuar vivendo e se a existência se reduz a comer, dormir e respirar.

UG:

A existência precisa ser compreendida em termos físicos e fisiológicos, sem abstrações místicas, pois o organismo funciona mediante sua organização corporal, enquanto o pensamento, no estado natural, intervém apenas quando necessário e depois retorna ao segundo plano.

Q:

A condição habitual parece então caracterizar-se por um funcionamento afastado do estado natural.

UG:

A observação do funcionamento efetivo importa mais do que os ideais de sociedade ou humanidade, pois a cultura impede a expressão singular do organismo ao impor modelos de perfeição nascidos de uma consciência divisiva e associados à violência.

Q:

A atração por essas conversas suscita a questão de por que existe interesse em ouvi-las e do que se espera obter com elas.

UG:

A procura nasce do desejo de conhecer e imitar uma realização alheia, mas essa expectativa conserva a continuidade psicológica mediante ideias religiosas, enquanto o organismo funciona harmoniosamente sem depender desse conhecimento sobre si.

Q:

A comparação com um computador parece insuficiente, pois máquinas não possuem sentimentos, psique ou dimensão espiritual.

UG:

A tentativa de inserir esse funcionamento em um esquema religioso impede sua compreensão, e a oferta de um sofrimento espiritual compartilhado constitui uma forma de perturbação, sem oferecer uma saída.

Q:

O interesse em compreender a vida e a morte não parece, por si só, justificar sua identificação com a loucura.

UG:

A afirmação de que existe uma morte pessoal antecipável constitui um estado mental sem correspondência com uma experiência efetiva dessa morte, assim como a negação de uma condição não basta para estabelecer sua realidade.

Q:

Parece começar a surgir uma compreensão intelectual dessas formulações.

UG:

A compreensão intelectual conserva um investimento que não transforma a existência, enquanto a dissolução da esperança de compreender e da crença em um eu espiritual permite que a qualidade viva do organismo deixe de ser bloqueada por ideais herdados.

Q:

A civilização parece constituir um esforço para superar a violência atribuída às leis da selva.

UG:

A violência humana resulta de crenças e ideais defendidos em nome de Deus, do amor e da paz, enquanto a vida animal apresenta uma relação mais direta com a sobrevivência, sem o recurso às justificativas abstratas que legitimam a destruição entre seres humanos.

Q:

A força das crenças e dos ideais humanos parece decorrer da busca da verdade, ausente nos demais animais.

UG:

Aquilo que recebe o nome de verdade corresponde a uma premissa estabelecida pelo pensamento e validada segundo seus próprios critérios lógicos, sem constituir uma realidade independente dessa operação.

Q:

Os grandes ensinamentos insistem que a verdade pode ser encontrada mediante prática, desinteresse e renúncia.

UG:

A única renúncia pertinente é o desaparecimento da própria ideia de renunciar, pois a crença em algo abandonável apenas multiplica fantasias acerca de Deus e da verdade.

Q:

A identificação dos seres humanos como inferiores aos outros animais contraria a imagem valorizada que possuem de si mesmos.

UG:

O sentimento de superioridade surgiu com a divisão da consciência e a experiência de si como entidade separada, criando o dilema moral e lançando as bases da autodestruição humana.

Q:

A divisão artificial entre eu e não eu parece produzir os problemas morais e relacionais, tornando o próprio pensamento a dificuldade fundamental.

UG:

Toda experiência depende do pensamento, que organiza as percepções e constitui o corpo como objeto reconhecível em relação ao pensamento central do eu, de modo que a realidade experimentada através dessa separação adquire um caráter ilusório.

Q:

A persistência das ilusões poderia decorrer de uma consciência perceptiva ainda insuficientemente desenvolvida.

UG:

A consciência perceptiva (awareness) é atividade cerebral, sem um sujeito separado que possa utilizá-la para transformar-se, enquanto o pensamento constitui uma herança coletiva destinada à comunicação e à atuação prática, e não um instrumento de realização psicológica.

Q:

A experiência habitual parece indicar a presença de um pensador por trás dos pensamentos, como um fantasma na máquina, cuja atividade ultrapassaria a resposta mecânica da memória.

UG:

O eu, a mente e a psique correspondem ao conhecimento herdado que se organiza e perpetua como mecanismo, sem uma entidade independente por trás dele, enquanto pensamento e ação integram um mesmo movimento.

Q:

A distinção filosófica entre passado, futuro e agora suscita a possibilidade de um presente eterno independente da memória.

UG:

O presente habitual é a repetição do passado projetando um futuro imaginado, pois o reconhecimento dos objetos e a expectativa de novas experiências dependem do conhecimento anterior, enquanto um efetivo aqui e agora não conserva essa continuidade temporal.

