U. G. Mind is a Myth: Conversations with U.G.. Edited by Terry Newland. Goa: Dinesh Vazirani, 1988. (Reedição: New Delhi: Penguin Books, 2003).
Q:
A relação inadequada com o conhecimento de si e do mundo exige esclarecer o que constitui esse conhecimento e de que maneira ele interfere na existência.
UG:
O conhecimento consiste na memória acumulada que nomeia e organiza aquilo que se experimenta, constituindo tanto os objetos reconhecidos quanto a identidade pessoal, sem permitir um acesso à realidade independente dessa herança.
Reconhecer uma mesa, classificar um sentimento ou distinguir alguém como iluminado são operações de nomeação realizadas pelo pensamento.
O ato de conhecer depende de conteúdos transmitidos por gerações, aos quais se acrescentam modificações pessoais sem que se tornem uma propriedade exclusivamente individual.
Aquilo que se considera interioridade corresponde à totalidade desse conhecimento, sem uma entidade independente que o possua.
A impossibilidade de experimentar o mundo sem essa mediação torna ainda mais infundada a pretensão de conhecer um mundo situado além do espaço e do tempo.
As promessas religiosas de uma realidade superior e os valores impostos pela sociedade não substituem o reconhecimento do mundo em que efetivamente se vive.
Q:
As crenças parecem igualmente depender da memória acumulada e de sua continuidade.
UG:
A crença prolonga o mecanismo de sobrevivência e funciona como um hábito que se fortalece quando é reprimido, de modo que a tentativa de libertar-se dela acrescenta impulso ao mesmo processo que pretende encerrar.
Q:
A repetição de mantras e outras técnicas sagradas parece, apesar disso, produzir alguma quietude no pensamento.
UG:
A observação e o controle dos pensamentos pressupõem uma entidade separada que não existe, pois o pensamento não é distinto daquele que pretende dominá-lo, e os problemas surgem dessa estrutura de separação que procura censurá-lo ou utilizá-lo.
Q:
A própria escuta dessas formulações parece produzir dificuldades adicionais.
UG:
A aparente escuta permanece subordinada aos pensamentos de quem ouve, sem um contato direto com aquilo que está sendo dito, tornando insuficiente a convicção de estar atento ou interessado.
Q:
A experiência de ouvir e refletir simultaneamente parece contrariar a afirmação de que não existe uma escuta efetiva.
UG:
A reflexão sobre os pensamentos constitui outro pensamento, pois o próprio pensador e a distância que imagina estabelecer diante de sua atividade são produzidos pelo mesmo movimento que pretende observar.
O nascimento de um pensamento já constitui uma ação, sem um observador independente que posteriormente a examine.
A repetição de um mantra, o julgamento de seu fracasso e a procura de uma técnica melhor são variações do mesmo processo.
O deslocamento da atenção para outra pessoa não demonstra a possibilidade de perceber o pensamento como objeto separado daquele que o percebe.
Q:
O controle dos pensamentos indesejáveis parece necessário para preservar uma condição humana distinta da vida animal, conforme insistem as religiões.
UG:
A exigência religiosa de controlar o pensamento depende do próprio pensamento e sustenta a autoridade dos que a ensinam, enquanto sua ausência completa corresponderia à condição de um corpo morto.
Q:
As diferentes maneiras de controlar o pensamento parecem apresentar diferenças qualitativas relevantes.
UG:
As distinções entre recursos religiosos e formas comuns de alívio são estabelecidas arbitrariamente, pois orações, templos, bebidas e outros expedientes podem cumprir a mesma função de compensação imediata, embora alguns sejam valorizados como superiores por preconceito.
Q:
Esses procedimentos parecem constituir tentativas de modificar ou transformar o condicionamento.
UG:
O condicionamento, samskara, é a tradição que constitui a identidade pessoal, e sua modificação conserva a continuidade de uma estrutura que se torna problemática quando utiliza o pensamento para perseguir estados inexistentes.
A tentativa de prolongar aquilo que é transitório produz uma continuidade artificial, sustentando o sentimento de separação em relação ao mundo.
O cérebro é concebido como uma antena que recebe pensamentos de um campo comum, em vez de uma fonte individual que os produz.
As ações mais diversas procedem do pensamento, mas o conflito surge quando ele é empregado para controlar a si mesmo em nome de uma conquista.
A utilização prática do pensamento é necessária, enquanto sua aplicação à obtenção de Deus, bem-aventurança ou felicidade permanente coloca um pensamento contra outro.
A fé e a esperança aparecem quando as crenças não alcançam os resultados esperados, prolongando uma busca que não oferece certeza de realização.
