Dignidade do Homem
CUTSINGER, James S. . Not of this world: a treasury of Christian mysticism. Bloomington, Ind: World Wisdom, 2003
Eu li nos registros dos árabes que Abd Allah o Sarraceno, quando questionado sobre o que neste palco do mundo, por assim dizer, poderia ser visto como mais digno de admiração, respondeu: “Não há nada a ser visto mais maravilhoso do que o homem.” Em concordância com esta opinião está a afirmação de Hermes Trismegisto: “Um grande milagre, Asclépio, é o homem.”
Mas quando eu ponderei a razão para estas máximas, as muitas razões para a excelência da natureza humana relatadas por muitos homens falharam em me satisfazer: que o homem é o intermediário entre as criaturas, o íntimo dos deuses, o rei dos seres inferiores; pela agudeza de seus sentidos, pelo discernimento de sua razão, e pela luz de sua inteligência o intérprete da natureza; o intervalo entre a eternidade fixa e o tempo fugaz, e (como os persas dizem) o laço — na verdade, o cântico de casamento — do mundo, pelo testemunho de Davi pouco inferior aos anjos. Embora estas razões sejam admitidamente grandes, elas não são as razões principais, isto é, aquelas que podem legitimamente reivindicar para si o privilégio da mais alta admiração. Pois por que não deveríamos admirar mais os próprios anjos e os benditos coros do céu?
Finalmente, parece-me que cheguei a entender por que o homem é a mais afortunada das criaturas e consequentemente digno de toda admiração e qual é precisamente aquele posto que lhe cabe na cadeia universal do ser — um posto a ser invejado não apenas pelos brutos, mas até mesmo pelas estrelas e pelas mentes além deste mundo. É uma questão além da fé e uma coisa maravilhosa. Por que não seria? Pois é por esta mesma razão que o homem é justamente chamado e julgado um grande milagre e uma criatura de fato maravilhosa.
Deus o Pai, o Supremo Arquiteto, já havia construído esta casa cósmica que contemplamos, o mais sagrado templo de Sua Divindade, pelas leis de Sua misteriosa sabedoria. A região acima dos céus Ele havia adornado com inteligências, as esferas celestiais Ele havia avivado com almas eternas, e as partes excrementárias e imundas do mundo inferior Ele havia preenchido com uma multidão de animais de todo tipo. Mas quando a obra estava terminada, o Artesão continuava a desejar que houvesse alguém para ponderar o plano de uma obra tão grande, para amar sua beleza, e para se maravilhar com sua vastidão. Portanto, quando tudo estava feito (como Moisés e plato:Timeu testificam), Ele finalmente pensou na criação do homem. Mas não havia entre Seus arquétipos aquele a partir do qual Ele pudesse moldar uma nova prole, nem havia em Seus tesouros algo que Ele pudesse conceder ao Seu novo filho como herança, nem havia nos assentos de todo o mundo um lugar onde este último pudesse sentar para contemplar o universo. Tudo estava agora completo; todas as coisas haviam sido designadas para as ordens mais altas, a média e a mais baixa. Mas em sua criação final não era parte do poder do Pai falhar como se estivesse exausto. Não era parte de Sua sabedoria hesitar em um assunto necessário por pobreza de conselho. Não era parte de Seu amor bondoso que aquele que deveria louvar a Divina generosidade de Deus em relação aos outros fosse compelido a condená-la em relação a si mesmo.
Finalmente, o Melhor dos Artesãos ordenou que aquela criatura a quem Ele não tinha sido capaz de dar nada próprio a si mesma tivesse a posse conjunta de tudo o que havia sido peculiar a cada um dos diferentes tipos de ser. Ele, portanto, tomou o homem como uma criatura de natureza indeterminada e, designando-o a um lugar no meio do mundo, dirigiu-se a ele assim: “Nem uma morada fixa, nem uma forma que é tua sozinha, nem qualquer função peculiar a ti mesmo Nós te demos, Adão, a fim de que, de acordo com o teu anseio e de acordo com o teu julgamento, tu possas ter e possuir qual morada, qual forma e qual função tu mesmo desejarás. A natureza de todos os outros seres é limitada e constrangida dentro dos limites de leis prescritas por Nós. Tu, constrangido por nenhuns limites, de acordo com o teu próprio livre arbítrio em cuja mão Nós te colocamos, ordenarás para ti mesmo os limites de tua natureza. Nós te colocamos no centro do mundo para que tu possas de lá mais facilmente observar o que quer que esteja no mundo. Nós te fizemos nem do céu nem da terra, nem mortal nem imortal, para que com a liberdade de escolha e com honra, como se o criador e modelador de ti mesmo, tu possas te moldar em qualquer forma que tu preferires. Tu terás o poder de degenerar nas formas inferiores de vida, que são brutas. Tu terás o poder, a partir do julgamento de tua alma, de renascer nas formas superiores, que são Divinas.”
Ó suprema generosidade de Deus o Pai, ó mais alta e mais maravilhosa felicidade do homem! A ele é concedido ter o que ele escolhe, ser o que ele quer. As feras, assim que nascem, trazem consigo do ventre de sua mãe tudo o que elas jamais possuirão. Os seres espirituais, seja do começo ou logo depois, se tornam o que eles devem ser para todo o sempre. Ao homem, quando ele veio à vida, o Pai conferiu as sementes de todos os tipos e os germes de todo modo de vida. Quaisquer sementes que cada homem cultive crescerão até a maturidade e carregarão nele seus próprios frutos. Se elas forem vegetativas, ele será como uma planta. Se sensitivas, ele será bruto. Se racionais, ele crescerá em um ser celestial. Se intelectuais, ele será um anjo e o filho de Deus. E se feliz na sorte de nenhuma coisa criada ele se retira para o centro de sua própria unidade, então seu espírito — feito um com Deus na escuridão solitária de Deus, que está acima de todas as coisas — as superará todas.
