8 Mitologia
FLIEGER, Verlyn. Splintered Light: Logos and Language in Tolkien's World. Grand Rapids: Eerdmans, 1983. (Edição revista e ampliada: Kent: Kent State University Press, 2002).
Uma doença da mitologia
1. Investigar a origem das histórias, quaisquer que sejam suas particularidades, implica investigar simultaneamente a origem da linguagem e da mente, pois a atividade narrativa não pode ser dissociada das formas humanas de perceber, compreender e expressar o mundo.
2. A invenção linguística de Tolkien deixou de constituir um simples passatempo e passou a funcionar como expressão e agente da realidade espiritual e cultural de seu universo, conservando sua história e sua mitologia, enquanto o desenvolvimento das línguas da Terra-média concretiza princípios próximos aos de Barfield e se esclarece diante das controvérsias filológicas e antropológicas que ambos enfrentaram.
3. A teoria de Max Müller compreendia a formação dos mitos como um processo intelectual de transferência de significados, no qual conceitos previamente existentes eram aplicados aos fenômenos por meio da metáfora, como na suposta extensão de uma raiz ligada ao brilhar, inicialmente associada ao fogo e ao sol, para outros acontecimentos naturais.
4. A mitologia teria surgido, nessa perspectiva, do esquecimento dos referentes naturais de antigas expressões, sobretudo védicas, cujos sentidos solares e atmosféricos se perderam durante a diferenciação dos povos e das línguas, levando à criação de personagens e histórias destinados a explicar palavras incompreendidas e justificando sua classificação como uma doença da linguagem.
5. Embora essa interpretação tenha sido amplamente contestada por outros estudos sobre mito e cultura, sua importância permanece na formação das posições de Barfield e Tolkien, que a tomaram como referência negativa para desenvolver uma compreensão diretamente contrária da relação entre linguagem e mitologia.
6. A contestação de Barfield não rejeita os dados filológicos de Müller, mas sua interpretação, pois o significado originário ligado ao brilhar não seria uma abstração vazia aplicada sucessivamente a objetos distintos, e sim uma realidade espiritual concreta e unitária que posteriormente se diferenciou em pensamento humano e luz física.
7. A reflexão de Tolkien inverte igualmente a fórmula de Müller ao admitir que, embora a mitologia possa adoecer, ela não nasce de uma enfermidade linguística, sendo mais adequado considerar certas línguas modernas como formas empobrecidas ou adoecidas de uma realidade mitológica anterior.
8. As palavras não constituem apenas causas de novas narrativas produzidas pelo esquecimento, mas manifestações e instrumentos de um pensamento mítico que reúne experiências relacionadas, enquanto o empobrecimento moderno ocorre quando se conservam expressões de origem mitológica sem reconhecer a realidade ou a validade das concepções que as sustentavam.
9. A concepção de Barfield encontra continuidade na teoria literária de Tolkien e realização narrativa em O Silmarillion, no qual a luz começa como realidade espiritual definida e se diferencia em pensamento, luminosidade física, percepções e palavras, produzindo os inúmeros fragmentos que configuram o mundo e seus habitantes.
10. A fragmentação das línguas élficas acompanha a divisão da percepção e da luz, mas essa perda da unidade também revela uma variedade antes indistinta, pois a diferenciação produz expressões mais limitadas e simultaneamente mais precisas, ampliando a liberdade de combinação das palavras e as possibilidades da gramática mítica empregada na subcriação.
11. A passagem da Luz às luzes e do Logos às palavras introduz diversidade sem invalidar a unidade originária, enquanto a multiplicação linguística exprime mudanças da consciência e da relação com o mundo, abrangendo desde o quenya dos Altos Elfos de Valinor, impregnado de luz, até o sindarin dos Elfos Cinzentos e a Língua Negra de Mordor.
12. As línguas inventadas desenvolveram-se em estreita relação com as narrativas e permaneceram submetidas a revisões contínuas, sem que a fixação definitiva de todos os elementos constituísse o objetivo fundamental dessa arte, cuja complexidade fonológica e gramatical se tornou mais evidente com a publicação de novos materiais linguísticos.
13. Os documentos sobre as línguas e os povos élficos revelam um modelo histórico de ramificação semelhante ao das famílias indo-europeias, no qual a separação dos grupos humanos e a diferenciação de suas falas se correspondem, confirmando que cada língua exige um ambiente e uma história próprios e aprofundando, sem alterar substancialmente, a interpretação da mitologia pela fragmentação progressiva.
14. A enumeração de onze línguas em As etimologias evidencia a extensão da diversificação concebida por Tolkien, embora a análise possa concentrar-se nas grandes vertentes quenya e sindarin, reconhecendo que noldorin e sindarin designam, em momentos distintos da elaboração externa, formas correspondentes de uma tradição linguística reformulada.
15. O despertar dos Elfos junto às águas de Cuiviénen inaugura simultaneamente sua consciência, sua linguagem e sua história, transformando uma presença ainda inconsciente na criação em participação perceptiva e ativa, mediante a qual se torna concreta a interdependência entre consciência, linguagem e mito.