Q:
A relação entre pensamento, condicionamento e desejo precisa ser esclarecida para compreender a origem desses conflitos.
UG:
O desejo acompanha a vida do organismo e não desaparece mediante repressão ou transformação espiritual, enquanto a tentativa de não agir também pode constituir uma estratégia para obter algo e conservar o condicionamento.
A promessa de um estado sem desejos beneficia as autoridades religiosas, embora a ausência completa de desejo corresponda à morte corporal.
A satisfação e a frustração não impedem o surgimento de novos desejos, tornando inútil a expectativa de eliminá-los por esses meios.
O condicionamento pode esgotar-se, mas não pode ser observado como uma coisa independente daquele que pretende examiná-lo.
A tentativa de modificar interiormente a sociedade pressupõe uma separação falsa, pois a identidade individual é constituída por essa mesma sociedade.
Q:
A libertação do condicionamento desperta medo, pois a insegurança torna difícil aceitar o desaparecimento das referências habituais.
UG:
Cada pensamento precisa desaparecer para que outro possa surgir, mas a ligação artificial entre pensamentos produz uma continuidade cuja defesa alimenta a insegurança e impede reconhecer o caráter transitório da existência.
A identidade não acompanha o nascimento e o desaparecimento de cada pensamento, mas procura conservar-se mediante sua conexão com o seguinte.
O fracasso das disciplinas de controle pode tornar mais evidente a inutilidade desse esforço e o ponto em que a busca permanece aprisionada.
Q:
A tradição e o condicionamento parecem então constituir a origem dos dilemas morais.
UG:
O dilema moral nasce da atividade que julga e contrapõe ideais ao comportamento efetivo, enquanto a memória perpetua uma identidade ocupada em avaliar o passado e antecipar o futuro, afastando-a do confronto com sua condição presente.
A proclamação da moralidade pressupõe a possibilidade de seu contrário e não encerra a estrutura que organiza essa oposição.
A vigilância permanente sobre sentimentos e ações transforma a existência em uma sequência de avaliações, censuras e expectativas.
As soluções projetadas no futuro adiam aquilo que só poderia acontecer no presente, substituído pelo medo e pela procura de uma libertação posterior.
A liberdade não se encontra na escolha de um polo contra o outro, pois o abandono de uma oposição implica também o desaparecimento de seu contrário.
O confronto com egoísmo, raiva e cobiça precisa ocorrer nessas próprias condições, sem recorrer a ideais fictícios de desprendimento, ausência de raiva ou ausência de cobiça.
Os códigos religiosos regulam a conduta segundo interesses sociais e introduzem uma autoridade interior que vigia o indivíduo.
A legislação civil e criminal desempenha externamente essa função, tornando a autoridade religiosa uma forma de controle cuja continuidade também depende de interesses econômicos.
Q:
A incapacidade humana de resolver esses dilemas parece justificar a procura de um sábio, salvador ou avatar que ofereça auxílio e inspiração.
UG:
O organismo pode responder ao sofrimento mediante o sono, e a repetição de nomes sagrados pode produzir um efeito semelhante ao de um sonífero, sem comprovar a existência de uma entidade capaz de conceder o benefício esperado.
Q:
A repetição de nomes sagrados parece expressar uma tentativa sincera de alcançar algo permanente além da transitoriedade.
UG:
A procura de felicidade permanente interfere violentamente no organismo, pois transforma sensações transitórias em experiências que se deseja conservar ou eliminar, comprometendo a sensibilidade natural em nome de ideais incompatíveis com seu funcionamento.
O corpo responde às sensações segundo sua intensidade e duração, enquanto o pensamento as divide em prazer e dor e procura prolongar o primeiro e interromper a segunda.
A inteligência corporal processa estímulos sem depender de um controle deliberado, assim como ajusta a posição do corpo durante o sono.
A nomeação das sensações e a tentativa de alterar sua duração acrescentam tensão ao sistema nervoso.
Quando não são manipuladas, as sensações desaparecem por seu próprio movimento, processo associado à expressão “ionização do pensamento”.
A desintegração corporal não encerra a continuidade material da vida, e o caráter material do pensamento também abrange seus objetivos espirituais.
O pensamento é indispensável à sobrevivência e à reprodução, mas a verbalização contínua acrescentada à percepção amplia desnecessariamente a complexidade da existência.
Os ideais de amor, compaixão, não violência, ahimsa, e bem-aventurança impõem ao organismo exigências que ele não formula.
A obrigação de ser sempre bondoso e jamais violento seleciona apenas uma parte da realidade e produz conflito com as condições efetivas da vida.
