Na Índia antiga, cada ramo do saber estava associado a uma arte altamente especializada e a uma forma de vida correspondente, de modo que o conhecimento não se recolhia primordialmente de livros, conferências ou conversas, mas era dominado por meio de um aprendizado prolongado ao lado de um mestre competente.
A entrega sincera do discípulo maleável à autoridade do guru tinha como requisitos essenciais a obediência (śuśrūṣā), entendida como desejo fervoroso de ouvir, obedecer e reter o que se ouve, com respeito, reverência e espírito de serviço, e a fé absoluta (śraddhā), entendida como confiança e serenidade da mente que exige a total ausência de pensamento crítico independente e inclui um veemente desejo de aprender, palavra que significa também o desejo de uma mulher grávida.
O discípulo reverencia o guru como personificação do saber divino a ser transmitido e como devoto da divindade que preside a arte escolhida, compartilhando a casa do mestre durante anos, servindo-o e ajudando-o em seu ofício, seja ele sacerdote, mago, asceta, médico ou oleiro.
As técnicas são aprendidas pela prática constante e a teoria pela instrução oral complementada pelo estudo dos manuais básicos, mas o mais importante é a ocorrência de uma transferência entre mestre e discípulo, pela qual este último é moldado como metal maleável não só no saber e na arte, mas em toda a sua atitude pessoal.
Do guru exige-se uma correspondência absoluta e pontual entre seus ensinamentos e sua forma de vida, identidade que no Ocidente só se esperaria de um monge ou de um sacerdote.
Não se exige atitude crítica, mas uma formação gradual no molde da disciplina, em que a instrução é aceita inicialmente às cegas e a compreensão intuitiva da verdade surge por si mesma à medida que cresce a capacidade do discípulo.
Na Europa esse procedimento é conhecido sobretudo pela prática da Igreja católica, como ilustra o episódio de Bouvard et Pécuchet, de Flaubert, em que o padre responde às dúvidas de dois livres-pensadores desiludidos apenas com o conselho de praticar primeiro os deveres rituais, para que a compreensão venha depois pela ação da graça.
A filosofia oriental é acompanhada e auxiliada pela prática de uma forma de vida que inclui reclusão monástica, ascetismo, meditação, prece, exercícios de ioga e horas diárias de culto, cuja função é imbuir o devoto da essência divina da verdade, manifesta tanto nos símbolos das divindades quanto no próprio mestre como verdade encarnada.
A filosofia da Índia guarda com a religião, os sacramentos, as iniciações e a prática litúrgica uma relação tão estreita quanto a da filosofia ocidental moderna com as ciências naturais e seus métodos de investigação.
A verdadeira aquisição de saber é apenas aquela confirmada na própria vida, e o valor dos escritos de um homem depende do grau em que sua vida exemplifica seu ensinamento.
O Vedāntasāra, pequeno tratado para principiantes de meados do século XV, revela a atitude do discípulo hindu diante de sua matéria, e suas estrofes não foram escritas para serem lidas como um ensaio de Locke,
Hume ou
Kant.
A pergunta preliminar sobre quem é competente para estudar o Vedānta com o fim de realizar a verdade exclui de imediato os ocidentais e os intelectuais.
O estudante competente (adhikārin) deve abordar o Vedānta não com crítica ou curiosidade, mas com fé completa (śraddhā) de que, pelas fórmulas comunicadas, descobrirá a verdade, além de desejar ardentemente libertar-se das cargas da vida mundana, desejo chamado mumukṣutva ou mokṣa-icchā.
Assim como o homem que carrega na cabeça um feixe de lenha em chamas corre para um charco para apagar o fogo, o adhikārin, queimado pelas dores da vida mundana, voa até o guru versado nos Vedas, que já alcançou o ideal do Vedānta e vive sereno, chegando a ele com presentes nas mãos, pronto para servir e obedecer.
O estudante competente deve ter estudado os quatro Vedas e seus membros (Vedāṅga) segundo o método prescrito, ter-se purificado de todos os pecados desta vida e de vidas anteriores, ter-se abstido de ritos voltados a desejos mundanos ou a causar dano a outros, ter realizado fielmente as devoções diárias e os ritos obrigatórios especiais, e ter praticado as austeridades expiatórias e as meditações ortodoxas.