Q:

Se não existe alma nem um plano superior, a localização do passado e do conhecimento parece necessária para compreender a realidade da mente.

UG:

O conhecimento participa de todo o corpo e sustenta uma busca cuja finalidade é conservar a identidade, enquanto o problema humano é fisiológico e neurológico, pois o pensamento transforma desejos naturais em conflitos que depois pretende resolver.

Q:

A valorização religiosa de desejos voltados a Deus e à libertação parece questionável quando esses objetivos não existem, embora persista a tendência de considerá-los superiores aos desejos corporais.

UG:

A libertação depende do desaparecimento do desejo supremo de libertar-se, imposto pela sociedade, pois sua dissolução permite que os demais desejos encontrem um ritmo natural e deixa de submeter o organismo à violência de esforços espirituais.

Q:

A ausência de movimento deliberado parece aproximar-se de simplesmente permanecer onde se está, embora abandonar toda intervenção não seja fácil.

UG:

Todo esforço destinado a obter libertação de alguma coisa interfere na sensibilidade, na clareza e na liberdade já presentes no organismo.

Q:

Talvez a dificuldade pudesse ser superada mediante a percepção das coisas como realmente são.

UG:

A experiência não deixa os acontecimentos permanecerem por si mesmos, pois os interpreta dentro do conhecido, e esse movimento mecânico de reconhecimento procura perpetuar-se, ganhando impulso com qualquer tentativa de modificá-lo.

Q:

A condenação oriental do desejo parece exigir que ele seja transcendido como fonte do mal.

UG:

O que precisa desaparecer é a meta suprema que organiza o controle dos desejos menores, pois, sem essa finalidade dominante, os desejos comuns encontram um padrão natural e deixam de ser submetidos a uma manipulação incessante.

Q:

Permanece a questão de se existe algum objetivo verdadeiramente superior.

UG:

O objetivo supremo assemelha-se ao horizonte que recua conforme se avança, pois é uma projeção do medo cuja perseguição mantém o desejo em movimento sem permitir alcançar aquilo que foi imaginado.

Q:

A existência concreta da pobreza, do trabalho e da guerra parece contrariar a afirmação de que a vida humana ocorre em meio a ilusões.

UG:

A ilusão pertence à experiência organizada pela consciência de separação, sem eliminar a realidade dos acontecimentos materiais, como a queda de bombas, que não deixam de existir por serem experimentados de modo ilusório.

Q:

O caráter parcial e subjetivo da percepção pode ser reconhecido, mas permanece a questão de se existe alguma medida objetiva de realidade absoluta.

UG:

O absoluto e a perfeição são construções do pensamento que se tornam modelos de conduta, produzindo uma falsificação da existência quando o comportamento efetivo é subordinado a ideais incompatíveis com aquilo que realmente ocorre.

Q:

A insistência em rejeitar autoridades religiosas e filosóficas desperta curiosidade quanto à origem dessa certeza.

UG:

A certeza surgida não pode ser transmitida nem estabelece superioridade pessoal, mas dissolve as pretensões de autoridade e as promessas comercializadas em nome da iluminação.

Q:

Mesmo que os salvadores tenham interpretado equivocadamente a condição humana, sua indicação de uma unidade superior, identificada com Deus, poderia conter alguma verdade.

UG:

Deus é uma criação do pensamento a partir do medo herdado, e a ausência desse medo elimina a necessidade de uma realidade suprema, enquanto o desejo de livrar-se dele ainda prolonga sua atuação.

Q:

Enquanto não surge a coragem de morrer para os próprios medos, parece inevitável continuar buscando algum apoio.

UG:

A esperança, a oração e o cultivo da virtude projetam no futuro uma condição ausente no presente, pois a intenção de tornar-se virtuoso conserva aquilo que pretende superar e tampouco encontra garantia em uma suposta vida posterior.

Q:

Parece começar a surgir uma percepção do alcance dessas formulações.

UG:

A percepção efetiva de que não existe um eu a realizar, uma psique a purificar ou uma alma a libertar desfaz a estrutura na qual toda a existência foi investida, produzindo um choque que encerra a continuidade daquele que procurava alcançar essas metas.

Q:

A identificação de espírito, alma e Deus como invenções de mentes amedrontadas parece radical e potencialmente perigosa.

UG:

A espiritualidade e a mente substancial são construções que submetem a existência ao passado cultural, enquanto o sofrimento é prolongado pelo pensamento que deseja libertar-se dele, sem que essa luta possa eliminar aquilo que ela mesma mantém.