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MATURIDADE DA OBRA

HCIA

Aos quarenta anos — idade em que a maioria dos mestres considera possível a consumação do estado espiritual ligado ao discipulado de Khidr — Ibn Arabi encontrava-se em plena maturidade, e dois anos após a investidura mística em Mosul estava no Cairo com um pequeno grupo de sufis que cultivava intensa vida mística.

  • A pequena comunidade acolhia com simplicidade e entusiasmo os fenômenos manifestados entre seus membros — fotismo, telepatia, leitura do pensamento.
  • Numa noite, Ibn Arabi contemplou uma visão em que um ser de beleza maravilhosa entrou na casa e anunciou: “Sou o mensageiro que o Ser Divino vos envia” — revelando o que seria a sua própria doutrina.

A tensão com os doutores da Lei no Cairo colocou Ibn Arabi em perigo de morte, revelando o antagonismo irredutível entre o islã espiritual do sufismo e o islã legalitário.

  • Ibn Arabi não escondia seu horror pelos fuqaha do Cairo, nem sua repulsa pela estupidez, ignorância e depravação deles — atitude que não lhe granjeava simpatias.
  • Salvo pela intervenção de um shaikh amigo, Ibn Arabi fugiu do Cairo e retornou a Meca em 1207, seis anos após sua primeira chegada.
  • Em Meca reencontrou o pequeno grupo de elite que havia sido seu refúgio na primeira vez, bem como a figura de beleza pura que para sua imaginação contemplativa era a teofania da Beleza divina — a figura da Sophia aeterna — e retomou as circumambulações da Caaba.

Em 1210, em Konya, no coração da Anatólia, Ibn Arabi recebeu uma magnífica recepção do imperador seljúcida Kay Kaus I, e sua estada nessa cidade assumiu importância extraordinária para a vida espiritual do sufismo no islã oriental.

  • O principal discípulo de Ibn Arabi em Konya foi o jovem Sadruddin Qunawi, que se tornou seu genro e constituiu o ponto nodal entre os ensinamentos de Ibn Arabi e o sufismo oriental.
  • Sadruddin mantinha correspondência ainda inédita com Nasiruddin Tusi, uma das grandes figuras do imamismo iraniano, sobre altas questões de filosofia e mística.
  • Sadruddin foi mestre de Qutbuddin Shirazi, um dos mais famosos comentadores da “filosofia da Luz” de Suhrawardi.
  • Sadruddin foi amigo de Sa'duddin Hammu'i e mestre do grande poeta místico iraniano Fakhruddin Iraqi de Hamadan, cujo poema teosófico em persa — as Lami'at (“Reflexões Divinas”) — foi diretamente inspirado pelas lições de Sadruddin comentando uma obra de Ibn Arabi, ajudando a introduzir as doutrinas de Ibn Arabi no Irã e na Índia.
  • Sadruddin foi amigo íntimo de Mawlana Jalaluddin Rumi e morreu no mesmo ano que ele, em 1273.

A amizade entre Sadruddin e Rumi tornou-o o elo entre Ibn Arabi e o autor do imenso Mathnawi místico — chamado pelos iranianos de “Corão persa” — embora um intervalo de dez anos tenha impedido o encontro físico entre os dois maiores representantes da espiritualidade sufi.

  • Como criança, Mawlana havia fugido com seu pai, o venerável shaikh Baha'uddin Walad, dos invasores mongóis da Transoxiana — e em sua viagem através do Irã seu encontro em Nishapur com o grande poeta místico Fariduddin Attar assumiu caráter profético.
  • À primeira vista, os ensinamentos de Rumi e de Ibn Arabi parecem refletir duas formas radicalmente diferentes de espiritualidade: Mawlana não tinha interesse algum em filósofos ou em filosofia, contrastando nitidamente com Suhrawardi, que desejava que seus discípulos combinassem formação filosófica com experiência mística.
  • Seria superficial, porém, deter-se nesse contraste: ambos são inspirados pelo mesmo sentimento teofânico, a mesma nostalgia da beleza e a mesma revelação do amor, tendendo à mesma absorção do visível e do invisível numa unio mystica em que o Amado se torna espelho do rosto secreto do amante místico, e o amante — purificado da opacidade do ego — torna-se espelho dos atributos e ações do Amado.
  • Referências às obras de Ibn Arabi são frequentes nos abundantes comentários ao Mathnawi produzidos na Índia e no Irã.

