A questão de saber se a resposta do Advaita é plenamente satisfatória de um ponto de vista puramente indiano conduz à constatação de que, embora o Advaita tenha distinguido cuidadosamente o Eu e o Si mesmo e levado longe a desindividualização do atman, ele deixa de oferecer qualquer presa real às críticas budistas, ao preço, porém, de se colocar em contradição com as próprias Upanishad.
Nos textos upanishadicos, a libertação aparece antes sob os traços de uma reconquista da própria plenitude — purnata, krisnala — por um sujeito que logrou identificar-se ao ponto-instante mágico em que o centro de sua pessoa coincide com o do universo.
A imagem, frequente, do suco ou do mel exprime bem a maneira pela qual a “libertação” upanishadica se apresenta como o reagrupamento e a concentração, no aqui-agora, das fruições mundanas ordinariamente dispersas, discordantes e por isso impregnadas de dor.
O Advaita jamais se sentiu à vontade com esse aspecto de sua própria tradição, que contradiz demasiado sua escolha deliberada em favor da renúncia.
Desse mal-estar testemunham os interminávies debates internos sobre a continuidade — ou ausência de continuidade — entre prazeres sensíveis e felicidade brâmane, sobre a articulação exata dos estados de chefe de família e de sannyasin.
O ahamkara — negado e mesmo renegado no ponto de chegada — permanece indispensável no ponto de partida: sem o fenômeno da consciência de si, do cogito, a própria dialética do tat tvam asi ficaria privada de sentido.
Abandonar toda referência ao ego e aos prazeres sensíveis conduziria o Advaita às proximidades imediatas do budismo; acentuá-la o faria recair no “secularismo” da Mimamsa.
O pensamento brâmane clássico, incluindo o Advaita, parece ter perdido um dos segredos das Upanishad — o de uma conciliação ingênua da transcendência e da imanência, de uma terceira via entre a mortificação ascética do Eu e sua perenização pela atividade ritual.