A incapacidade de exprimir em termos positivos o modo de ser e de experiência dos libertos decorre do fato de se procurar descrevê-los utilizando conceitos como “ego”, “espírito”, “mundo”, que têm sentido em referência à manifestação mas o perdem além dos limites do manifestado — VIa, 127, 14.
Em termos absolutos, o brahman não pode exercer o papel de causa — VIb, 53, 17 —; por conseguinte, o universo jamais acedeu à existência — IV, 2, 8; IV, 40, 30; e é o acosmismo que representa a verdade última, ainda que não seja realmente exprimível, razão pela qual “todos os Tratados relativos ao Ser concluem por uma negação generalizada” — VIa, 125, 1.
Um último traço característico do Yoga-Vasishtha — seu “ecumenismo” — deriva diretamente dessa consciência aguda da impotência de todo discurso para apreender o absoluto: as conclusões das diversas doutrinas filosóficas são apenas alusões convergentes, postes indicadores cuja seta aponta para um horizonte que as palavras não podem alcançar: “O que os Vedantins chamam brahman ou atman — Ser —, os partidários do Samkhya chamam Espírito — pourousha —, os do Yoga chamam Senhor — Ishvara —, os shivaítas chamam Shiva, os vishnuítas Vishnu, os budistas chamam 'Não-Ser' — nairatmya —, meio — madhya — entre ser e não-ser, 'Nada mais que consciência' — vijnyana-matra” — II, 5, 6-9; cf. V, 87, 17-19.
A diferença dos sistemas vem apenas da pequenez humana de quem os constrói, de sua pretensão de impor uma certa linguagem, de sua incapacidade de seguir outro método que não o em voga em sua seita e escola particular — comparam-se esses doutrinadores a viajantes a caminho de um mesmo destino que recusam caminhar juntos, tão apegado está cada um ao seu itinerário habitual — III, 96, 59.
O Yoga-Vasishtha evita cuidadosamente toda espécie de polêmica, fala com simpatia das doutrinas mais opostas à ortodoxia brâmane e não hesita em tomar emprestado delas ora uma imagem, ora um conceito; a pessoa do Buda é objeto dos maiores elogios — V, 34, 87; V, 75, 56 —, e as doutrinas do Grande Veículo — Vijnyanavada e Madhymika — são apresentadas por toda parte como expressões da verdade tão válidas quanto as doutrinas brâmanes.