A sobrevivência de uma forma de vida depende de outras formas de vida, tornando insuficiente uma condenação abstrata de toda violência.
Q:
A ausência do eu tanto no sono profundo quanto na morte suscita a questão de sua relação, apesar das diferenças aparentes entre essas condições.
UG:
O sono profundo não pode ser conhecido por quem nele se encontra e, em sua dimensão mais radical, associa-se a um processo corporal de morte e renovação que dissolve a continuidade pessoal e a divisão entre estar desperto e estar adormecido.
O descanso corporal não corresponde à metáfora de morrer para o passado, mas a um processo fisiológico no qual o organismo pode ou não recuperar sua vitalidade.
O nascimento e a morte acompanham cada respiração, enquanto o pensamento procura negar essa transitoriedade mediante a conservação de sua continuidade.
A renovação corporal permite que a história inscrita no organismo deixe de sustentar uma existência separada e encontre seu próprio ritmo.
No sono habitual, a atividade dos pensamentos é reduzida para permitir o descanso do corpo e do cérebro.
Quando desaparece a entidade que identifica a si mesma como adormecida ou desperta, essa distinção deixa de organizar a consciência.
A experiência de um suposto estado sem pensamentos indica que o pensamento ainda estava presente para reconhecê-lo e conservá-lo como experiência.
Q:
A ioga sustenta que a consciência de vigília pode alcançar domínios normalmente associados ao sono e ao inconsciente.
UG:
Os estados obtidos mediante ioga ou substâncias pertencem ao mesmo campo de experiências produzidas pelo pensamento, e sua classificação como superiores ou mais prazerosos fortalece a estrutura de separação, sem corresponder à energia da vida.
Q:
Essa compreensão contradiz aquilo que religiões e santos tradicionalmente afirmam.
UG:
As declarações de gurus e livros religiosos favorecem os interesses daqueles que comercializam promessas espirituais, sem que sua autoridade transforme essas mercadorias em respostas efetivas.
Q:
A continuidade dessas objeções parece exigir considerar aquilo que as autoridades religiosas ainda têm a dizer.
UG:
A repetição de autoridades substitui o exame do funcionamento efetivo, enquanto a ausência de divisão não pode ser transmitida e se torna um novo problema quando é projetada como um estado exterior a ser alcançado.
A procura de um estado indiviso conserva a separação entre a condição presente e a realização desejada.
A busca da paz enfraquece a tranquilidade natural do organismo ao introduzir uma exigência de transformação.
O conhecimento acumulado não revela uma entidade substancial dentro da divisão que o próprio pensamento estabelece.
Q:
A discordância em relação a alguns ensinamentos parece insuficiente para justificar a rejeição de toda a herança espiritual humana.
UG:
A herança espiritual oferece descrições sem a realidade que promete, funcionando como um cardápio sem refeição e produzindo hipocrisia e comércio, o que compromete a validade de seus valores, motivos e estruturas.
Q:
Mesmo que os meios tenham sido corrompidos, a busca de bem-aventurança parece constituir uma aspiração humana fundamental.
UG:
A afirmação de que o atma é bem-aventurado depende de autoridades e escrituras, sem corresponder à condição efetiva de quem a repete, e não é necessário participar dessa busca para reconhecer sua ausência de fundamento.
Q:
A leitura das escrituras parece possuir um valor extraordinário por sua capacidade de inspirar.
UG:
A inspiração oferecida por palavras e conceitos não substitui o reconhecimento do funcionamento presente, e a procura de novas respostas revela a insuficiência dos mestres e escrituras anteriormente consultados.
Q:
O caráter desilusório da conversa leva à intenção de interrompê-la e retomá-la no dia seguinte.
UG:
A interrupção da conversa e sua retomada posterior são aceitas sem qualquer exigência adicional.
Q:
O encontro é encerrado com um agradecimento pela conversa.
UG:
O pensamento constitui as referências de espaço, tempo e identidade, produzindo tanto a esperança de amanhã quanto a desesperança presente, enquanto a possibilidade de uma ruptura não depende de futuro nem de uma entidade espiritual separada.
A identificação do espaço exige o conhecimento que permite reconhecê-lo e distingui-lo.
A esperança projetada no futuro produz a sensação de insuficiência atual, sem ser necessária ao que pode acontecer imediatamente.
O eu ou atma não se estabelece como realidade independente, pois a identidade e o mundo experimentado dependem do pensamento.
Q:
A percepção desse impasse desperta a necessidade de uma salvação diante de um destino que parece doloroso e desordenado.