Os ritos penitenciais têm por finalidade purificar a mente, enquanto as meditações visam levá-la a um estado de concentração em um único ponto.
Os resultados prazerosos desses ritos, como o céu dos antepassados (pitṛ-loka) ou a esfera da verdade (satya-loka), não interessam ao adepto do Vedānta, pois ainda pertencem aos mundos do nascimento e à roda da existência (saṁsāra), ainda que constituam um episódio feliz de incontáveis milênios.
O vedantino deseja ver através e além do caráter ilusório da existência em todas as suas formas, sacrifica toda ideia de gozar os frutos de suas boas obras, entrega toda recompensa à divindade pessoal a que serve e sabe que quem age não é ele, mas a Pessoa Espiritual onipresente que habita nele e em todas as coisas, o Deus que é o Si (ātman) em seu coração.
O primeiro meio para transcender a ilusão é a discriminação entre as coisas permanentes e as transitórias (nitya-anitya-vastu-viveka), segundo a qual só o Brahman é substância permanente, enquanto todos os objetos agradáveis deste mundo e também os prazeres do outro mundo, resultantes das ações (karman), são transitórios.
O segundo requisito é um resoluto desdém por tudo o que é ilusório, isto é, a renúncia sincera e eficaz a todo fruto possível dos atos virtuosos, chamada indiferença ao gozo dos frutos da ação tanto aqui quanto no além (ihāmutrārthaphalabhogavirāgaḥ).
O terceiro meio é a concentração, exposta nos seis tesouros: śama, a quietude mental que mantém a mente livre das perturbações dos objetos sensíveis, permitindo como única atividade sensorial escutar o guru; dama, a submissão dos sentidos; uparati, a cessação completa das faculdades de percepção e ação; titikṣā, a paciência para suportar sem inquietação os pares de opostos (dvandva); samādhāna, a concentração constante da mente em absorção perfeita no único objeto; e, por fim, a fé perfeita.
Segundo a psicologia clássica hindu, o homem possui cinco faculdades de percepção, cinco faculdades de ação e um órgão interno de controle (antaḥkaraṇa), que se manifesta como eu (ahaṅkāra), memória (citta), entendimento (buddhi) e pensamento (manas), e dama consiste em afastar todo esse sistema do mundo externo.
Discriminação, renúncia, os seis tesouros e o desejo de libertação são os meios pelos quais o filósofo hindu chega à meta do entendimento, e somente o aspirante cujo coração e mente já foram purificados pelos ritos ortodoxos e que está suficientemente instruído nas escrituras pode conquistá-los, sendo então um estudante qualificado.
No Oriente, a filosofia não pertence ao domínio da informação geral, mas é um saber especializado voltado a alcançar uma forma mais alta de ser, e o filósofo é um homem cuja natureza foi transformada segundo um modelo sobre-humano por ter sido preenchido pelo poder mágico da verdade, razão pela qual o futuro discípulo deve ser cuidadosamente provado.
A palavra adhikārin significa, como adjetivo, alguém com título, direito, autoridade, poder e qualificação para algo, e, como substantivo, funcionário, chefe, proprietário ou pessoa qualificada para realizar um sacrifício ou obra piedosa.
A filosofia é apenas uma das muitas espécies de sabedoria (vidyā), cada uma conduzindo a um fim prático e conferindo a seu possuidor um poder específico: o médico domina doenças e drogas, o carpinteiro domina a madeira, o sacerdote domina demônios e até deuses, e o filósofo iogue domina sua mente, seu corpo, suas paixões e meditações, ficando além do alcance do destino.
Toda sabedoria deve ser guardada zelosamente e comunicada com cautela apenas a quem possa ser seu receptáculo perfeito, pois cada ramo do saber traz consigo um poder quase mágico, e comunicá-lo a alguém incapaz de manejá-lo seria desastroso.
A posse da sabedoria era considerada uma das partes mais valiosas da herança familiar, transmitida pela linha paterna para conservar o prestígio da família, de modo que fórmulas de encantamento, técnicas de ofícios e a própria filosofia passavam de pai para filho.
