Pletão
HANEGRAAFF, Wouter J.; PIJNENBURG, Joyce. Hermes in the academy: ten years’ study of western esotericism at the University of Amsterdam. Amsterdam: Amsterdam University Press, 2009.
1. O esoterismo ocidental relaciona-se intimamente com a busca das origens, e os estudiosos também se ocuparam das origens do esoterismo, apontando frequentemente 1462, ano da chegada a Florença de um manuscrito grego do “Corpus Hermeticum”, cuja tradução por Ficino deu origem à “tradição hermética” renascentista de Frances Yates, mas toda origem tem sua própria origem, neste caso a chegada a Florença, vinte e quatro anos antes, do filósofo bizantino Jorge Gemisto, depois chamado Pletão.
2. Pletão integrava a delegação do imperador João VIII Paleólogo e do patriarca José II convidada ao concílio de reunião das Igrejas do Oriente e do Ocidente, iniciado em Ferrara em 1438 e transferido a Florença em 1439, e, já octogenário e mestre de vários intelectuais da delegação, impressionou os humanistas florentinos de modo lendário.
3. Segundo um testemunho da época, na grande reunião de sábios do Ocidente sobre as doutrinas da Igreja, Pletão brilhou mais que o sol, sendo tido como mestre comum, benfeitor da humanidade e orgulho da natureza e chamado Platão e Sócrates, por não lhes ser inferior em sabedoria.
4. Em 1492, Ficino evocou imagem semelhante ao dedicar a Lourenço de Médici sua tradução das “Enéadas”, contando que o jovem Cosimo ouvira Pletão falar dos mistérios platônicos como um segundo Platão, o que sugeria ter ele semeado a chamada Academia Platônica de Florença.
Orientalismo Platônico
1. A viagem desse segundo Platão de Bizâncio a Florença tem grande significado simbólico, pois nela os humanistas encontraram a encarnação viva do orientalismo platônico, cujas origens remontam aos médio-platônicos da Antiguidade tardia, que transformaram a filosofia de Platão numa visão religiosa com mitologias e rituais próprios, voltada para uma gnose salvífica capaz de libertar a alma da matéria e reuni-la à Mente divina, pressuposto expresso numa célebre passagem de Numênio.
2. Segundo Numênio, a questão de Deus exige remontar dos testemunhos de Platão aos ensinamentos de Pitágoras e às iniciações, dogmas e fundamentos culturais dos povos ilustres em pleno acordo com Platão, como os brâmanes, os judeus, os magos e os egípcios.
3. Essa afirmação era típica do período, dominado pela ideia de que os povos “bárbaros” mais antigos possuíam uma sabedoria pura e superior, oriunda não da razão, mas do acesso místico direto ao divino, da qual todos os grandes filósofos gregos até Platão teriam recebido sua filosofia em viagens ao Egito, à Babilônia, à Pérsia e à Índia, de modo que a filosofia grega era tida por oriental e os egípcios por seus fundadores, entendida não como busca racional do saber, mas como sabedoria divina e salvação da alma.
Sábios do Oriente
1. Pletão, herdeiro moderno típico do orientalismo platônico, estava convicto de que a verdadeira sabedoria nascera com Zoroastro, chefe dos magos, e, embora o concílio tratasse de doutrina e política eclesiásticas, os italianos perceberam o paralelo entre a visita bizantina ao chefe da cristandade ocidental e a dos magos que vieram adorar o Menino Jesus, encenando no encerramento uma procissão de magos que, ao homenagear os gregos, sublinhava a superioridade ocidental diante da qual os sábios orientais se ajoelhavam.
2. Em 1459, Cosimo de Médici encomendou a Benozzo Gozzoli o afresco “A Procissão dos Magos”, em que ainda ressoa a memória do concílio e que, segundo Brigitte Tambrun, liga o fascínio de Cosimo pelos magos ao renascimento platônico florentino, tendo Pletão como fator central, pois Ficino escreveu que o espírito de Platão voara de Bizâncio até Cosimo e os magos eram tidos por discípulos de Zoroastro.