UG:
A libertação precisa alcançar a própria ideia de precisar de salvação e a dependência dos salvadores, pois o reconhecimento da inutilidade da busca dissolve a tradição interiorizada sem exigir novos rituais, ensinamentos ou instituições.
A busca espiritual pode tornar impermeável a percepção, mantendo uma proximidade entre a idealização mística e a perturbação mental.
As cinzas religiosas recebem seu sentido efetivo no desaparecimento interior dos desejos e da autoridade cultural, em vez de sua utilização ritual.
O fim do conhecimento, associado ao Vedanta, contradiz a produção interminável de livros, escolas e doutrinas destinados a prolongá-lo.
A proliferação de palavras não comprova conhecimento, enquanto o reconhecimento efetivo pode retirar a necessidade de continuar explicando.
Q:
O estado de não saber parece pertencer a outro nível de consciência, distante da condição de uma pessoa comum e neurótica.
UG:
Não existem níveis superiores de consciência que precisem ser alcançados, e o estado natural de não saber corresponde à ausência de imagens e da necessidade de identificar aquilo que se apresenta, sem um sujeito que reconheça a si mesmo como desperto.
O sonho depende de imagens e pode continuar durante a vigília, embora receba outra denominação.
A ausência dessas imagens torna secundária a distinção entre olhos abertos ou fechados e entre dormir ou estar acordado.
A consciência individualizada reflete aquilo que lhe é apresentado sem acrescentar nomeação ou desejo de conhecimento.
Uma explicação mecânica sobre a vigília não demonstra a presença de alguém que tenha conhecimento de estar desperto.
Q:
A ampliação da consciência recomendada por religiões e psicologias parece aproximar essa condição de uma forma de terapia baseada na atenção.
UG:
A consciência perceptiva (awareness) é uma atividade fisiológica que não pode ser utilizada como instrumento terapêutico de transformação, enquanto a nomeação e a procura de conhecimento perpetuam o mecanismo que estabelece separações.
A consciência natural é compartilhada com os demais animais e não se confunde com a tendência de produzir mudanças em si mesmo.
A consciência de objetos e sentimentos depende da memória e do pensamento, que organizam aquilo que pode ser reconhecido.
Estímulo e resposta constituem um movimento unitário, separado apenas quando o pensamento estabelece uma divisão.
A multiplicação de perguntas e conhecimentos conserva a continuidade desse mecanismo e intensifica o processo de nomeação.
Q:
A capacidade do pensamento de apreender realizações extraordinárias parece impedir sua desvalorização completa.
UG:
O pensamento é lento demais para acompanhar o movimento da vida, enquanto as sensações e percepções fisiológicas participam desse fluxo sem capturá-lo, tornando ilusória a pretensão de possuir um conhecimento direto da consciência.
Q:
A tentativa de suspender o pensamento para alcançar uma consciência pura parece então desprovida de fundamento.
UG:
A consciência de alguma coisa depende do conhecimento, que estabelece as separações de espaço e tempo e inventa um presente eterno, enquanto a repetição desses conteúdos produz uma aparência de permanência.
Não existe uma observação independente da memória que permite reconhecer o observado.
O espaço percebido e as teorias formuladas sobre ele pertencem às operações do pensamento.
O agora é construído como oposto do tempo, mas sua observação imediatamente o insere no passado.
A continuidade entre passado, presente e futuro sustenta a identidade temporal, embora o futuro apenas modifique e prolongue o passado.
A percepção da falsidade dessa continuidade desfaz a permanência que o pensamento procura conservar.
Q:
A complexidade dessas questões parece tornar preferível uma vida simples junto à natureza, dedicada à contemplação de árvores e nuvens.
UG:
A contemplação da natureza permanece condicionada pela separação produzida pelo pensamento, enquanto o desaparecimento dessa divisão permite um funcionamento corporal sem uma identidade independente que acumule experiências ou persiga realização.
A questão decisiva não é determinar quem observa quem, mas reconhecer a distância artificial estabelecida entre o observador e a árvore.
Abordagens filosóficas afirmativas ou negativas conservam essa distância quando continuam operando dentro do pensamento.
A ausência de divisão elimina a experiência de um sujeito que se considera realizado, procura ajudar os demais ou define suas relações por ideais.
A cultura produziu a consciência de separação que sustenta o sofrimento humano e obstrui a inteligência corporal.
Quando essa autoconsciência desaparece, os acontecimentos do ambiente encontram correspondência no organismo sem sua apropriação como conhecimento pessoal.
O pensamento surge e se desfaz, sem precisar criar raízes ou conservar uma identidade contínua.
A interpretação religiosa ou psicológica da existência afasta o reconhecimento do funcionamento natural do corpo.
