As narrativas fazem corpo com os desenvolvimentos propriamente especulativos e não se reduzem a simples ornamentação literária, funcionando em três níveis distintos: ilustração de um ponto de doutrina, iniciação e “metafísica ficção”.
Num primeiro nível, as narrativas ilustram e tornam concreto um ponto de doutrina exposto anteriormente — é o caso da história de Indra e Ahalya, que serve para ilustrar a onipotência do espírito suficientemente concentrado sobre o qual a realidade exterior não tem qualquer poder: absortos em sua paixão recíproca, Indra e Ahalya desprezam e literalmente não sentem as diversas torturas que o rei Indradyoumna, movido pelo ciúme, pretende infligir-lhes; outro conto mostra Indra — desta vez o deus — posto em debandada numa batalha com os Titãs, refugiando-se num grão de poeira dançando num raio de sol e recriando, pela simples força de sua imaginação, um universo inteiro que governa por Eons — VIb, 13-14.
Num segundo nível, certas narrativas são de ordem “iniciática”: utilizam a força evocadora do verbo poético para conduzir insensível mente o leitor a tomar consciência de certas realidades que as formas ditas sãs ou normais da percepção sensível — a serviço da maya — têm precisamente por função velar; é o caso da história do rei Lavana, hipnotizado por um mágico, que vive em alguns minutos toda sorte de aventuras entre intocáveis — incluindo casamento, filhos, fome e autoimolação —, “despertando” diante de cortesãos estupefatos; a estrutura iniciática é clara: começa, à maneira das viagens xamânicas para o além, pela travessia de um deserto que marca a fronteira entre dois mundos, o de cima — humano e civilizado — e o de baixo — misterioso e selvagem —, na região dos montes Vindhya, situada ao Sul, direção do País dos Mortos.
Num terceiro nível, as narrativas constituem uma espécie de ponta avançada da reflexão filosófica: os infinitos recursos da narração permitem sugerir indiretamente uma verdade especulativa meta-racional que o discurso lógico — submetido ao princípio de contradição — é impotente para formular; dois temas maiores alimentam a veia narrativa do autor do Yoga-Vasishtha: o da criação mental — toda realidade percebida ao exterior foi antes projetada ao interior — e o da unicidade do sujeito, que conduz à hipótese de um iogue podendo habitar o mundo interior de outro sujeito, deslizar em seu pensamento, “ser” por um momento esse sujeito — como o faz Vasishtha ao explorar em pensamento o universo interior do monge Dirghadrisha, na narrativa 5.
Quando esses dois temas são postos em relação, engendram a possibilidade de conceber o conjunto da manifestação como uma imensa rede de sonhos em comunicação uns com os outros: os seres não seriam mais sujeitos plenos, mas parcialmente figuras oníricas projetadas por uma imaginação superior à deles, e o universo inteiro seria feito de sonhos encaixados dos seres individuais, cada um sonhando os de nível ontológico inferior ao seu e sendo ele mesmo sonhado pelos de nível superior — todos não seriam mais que aspectos parciais, formas provisoriamente desdobradas ou delegações de poder consentidas pelo Sujeito verdadeiro, Sonhador supremo cuja soberana potência de imaginar recapitularia e coroaria no ápice a experiência vivida de todas as suas hipóstases; a história do monge Djivata — chamada também “História dos cem Roudras” — desenvolve mais especialmente essa grandiosa hipótese.
A história do rei Lavana exemplifica como o Yoga-Vasishtha é refratário aos dilemas do entendimento — o relato é agenciado de tal modo que a sutura entre a alucinação passada e a experiência perceptiva presente seja a mais fácil possível, sem que o leitor possa decidir qual das duas faces da experiência foi fictícia; Vasishtha fornece sucessivamente três explicações, nenhuma satisfatória: a primeira postula que Lavana sonhou; a segunda, que o que Lavana vê falsamente em sonho se inscreve simultaneamente no espírito dos intocáveis; a terceira, que o que os intocáveis experimentam veio por um momento se inscrever no espírito do rei — nenhum desses esquemas é aceitável, a história não retoma seu equilíbrio, e o leitor é convidado a se elevar a um nível superior de interpretação no qual nem Lavana, nem os cortesãos, nem os intocáveis são absolutamente reais, mas flutuam num espaço de representação que lhes preexiste e que são impotentes para “constituir” — no sentido kantiano.