A humanidade, desde os tempos muito remotos em que começou a divergir do reino animal e a avançar no espaço ilimitado dos possíveis, sentiu constantemente a necessidade de recriar ao seu redor o equivalente de uma natureza — algo de fixo e intangível que enquadre suas pulsões e as impeça de se dissolver na hybris.
Desde a aurora da história, os homens sonharam construir uma ordem estável, auto-sustentada, que funcione, ou seja, que permita um mínimo de satisfação das pulsões, tornando ao mesmo tempo impossível a guerra de todos contra todos que seu desencadeamento incontrolado implicaria.
Esse sonho se encarnou nos aspectos da civilização chamados moral, direito, política e também, mas em sua única dimensão institucional, a religião.
Essa estratégia repousa sobre uma contradição que não lhe é dado superar totalmente: no plano individual, apresenta-se como empreendimento de domínio das pulsões, podendo chegar ao heroísmo do sacrifício de si; no plano coletivo, toma a forma de uma tentativa de regulação da violência visando a uma repartição mais “justa” dos bens deste mundo.
A consciência propriamente ética não é outra coisa senão essa capacidade do ser humano de tomar distância em relação ao egocentrismo natural da criatura, tratando ou esforçando-se por tratar o outro como a si mesmo — ela representa já uma ruptura profunda em relação à condição animal, onde tal capacidade está presente de maneira muito restrita e limitada a situações particulares bem precisas, como a proteção dos filhotes.
A consciência moral, mesmo a mais exigente, sofre de uma limitação essencial: em nenhum caso tem a possibilidade de remeter em questão a dicotomia primária do “bom” e do “mau”, pois isso equivaleria a seu próprio desarraigamento — esses julgamentos primitivos de conveniência e desconveniência constituem o material bruto a partir do qual uma reflexão ulterior elaborará o Bem e o Mal no sentido ético desses termos.