3. Segundo Tambrun, Platão retorna como herdeiro dos magos, segundo Pletão, e de Hermes, segundo os Padres latinos, e o afresco apresenta uma genealogia da sabedoria, dos magos a Platão e a Cristo, acompanhada de uma orientação geográfica do Oriente à Grécia e a Florença, onde os Médici recolhem a sabedoria dos magos herdada por Pitágoras, Platão, Plotino e Pletão.
Jorge Gemisto em Florença
1. Jorge Gemisto, um dos filósofos mais notáveis do Bizâncio tardio, nascido em Constantinopla numa família cristã culta, estudou em Constantinopla e Adrianópolis, ensinou filosofia em sua cidade natal e foi enviado por Manuel II a Mistra, no Peloponeso, onde sobreviviam as tradições helênicas e onde viveu até a morte, exercendo funções de senador, administrador e juiz e aconselhando imperadores e déspotas, que o recompensaram apesar das suspeitas de heresia da Igreja, o que explica sua presença, como leigo, na delegação imperial.
2. O concílio foi o ponto de inflexão de sua vida, como indicam o novo nome Pletão, alusivo ao segundo Platão, e a produção de suas principais obras durante e após a viagem, pois, indiferente às sutilezas teológicas, sentiu-se em casa entre os humanistas florentinos, chocado com sua ignorância de Platão, apenas redescoberto por Decembrio e Bruni, e de Aristóteles, conhecido pelos escolásticos por fontes latinas e árabes e por Averróis, e escreveu em Florença o “De differentiis”, que mostrava o erro de Aristóteles sempre que se afastava de Platão e abriu a controvérsia renascentista entre os dois filósofos.
A Religião do Fogo e da Luz
1. Mais importante foi a versão de Pletão dos Oráculos Caldeus, a “Bíblia” dos teurgos da Antiguidade tardia segundo Cumont, que, a partir da coleção de Pselo, depurou de seis oráculos e apresentou com comentário sob o título “Ditos Mágicos dos Magos, Discípulos de Zoroastro”, tornando-os “mágicos” em vez de “caldeus” e atribuindo-os pela primeira vez a Zoroastro.
2. Essa atribuição é explicada pela maioria dos especialistas por uma cadeia de transmissão da Antiguidade pagã à cultura islâmica e daí ao cristão Pletão por um intermediário judeu, sugerindo que o orientalismo platônico servia de meio de transferência entre as três tradições escriturárias, papel no qual se destaca Eliseu, mestre judeu mencionado por Jorge Escolário, antigo discípulo de Pletão que se voltou contra ele e o acusou de herege e pagão inspirado por demônios.
3. Segundo Escolário, o ápice da apostasia de Pletão ocorreu sob a influência de um judeu com quem estudou, atraído por sua habilidade como intérprete de Aristóteles, adepto de Averróis e de outros intérpretes persas e árabes, pouco atento a Moisés e à tradição judaica.
4. Esse judeu, judeu na aparência e helenista de fato, influente na corte dos bárbaros, chamado Eliseu, expôs a Gemisto as doutrinas de Zoroastro e o manteve longamente como discípulo e servidor.
5. Em outra carta, Escolário repete essas acusações, chama Eliseu de politeísta morto nas chamas e afirma que Pletão nada sabia de Zoroastro antes de ser iniciado por ele.
6. Embora Escolário seja a única fonte, seu relato faz sentido no contexto de Adrianópolis sob domínio otomano, onde judeus ocupavam altos cargos, identificando Eliseu como filósofo típico que combinava o aristotelismo averroísta com a filosofia iluminacionista de Suhrawardi, inteiramente fundada no orientalismo platônico, como demonstrou John Walbridge e mostra a abertura da “Filosofia da Iluminação”, verdadeiro credo orientalista platônico.
7. Segundo Suhrawardi, sua ciência das luzes, auxiliada pelos que percorreram o caminho de Deus, é a intuição do inspirado e iluminado Platão e de seus predecessores desde Hermes, pai dos filósofos, como Empédocles e Pitágoras, cujas palavras simbólicas são irrefutáveis, pois as críticas a seu sentido literal não atingem suas verdadeiras intenções.