Os hinos védicos pertenciam originalmente a grandes linhagens, e os livros do segundo em diante do Ṛg-veda, o mais antigo documento das tradições indo-europeias, são chamados livros de família, cujos versos revelados em comunicação extática com os deuses eram marcados por seus proprietários, frequentemente com uma estrofe final característica, assim como o gado das famílias arianas era marcado na orelha ou no flanco.
Quanto mais altos os poderes envolvidos, mais cuidadosamente a sabedoria precisa ser guardada, e na antiguidade védica, como na homérica, os ritos destinados a conjurar os deuses ocupavam o lugar das ciências modernas, de modo que um hino poderoso era tão precioso quanto hoje o segredo de um superbombardeiro ou os planos de um submarino.
Em meio às guerras quase ininterruptas da história indiana, as fórmulas religiosas dos brâmanes eram usadas como arma secreta, à semelhança das trombetas mágicas com que as tribos de Israel, conduzidas por Josué, derrubaram as muralhas de Jericó.
Por sua sabedoria superior, os arianos derrotaram os povos pré-arianos, que passaram a formar a quarta casta, a dos śūdra, excluídos dos direitos e da sabedoria fonte de poder, a ponto de os primeiros Dharmaśāstra prescreverem que o śūdra que ouvisse acidentalmente um hino védico tivesse os ouvidos preenchidos com chumbo derretido.
Esse sistema arcaico de segredo e exclusividade persistiu em todos os períodos da vida indiana, e mesmo as tradições não védicas, como budismo, jainismo, sāṅkhya e ioga, que não têm restrições de casta e família, exigem uma entrega tão completa ao mestre que se torna impossível o retorno à vida anterior, devendo o aspirante desprender-se da família herdada e renascer como membro da ordem.
As ideias principais da doutrina secreta bramânica, formuladas ao final do período védico, conservam-se nas Upaniṣad, instrução altamente especializada que o mestre podia conceder ou negar, destinada apenas ao verdadeiro adhikārin, chegando-se a prescrever sua transmissão somente ao filho mais velho, ou ao filho e discípulo que tenha alcançado a tranquilidade.
O termo equivalente a upaniṣad é sempre rahasyam, que significa segredo ou mistério, pois se trata de uma doutrina oculta que revela a verdade da verdade (satyasya satyam).
O mesmo caráter de reserva e exclusividade mantém-se no período tântrico, cuja literatura pertence sobretudo aos séculos posteriores ao III d.C. e se apresenta como conversas secretas entre Śiva e sua śakti, que se ensinam mutuamente a romper o feitiço do erro, textos que não devem ser ensinados a descrentes nem a crentes não iniciados.
No Ocidente, ao contrário, a filosofia se orgulha de estar aberta à compreensão e à crítica de todos, é exotérica, não possui doutrina secreta e exige apenas inteligência e imparcialidade, tendo por isso alcançado mais influência que o ensinamento da Igreja, baseado na Revelação e na autoridade dos Padres, Papas e concílios.
A filosofia ocidental moderna e popular, seguindo as ciências naturais, não reconhece outra autoridade senão a prova experimental e pretende basear-se apenas em dados críticos e metodicamente organizados, derivados da experiência sensível e controlados pela mente e pelos aparelhos de laboratório.
Na civilização ocidental, os homens de negócios que controlam a economia e a política costumam desconfiar dos filósofos, vistos como professores que complicam as coisas com abstrações e pouco se destacam como homens de empresa.
Platão tentou estabelecer um governo modelo na corte do tirano da Sicília, mas, após a desavença, foi preso e posto à venda no mercado de escravos, sendo comprado e libertado por um amigo, e, de volta a Atenas, encontrou o único consolo do intelectual escrevendo a República e as Leis, obras que deixaram marca imensa sobre os séculos e milênios.
Após a morte repentina de
Hegel em 1831, sua filosofia perdeu prestígio e foi ridicularizada durante oitenta anos nas universidades alemãs, a ponto de, em 1911, em Berlim, seu quarto sucessor, Alois Riehl, expô-la entre gracejos, até que a geração seguinte, sob a inspiração de Wilhelm Dilthey, a redescobrisse e originasse os neo-hegelianos.
