NÃO-DUALIDADE COM OU SEM DESEJO

DDAG

Para resumir, a não-dualidade de Shankara se distingue da de Abhinavagupta nos seguintes pontos:

Está claro que, mesmo que as diferenças teóricas possam parecer mínimas (e ainda assim!), suas consequências práticas são consideráveis. No limite, poder-se-ia conceber que o sistema de Abhinavagupta pudesse se acomodar ao de Shankara. Aliás, foi o que fez uma parte da tradição do Shrividya, uma tradição tântrica contemporânea muito popular e frequentemente integrada às instituições brâmanes. Por outro lado, Shankara não poderia adotar todas as teses de Abhinavagupta sem perder seu “eu” brâmane. Na visão inclusivista do mestre de todas as tradições shaivas, a não-dualidade de Shankara teria, de fato, seu lugar: corresponde ao momento em que a consciência se liberta de todos os objetos limitados em um gesto de negação total. É assim que Abhinavagupta interpreta a célebre frase da antiga Upanishad: o Ser “não é assim, não é assim!”. No entanto, esse esvaziamento é para o shaivismo apenas um estágio para a soberania.

Abhinava não menciona Shankara. Por outro lado, ele critica uma posição bastante semelhante em seus comentários sobre o Reconhecimento, a de Mandanamishra. (Outro partidário do Vedanta, talvez contemporâneo de Shankara (por volta do século VIII). Ele é próximo de Shankara, mas menos radical que ele em sua rejeição dos ritos e da meditação. Para Shankara, de fato, nenhuma prática pode levar à realização do Ser sempre já real. Apenas a compreensão das palavras da Revelação vedântica, como “Tu és isso”, permite o acesso a essa realização.) Este exame se concentra em dois pontos em particular: por um lado, o Vedanta afirma que os fenômenos são irreais e sem fundamento racional. Mas então, de onde vêm essas aparências? E quem é ignorante, se só existe o absoluto? Por outro lado, o Vedanta sustenta que o absoluto é sem desejo nem atividade. Mas, por causa disso, torna-se impossível agir livremente. O adepto do Vedanta parece condenado a temer a vida, refugiando-se em uma liberdade abstrata, afastada de tudo. Ora, que vale uma liberdade se ela não permite agir?