A pretensão de experimentar a realidade momento a momento também pode constituir um estado produzido pelo pensamento.
Q:
A dificuldade de escutar essas formulações decorre de que elas parecem comprometer as próprias condições da comunicação.
UG:
A comunicação depende de interpretação e de referências comuns produzidas pelo pensamento, mas sua utilização como meio de escapar da própria condição conserva o problema que se pretende resolver.
A escuta pura não constitui uma habilidade disponível a um sujeito separado de sua memória.
O desejo de abandonar uma situação estabelece uma luta contra ela e produz o peso do qual se procura libertar.
Fazer alguma coisa ou adotar deliberadamente a inação podem participar do mesmo mecanismo quando são empregados para alcançar uma saída.
O conhecimento sobre um suposto fardo exige esforços para removê-lo, enquanto a procura de felicidade prolonga a infelicidade presente.
Q:
A certeza percebida nessas formulações parece conferir-lhes autoridade e despertar o desejo de obter um conhecimento mais completo.
UG:
A exigência de conhecer sustenta a estrutura de separação, e a busca de liberdade permanece uma forma de aprisionamento quando depende do conhecimento cultural que define o indivíduo como não livre.
A atribuição de conhecimento superior a outra pessoa projeta uma autoridade que não pode oferecer aquilo que se procura.
As perguntas acrescentam continuidade ao conhecimento, sem necessariamente permitir uma descoberta própria.
A mesma estrutura declara a falta de liberdade e estabelece uma liberdade futura como objetivo.
A ausência de conhecimento sobre si impede definir a própria condição como livre ou escravizada.
Quando desaparece o exame de si mediante categorias herdadas, também desaparece a exigência de libertar-se dessa identidade.
Q:
A compreensão parece exigir uma mente profundamente silenciosa, capaz de superar a agitação e o acúmulo de pensamentos habituais.
UG:
A quietude mental é outra meta criada pela exigência de liberdade, enquanto a memória permanece indispensável à vida e se torna problemática quando é empregada para obter felicidade ou realização espiritual.
A tentativa de eliminar a memória implica um afastamento do funcionamento necessário à existência.
O não saber é transformado em mito quando o conhecimento projeta a possibilidade de libertar-se de si mesmo.
A exigência de tornar-se aquilo que se deveria ser conserva a condição efetiva contra a qual esse ideal foi estabelecido.
Q:
A crença em uma pessoa, sociedade ou condição ideal parece fixar a existência em suas limitações, pois aquilo que se imagina não ser determina a compreensão daquilo que efetivamente se é.
UG:
A projeção de um ideal conserva a condição presente, e Deus constitui sua forma mais poderosa, criada pelo medo e associada a uma herança religiosa que agravou a desordem da vida humana.
Q:
A ênfase na estrutura do pensamento parece aproximar essas formulações de outros ensinamentos, especialmente os de Jiddu Krishnamurti, tornando necessário esclarecer por que o pensamento ocupa uma posição tão central.
UG:
O pensamento determina as ações sem poder ser observado por uma entidade independente, pois observador, experiência e identidade pertencem ao conhecimento acumulado, cuja projeção de transformação e liberdade no futuro conserva a atividade centrada em si mesma.
O conhecimento sobre o pensamento não equivale à percepção de uma realidade separada que possa ser diretamente examinada.
Aquilo que se chama eu é outro pensamento e corresponde a uma organização de conhecimentos comuns, sem uma individualidade substancial por trás deles.
Experiência e conhecimento são inseparáveis, tornando ilusória a distinção entre um eu e os conteúdos que supostamente lhe pertencem.
A iluminação não possui existência independente das ideias formuladas a seu respeito, e sua procura pressupõe uma mudança que exige tempo.
A distância entre a condição atual e a condição desejada é preenchida por perguntas sobre como transformar-se, mantendo a realização sempre para amanhã.
A meditação pode funcionar como reflexão sobre uma mudança desejada, sem constituir a ação que a expectativa anuncia.
A projeção de outra vida ou de um céu futuro amplia o prazo da realização, conservando a mesma lógica de adiamento.
O presente reconhecido pelo pensamento também pertence ao passado, pois toda identificação depende da memória.
A percepção de uma árvore pode limitar-se ao conhecimento acumulado sobre árvores, sem alcançar aquilo que o pensamento pretende observar.
A motivação para obter desprendimento ou iluminação permanece centrada no benefício de quem busca, fortalecendo o egoísmo que deveria superar.
A exigência de liberdade pessoal conserva a estrutura de apropriação e separação que impede a própria liberdade pretendida.