Fora das universidades, as ideias de
Hegel continuaram a influir no curso do mundo, não só no hegelianismo de Bolland na Holanda e na tradição que culminou em Benedetto Croce na Itália, mas sobretudo ao inspirarem Karl
Marx, a estratégia dialética de Lênin e Pareto, pai intelectual do fascismo, numa influência comparável à de Confúcio na China e à de
Aristóteles na Idade Média e Moderna.
Embora os filósofos pareçam mestres acadêmicos inofensivos, mansos e até fracassados, por vezes conduzem, como fantasmas invisíveis, exércitos e nações futuras pelos campos de batalha revolucionários.
A Índia, sonhadora e pouco prática, sempre sustentou que a sabedoria pode ser poder desde que impregne, transforme, domine e modele toda a personalidade, de modo que o sábio não seja uma biblioteca filosófica com pernas, mas alguém em quem o pensamento se torna vida, carne e habilidade em ato.
O poder mágico de Gandhi deve ser compreendido desse modo, pois nele se identificam a sabedoria ascética como estilo de existência e a política como atitude efetiva diante dos problemas mundanos, e seu título de Mahātma designa aquele em quem a essência divina e suprapessoal (ātman) cresceu a ponto de dissolver toda traça do eu, das limitações individuais e dos atos motivados pelo eu (karman).
O sábio é venerado e temido pela força anímica milagrosa que irradia, assemelhando-se mais a um xamã primitivo, a um sacerdote védico ou a um mago do que ao doutor em filosofia comum, ou ainda ao asceta que, por suas austeridades, adquire poderes capazes de submeter os próprios deuses.
Os textos védicos indicam com precisão os resultados milagrosos obtidos por cada tipo de saber, e a fórmula frequente “aquele que sabe isto” (yo evaṁ veda) designa quem assimila os poderes sobre-humanos cuja eficácia secreta compreendeu pelo estudo e pela prática.
O texto chamado “O morrer em torno do Poder sagrado” (brahmaṇaḥ parimaraḥ), conservado no Aitareya-brāhmaṇa, é ao mesmo tempo um documento de metafísica e uma receita de poder, uma terrível arma secreta da sabedoria política (arthaśāstra), proveniente da era de cavalaria refletida na guerra do Mahābhārata.
Quem conhece esse rito vê morrer em torno de si os rivais que o odeiam, pois aquele que sopra, isto é, o vento ou alento vital (prāṇa) que penetra e move o macrocosmo, é o Poder sagrado (brahman), e em torno dele morrem cinco divindades: o relâmpago, a chuva, a lua, o sol e o fogo.
O relâmpago, após brilhar, desaparece na chuva e fica oculto aos homens, assim como o homem que morre fica oculto, e nesse momento o operador deve pronunciar a maldição para que seu inimigo morra, fique oculto e não seja mais visto, constituindo um feitiço de destruição por analogia que atua à distância.
A chuva entra na lua, receptáculo e fonte das águas vitais cósmicas, a lua em conjunção entra no sol, o sol ao se pôr entra no fogo do sacrifício e do lar, Agni, mensageiro dos deuses e considerado mais poderoso que o sol, e o fogo entra no vento, o mais alto dos poderes sagrados, que continua a soprar quando os demais deixam de se manifestar, repetindo-se em cada desaparecimento a maldição de morte.
Quem adora um dos poderes menores como se fosse o supremo partilha sua fraqueza e sucumbe diante daquele cujo conhecimento do poder maior lhe confere força inigualável.
Na fase inversa, as divindades renascem: do vento nasce o fogo, aceso pela fricção de um bastão em uma tábua, em que o alento vital unido à força física humana (bala) produz a chama, e do fogo nasce o sol, do sol a lua e da lua a chuva, devendo o operador, a cada nascimento, pedir que a divindade nasça, que o inimigo não nasça e que se vá depressa.
A eficácia do rito é garantida por sua origem e êxito, pois o sacerdote Maitreya Kauṣārava o ensinou ao rei Sutvan Kairiśi Bhārgāyaṇa, em torno de quem morreram cinco reis, tornando-se ele mahārāja ao submeter os demais rāja.
