A única questão importante para Vasishtha é a dos meios pelos quais o manas individual poderia dissolver a objetividade rígida do mundo exterior em que está emaranhado — dissolvendo-se ele mesmo, enquanto entidade separada —, o que exige uma teoria que esboce algo como uma cosmogonia capaz de ser invertida.
As tentativas de cosmogonia estão dispersas por toda a obra e não constituem um conjunto absolutamente coerente.
Um dos desenvolvimentos mais interessantes encontra-se no início da “Seção da origem do mundo” — III, 1: “no começo” — isto é, após uma dissolução cósmica total ou maha-pralaya — existe apenas uma entidade indefinível, “nem luz nem trevas”, chamada convencionalmente brahman ou atman — Ser.
Num esquema mais elaborado — III, 12-13 —, a entidade originária, situada aquém da distinção sujeito-objeto, é “fortuitamente” — por kakataliya — atravessada por uma onda de pensamento que a faz cindir-se, de um lado em Eu universal, de outro em espaço-tempo; movido pela nostalgia da objetividade, o pensamento desse Eu cósmico se condensa em sons-palavras, depois em formas-cores; ao mesmo tempo, esse Eu, refratado através das categorias do espaço-tempo, explode em uma multiplicidade indefinida de pequenos “eus” ou almas individuais — cada uma continuando a se tomar pelo próprio Eu universal e, portanto, a se considerar centro do universo: tal é a primeira gênese do “sentido do ego” ou ahamkara.
O ego, obumbilado pelo exterior, deseja “ver” algo diferente de si mesmo, e é assim que lhe advêm as órbitas oculares pelas quais poderá olhar ao redor; outros órgãos se constituem da mesma maneira, como objetivações dos desejos do ego.
Em outros contextos — por exemplo em IV, 44 —, e conforme um esquema tradicional do Hinduísmo, o demiurgo Brahma é introduzido como instância mediadora entre o absoluto — brahman neutro — e a multidão das almas individuais: Brahma representa a forma já alienada que assume o brahman ou o Ser supremo — paramatman — quando sonha um mundo possível e projeta em sonho a multidão das criaturas junto com o cenário cósmico em que as faz evoluir.
Brahma desempenha o papel de um Sonhador supremo cujos sonhos recobrem e ligam entre si os das almas individuais situadas abaixo dele na escala dos seres — III, 54, 13-23 e III, 121, 38.