8. Em passagem análoga, Suhrawardi sublinha os limites da razão peripatética diante da ciência das luzes, que só se conhece pela intuição direta das almas puras em êxtase divino.
9. Segundo Suhrawardi, os que têm visão e desapego, os profetas e os grandes filósofos, de Hermes, Agathodaimon e Empédocles a Sócrates e Platão, atestam essa doutrina, e quem dela duvidar deve dedicar-se às disciplinas místicas para ver, deslumbrado, a luz do Reino do Poder, as essências celestes contempladas por Hermes e Platão e as fontes de esplendor e sabedoria anunciadas por Zoroastro e reconhecidas por todos os sábios da Pérsia.
10. Se Eliseu era adepto da ciência das luzes de Suhrawardi, compreende-se como Pletão pôde ver nos Oráculos Caldeus, com seu simbolismo de luz e fogo, a fonte mais antiga da sabedoria universal e a expressão do culto zoroastriano do fogo, distinguindo, como Suhrawardi entre a doutrina persa da luz e a dos magos infiéis e de Mani, e conforme o duplo sentido grego de magos como sábio ou feiticeiro, entre Zoroastro e os magos, depositários da religião verdadeira, e os caldeus, corruptores dualistas e feiticeiros, razão pela qual eliminou os oráculos sobre goetia e o adjetivo caldeu, crendo restaurar a pureza original da tradição platônica.
O Pagão Oculto
1. Em Mistra, Pletão escreveu sua grande síntese filosófica, as “Leis”, acessível apenas a seus discípulos íntimos e em grande parte queimada por Escolário, já patriarca, que preservou apenas o necessário para sustentar suas acusações, conservando-se os capítulos iniciais que apresentam, depois de Zoroastro, legisladores e sábios como Eumolpo, Minos, Licurgo, Ífito e Numa, os brâmanes e os magos entre os bárbaros, os curetes entre os gregos e, por fim, os sacerdotes de Dodona, os inspirados, os Sete Sábios, Pitágoras, Platão e sua escola até Plotino, Porfírio e Jâmblico.
2. Essa lista opõe explicitamente legisladores e filósofos a poetas e sofistas, código para os fundadores das religiões reveladas e sobretudo os cristãos, implica uma reforma não só da religião, mas do Estado e de suas leis, e apresenta ausências notáveis, como Orfeu, Proclo e sobretudo Hermes e Moisés, cuja omissão revela a relação entre paganismo e cristianismo na versão pletoniana do discurso da sabedoria antiga.
3. A genealogia de Pletão é alternativa deliberada à apologética cristã desde Justino, possivelmente modelada no prólogo do “Diálogo com Trifão” e inspirada em Luciano, reafirmando a supremacia grega, mas remontando a verdadeira filosofia não a Moisés, e sim a Zoroastro, com o propósito polêmico de substituir a religião da Lei mosaica pela filosofia do fogo e da luz, adotando a estratégia de Celso de excluir Moisés e omitindo também Hermes pelo desprezo grego pelos egípcios, por sua concorrência como legislador e pelo risco de reintroduzir a tese patrística de um Hermes discípulo de Moisés.
4. A ruptura deliberada de Pletão com a apologética patrística revela o projeto de um renascimento do paganismo helenístico contra o cristianismo, substituindo o monoteísmo exclusivo mosaico por um monoteísmo inclusivo à maneira de Celso e Proclo, e, segundo Jorge de Trebizonda, ele julgava que sua filosofia substituiria o cristianismo e o islã como religião do futuro.
5. Jorge de Trebizonda afirma ter ouvido Pletão declarar em Florença que em poucos anos o mundo inteiro adotaria uma única religião, nem a de Cristo nem a de Maomé, mas próxima do paganismo, o que o fez odiá-lo e temê-lo como víbora venenosa, e ter sabido por gregos do Peloponeso que, antes de morrer, ele anunciara o colapso de Maomé e de Cristo e o brilho da verdade em toda a terra.