O rito exige um voto (vrata): o operador não deve sentar-se, deitar-se nem dormir antes do inimigo, mas permanecer de pé, sentado ou acordado conforme imagine estar o rival, e assim, ainda que o inimigo tenha a cabeça de pedra, logo o abate.
Na medida em que depende do conhecimento de brahman, esse exemplo pertence ao caminho do conhecimento (jñāna-mārga), e na medida em que exige o voto pertence ao caminho da ação ritual (karma-mārga), devendo ser praticado sem erro nas cinco ocasiões de nascimento e morte dos poderes cósmicos.
A tarefa de quem pratica essa magia contra chefes rivais, primos ou meio-irmãos é extremamente complexa, obrigando-o a vigiar constantemente o fogo, o sol, a lua, as tempestades e o rival, a ponto de parecer um neurótico vítima de estranha obsessão, embora tudo valesse a pena se a arma secreta lhe abrisse o domínio do poder real supremo.
Essa magia provém de um dos mais terríveis períodos de guerras civis, que terminou com a matança recíproca e o autoextermínio de toda a cavalaria indiana e com o fim da antiga realeza feudal védico-ariana.
No período seguinte, o das Upaniṣad, o termo sânscrito para herói (vīra) passou a designar não principalmente o homem de ação, mas o santo, o sábio que se tornou senhor não dos outros nem de reinos vizinhos, mas de si mesmo.
Brahman é o conceito mais importante da religião e da filosofia indianas desde os tempos védicos, não podendo ser traduzido de modo simples, e uma investigação etimológica, técnica muito estimada na teologia védica e nas ciências hindus para descobrir tanto o sentido do termo (nāman) quanto a natureza essencial do objeto (rūpa), prepara sua compreensão.
Em parimaraḥ, a raiz mṛ- significa morrer, o prefixo pari- corresponde ao grego περι-, em torno, e a terminação -aḥ forma um substantivo verbal, resultando em “o morrer em torno”.
A tradução de brahman por “Poder sagrado”, proposta pelo professor Keith, é adequada ao contexto do texto mágico, e a terminação -man, presente também em ātman, karman e nāman, forma substantivos que denotam ação: ātman, da raiz an-, respirar, ou at-, ir, é o princípio da respiração ou da marcha, isto é, da vida; karman, da raiz kṛ-, fazer, é obra, ação ou rito; e nāman, da raiz jñā-, conhecer, significa nome.
O tema brah- aparece na forma mais breve bṛh- nos dois nomes da divindade védica Bṛhaspati ou Brahmaṇaspati, sacerdote doméstico e guru de Indra, que, como o brâmane conselheiro e mago da corte de todo rei humano, defendia seu senhor e permitiu-lhe, com sua sabedoria poderosa, vencer os antideuses (asura) e mantê-los em suas moradas subterrâneas.
Bṛhaspati é o arquétipo celeste da casta brâmane e o primeiro ancestral divino dos Aṅgiras, uma das duas famílias sacerdotais mais antigas, cujos membros contemplaram os deuses em êxtase e expressaram essas visões nas estrofes do Ṛg-veda, capazes por isso de conjurar os deuses em favor da família proprietária do hino.
A terminação -pati significa senhor, aparentada ao grego πόσις e πότνια, de modo que Bṛhaspati é o potente, aquele que tem poder sobre bṛh ou brah, algo muito distinto de intelecto.
Bṛh subsiste no particípio bṛhant, grande, e na forma nasalizada bṛṁhayati, fazer crescer ou tornar grande, pois bṛh- significa crescer, aumentar e, quanto aos sons, rugir, sendo bṛṁhita o bramido do elefante, o maior dos ruídos animais.
Na medicina clássica hindu, bṛṁhayati designa a arte de aumentar a força vital dos fracos, de engordar os magros, assim como as divindades se tornam engrandecidas pelos hinos e louvores e os homens pelas bênçãos, como na prece dirigida ao viajante, fortalecido pela força anímica e pela visão interior de quem o abençoa.
O substantivo védico barhaṇā, da mesma raiz, significa poder ou força, de modo que brahman corresponde exatamente ao que o hinduísmo posterior chama śakti, energia, força ou potência, termo aparentado a śakta, quem tem poder para fazer algo, a Śakra, o poderoso, epíteto de Indra, e a Śacī, a poderosa, nome de sua rainha Indrāṇī.
