A psicologia empírica, a neurofisiologia — e por vezes a própria filosofia — inclinam-se a ver na dor uma sensação como outra qualquer, ainda que de espécie um tanto particular — denunciar esse amálgama permite dar um primeiro passo em direção a uma compreensão mais autêntica do fenômeno.
O doloroso não é em nada assimilável ao gênero de qualidades sensíveis que são o vermelho, o rugoso, o agudo, o doce etc.; antes de tudo, é monótono em sua textura, variando apenas em intensidade e em ritmo de crescimento ou decrescimento — dor viva ou surda, intermitente, fulgurante, contínua etc.
O doloroso jamais aparece imediatamente em estado puro, mas começa sempre por se enxertar em qualidades sensíveis cuja variedade se reflete nele, inscrevendo nele uma diversidade factícia e superficial — pressões, picadas, distensões, tensões, fricções, calor, frio etc.; essa diversidade é sobretudo observável nas proximidades do limiar de percepção, onde a dor ainda é fraca, e se esfuma à medida que cresce em intensidade.
O elemento propriamente doloroso não se reduz tampouco a uma simples “exageração” das sensações, pois nesse caso não se poderia dar conta do fenômeno de convergência e unificação dos registros sensoriais que acompanha a intensificação da dor.