MEMÓRIA E SI EM ABHINAVAGUPTA

La mémoire et le Soi dans l’ Īśvarapratyabhijñā-vimarśinī d’ Abhinavagupta. Isabelle Ratié

A explicação do fenômeno da memória (smr̥ti) possui uma importância particular para os filósofos da escola shaiva não dualista da Pratyabhijñā, pois Utpaladeva e Abhinavagupta consideram que só é possível explicar esse fenômeno da consciência admitindo a existência de um sujeito (ātman) permanente, capaz de perceber objetos, representá-los e lembrar-se deles.

O argumento ātmavādin (defensor da existência do eu) baseado na memória afirma que, mesmo que a experiência passada esteja destruída, a memória conforme a essa experiência só pode existir se houver um sujeito permanente que foi agente da experiência no passado e agora se lembra.

A crítica budista ao argumento da memória sustenta que o eu é um fardo inútil (antargadur), pois a memória pode ser explicada apenas pelo traço residual (saṃskāra), tornando desnecessária a hipótese de uma entidade permanente.

A resposta de Utpaladeva à refutação budista do eu consiste em mostrar que, embora a cognição da memória seja produzida pelo traço residual (saṃskāra), ela é confinada a si mesma (ātmaniṣṭha) e não pode fazer conhecer a experiência original, pois a manifestação da experiência passada é indispensável para que uma cognição se dê como memória.

O debate entre Utpaladeva e o budista sobre a memória culmina na conclusão de que o mundo fenomênico (vyavahāra) só é possível se existir um único Grande Senhor (Maheśvara), que consiste em uma consciência (cidvapus) e possui os poderes (śakti) de conhecimento (jñāna), memória (smṛti) e diferenciação (apohana).

A síntese (anusandhāna) operada pela memória revela a natureza da subjetividade (veditṛtva) como algo mais do que as cognições, ou seja, como a liberdade (svātantrya) de unificar e separar as cognições à vontade, constituindo o poder de reconhecimento (pratyabhijñā).

A posição original da Pratyabhijñā na controvérsia sobre o eu (ātman) é que a memória, analisada fenomenologicamente, revela um sujeito que não é nem uma realidade distinta das cognições, nem a cognição ela mesma, mas sim uma imanência e transcendência: as cognições são um aspecto limitado da consciência pura, e a consciência, sendo “algo mais” do que as cognições, é capaz de sintetizá-las.