O Poder, fim e instrumento supremo da magia, era o grande elemento determinante de toda a arte sacerdotal védica, encontrando-se em toda parte e residindo no núcleo mais íntimo do homem, de onde flui para o corpo e o cérebro e pode crescer até irromper na mente como visão ou na língua como encantamento, razão pela qual, nos hinos védicos, brahman significa muitas vezes simplesmente esta estrofe ou este verso.
Brahman é a fórmula mágica sagrada, a forma cristalizada da mais alta energia divina, que pulsa adormecida no homem e pode ser ativada pela concentração mental, e, antes de cristalizar, constitui o poderoso impulso que surge do subconsciente, a espontaneidade fundamental da natureza humana, capaz de assumir, como Proteu, a forma de qualquer emoção, visão, impulso ou pensamento.
Sua fonte se oculta além da experiência sensível e do processo mental, sendo por isso transcendente, aquilo que a psicologia moderna chama inconsciente, situado além do alcance da consciência intelectual.
Brahman transcende tanto o corpo grosseiro (sthūla-śarīra) quanto o corpo sutil (sūkṣma-śarīra) com suas noções, ideias, emoções e fantasias, e, como poder que anima o microcosmo e o mundo exterior, é o hóspede divino do corpo mortal, identificando-se com o Si (ātman), aspecto superior do que no Ocidente se chama indiscriminadamente alma.
O conceito ocidental de alma mistura elementos da esfera mutável da psique com o fundamento indestrutível da existência, o Si, distante das tribulações da personalidade, que não deve ser confundido nem com a matéria e os órgãos do corpo grosseiro nem com as faculdades e estados anímicos do corpo sutil, envoltórios perecíveis que o recobrem.
Brahman, poder cósmico supremo, é a essência de tudo o que se é e se sabe, e embora todas as coisas o manifestem, só a santa sabedoria do sábio mago merece seu nome, pois ele é o único ser dedicado a tornar consciente em si e manifesto na ação o que em tudo o mais permanece oculto, papel que o sacerdote sustenta graças à técnica do ioga.
Todo ser vive à margem do oceano infinito da força vital, que se esconde na cripta mais profunda do ser, e a ideia dominante da filosofia indiana é redescobrir essa fonte e beber dela sem cessar, o que faz dos exercícios espirituais indianos um dos sistemas de pensamento mais realistas, práticos e positivos já erguidos, voltados a alcançar o Brahman, identificar-se com ele e tornar-se divino ainda na terra.
Essa busca não é exclusivamente indiana, mas aparece em mitos de todo o mundo, como Gilgamesh em busca da planta da imortalidade, Owein e a Fonte da Vida, Parsifal e o Santo
Graal, Hércules, Jasão e o Velocino de Ouro, Orfeu e Eurídice, a expedição do imperador chinês Shih Huang, os alquimistas medievais e a pedra filosofal, e o herói polinésio Maui, prosseguindo no Ocidente por meio dos médicos.
O traço característico da busca indiana é sua formulação e execução em termos de pensamento, de modo que a filosofia indiana não contradiz, mas esclarece e corrobora os símbolos mitológicos universais, como disciplina prática, física e mental, que os realiza na vida despertando e ordenando a mente.
Antes do estudo das técnicas dessa aventura, impõe-se conhecer as condições gerais da vida na Índia por meio das três filosofias da vida mundana (trivarga): a doutrina política do arthaśāstra, a psicológica do kāmaśāstra e a ética do dharmaśāstra, pois são justamente as posses (artha), os prazeres (kāma) e as virtudes (dharma) que devem ser convertidos em essência divina, e a libertação significa ir além do conhecido.
A Índia dificilmente se teria lançado a especulações tão sublimes se as condições de vida tivessem sido menos desesperadas, pois a libertação (mokṣa) só se torna a principal preocupação do pensamento quando aquilo que prende os homens à existência secular não oferece esperança nem fins promissores, de modo que a impiedosa filosofia política e as proezas metafísicas sobre-humanas são o anverso e o reverso de uma mesma experiência da vida.