6. Há quase unanimidade entre os especialistas sobre o caráter neopagão e anticristão de Pletão, obrigado a ocultá-lo sob pena de morte, mas esse caso foi único e excepcional, pois o clichê historiográfico de um “Renascimento pagão” engana ao sugerir uma rejeição consciente do cristianismo pelos principais representantes do renascimento platônico e hermético, já que o platonismo renascentista nascido das traduções de Ficino foi e permaneceu profundamente cristão, ficando Pletão praticamente isolado em sua ruptura radical.
Ficção e História
1. Com Pletão, o gato pagão saiu da caixa, mostrando que, disponíveis as fontes platônicas numa cultura cristã ávida de reforma, o paganismo tornava-se opção religiosa ao menos teórica, residindo sua verdadeira importância não em sua influência imediata, limitada, mas na memória cultural, como segundo Platão vindo do Oriente, suscetível de idealização ou demonização, como na lenda de Cosimo concebendo a Academia Platônica a seus pés, ainda dominante segundo Woodhouse em 1986, ou na imagem romântica de Peuckert.
2. Segundo Peuckert, os humanistas italianos tinham ouvido falar de Platão como de uma terra mágica que fascinava a nova época, e eis que surgia alguém que o conhecia e sabia tudo, quase nonagenário, cuja idade brilhava como vinho envelhecido, e que, após semear, voltou a Mistra, permanecendo sua ideia.
3. Os estudiosos foram sensíveis a essa imagem e só relutantemente a abandonaram por descrições mais exatas, mas a imagem negativa também contribuiu para a notoriedade de Pletão, seja na imaginação paranoica de Jorge de Trebizonda, que o via como víbora a serviço de uma conspiração platônica anticristã, seja em Escolário, que o descrevia dominado desde a juventude por ideias helênicas, influenciado por demônios como Juliano, o Apóstata, iniciado pelo judeu renegado Eliseu e incapaz de ocultar de seus discípulos as ideias que dissimulava por oportunismo.
4. Ao lado da imagem idealizada do sábio arauto da verdade antiga ergue-se a do subversivo pagão, agente secreto de forças demoníacas, imagens aplicadas a numerosas personalidades e determinantes da percepção popular do esoterismo, entre as tradições interiores de sabedoria capazes de curar a alienação moderna e as forças ocultas das trevas que arrastam à loucura e à imoralidade, ao passo que a imaginação acadêmica tende a uma terceira perspectiva herdada do Iluminismo, que não as vê como boas nem más, mas como pouco sérias, fazendo de Pletão um velho barbudo iludido tentando restaurar superstições antigas.
5. Nenhuma dessas imagens é historicamente exata, mas todas cativam a imaginação e se difundem facilmente pela mídia, de modo que o estudo do esoterismo ocidental é em grande medida um exercício de desconstrução e desencantamento que substitui mitos atraentes por análises mais precisas e prosaicas, preço compensado pela possibilidade de, desconstruindo as simplificações que sustentam as certezas culturais, descobrir o que se esquecera, novos padrões de conexão e níveis de complexidade histórica ignorados pelas gerações anteriores.
A Origem para além das Origens
1. A viagem de Pletão e, vinte e quatro anos depois, a de um manuscrito grego com catorze tratados herméticos estão na origem histórica do renascimento do orientalismo platônico, do qual nasceram as correntes hoje estudadas como esoterismo ocidental, cuja origem histórica é o meio orientalista platônico da Antiguidade tardia, mas, segundo os próprios textos e seus leitores, a verdadeira origem das origens remontava muito mais longe, a uma sabedoria nascida no Oriente, reino misterioso da alteridade, num tempo em que o próprio tempo mal começara, e só podia ser sem origem, pois, como diria Reuchlin, o antigo aproxima-se do primordial, o primordial confina com o eterno e o eterno está próximo de Deus, de modo que, para o verdadeiro crente na sabedoria antiga, ela procedia, como sugere Thomas Mann, de uma fonte misteriosa e inesgotável para além da história e do tempo.