Após Konya, Ibn Arabi continuou para a Anatólia oriental, passou pela Armênia e por Diyarbekr, e em 1211 estava em Bagdá, onde conheceu o famoso shaikh Shihabuddin Umar Suhrawardi — não confundir com Shihabuddin Yahya Suhrawardi, o shaikh al-Ishraq.

  • Em 1214 revisitou Meca, onde respondeu aos adversários fuqaha e expôs a hipocrisia de sua censura ao Diwan em que, treze anos antes, havia cantado seu amor puro pela jovem Sophia.
  • Em Aleppo fez amizade com o amir al-Malik al-Zahir, filho de Saladino — que vinte anos antes também havia sido amigo de Suhrawardi e tentara em vão salvá-lo do fanatismo dos fuqaha e do próprio pai.
  • Numerosos príncipes tentaram atrair Ibn Arabi e cobriram-no de presentes, que ele distribuía em esmolas para preservar sua liberdade.
  • Por fim cedeu aos apelos do soberano de Damasco, onde se instalou em 1223 e passou os últimos dezessete anos de sua vida.
  • O príncipe e seu irmão sucessor, al-Malik al-Ashraf, tornaram-se discípulos de Ibn Arabi, assistiram a suas lições e obtiveram dele um certificado (ijaza) para ensinar seus livros.
  • Nessa época a bibliografia de Ibn Arabi já compreendia mais de quatrocentos títulos, embora ele estivesse longe de haver concluído sua obra.

O Fusus al-Hikam (“As Gemas da Sabedoria dos Profetas”) foi redigido em consequência de uma visão onírica de 627/1230, na qual o Profeta apareceu a Ibn Arabi segurando um livro e ordenando-lhe que transmitisse seus ensinamentos em benefício dos discípulos.

  • Ibn Arabi descreveu o espírito com que se pôs ao trabalho: “Não sou um profeta (nabi) nem um enviado (rasul); sou simplesmente um herdeiro, alguém que lavra e semeia o campo de sua vida futura.”
  • Os vinte e sete profetas — de Adão a Muhammad — não são considerados em sua realidade empírica como pessoas históricas, mas meditados como tipificando “sabedorias” cujos nomes servem de índices e títulos.
  • Essa obra é provavelmente o melhor compêndio da doutrina esotérica de Ibn Arabi, e sua influência foi enorme — suscitando numerosos comentários em todas as línguas do islã sunita e xiita.

As Futuhat — chamadas de “Bíblia do esoterismo no islã” — foram concebidas durante a primeira estada de Ibn Arabi em Meca e compostas ao longo de muitos anos, de modo não contínuo, sob ditado da inspiração divina.

  • O título completo é: Kitab al-Futuhat al-Makkiya fi ma'rifat al-asrar al-malikiya wa'l-mulkiya (“O Livro das Revelações Recebidas em Meca sobre o Conhecimento do Rei e do Reino”).
  • Ibn Arabi descreveu seu método de composição: “Nesta obra, como em todas as minhas obras, não é observado o método seguido nas obras de outros… Todo autor escreve sob a autoridade de seu livre-arbítrio… Mas um autor que escreve sob ditado da inspiração divina frequentemente registra coisas sem relação aparente com a substância do capítulo que está escrevendo — parecerão ao leitor profano interpolações incoerentes, embora a meu ver pertençam à própria alma do capítulo.”
  • Ibn Arabi acrescentou: “Sabei que a composição dos capítulos das Futuhat não resultou de uma escolha livre de minha parte nem de reflexão deliberada. Com efeito, Deus, por meio do Anjo da Inspiração, ditou tudo o que escrevi, e é por isso que entre dois desenvolvimentos insiro às vezes outro que não está ligado nem ao que precede nem ao que segue.”
  • O processo de composição configura uma hermenêutica do indivíduo, atenta às simpatias secretas entre os exemplos concretos que justapõe — com afinidade com a lógica estoica e resistência à dialética conceitual aristotélica.
  • A obra é uma summa de teosofia mística, ao mesmo tempo teórica e experimental — compreendendo desenvolvimentos especulativos frequentemente abstrusíssimos, elementos de um Diarium spirituale e abundante informação sobre o sufismo e os mestres espirituais conhecidos por Ibn Arabi.
  • Os quinhentos e sessenta capítulos da edição do Cairo (1329/1911) ocupam cerca de três mil páginas in quarto.
  • Ibn Arabi confessou: “Apesar da extensão e do alcance deste livro, apesar do grande número de seções e capítulos, não esgotei nem uma única das ideias ou doutrinas apresentadas sobre o método sufi. Como poderia ter esgotado o tema inteiro? Limitei-me a uma breve clarificação de uma pequena parte dos princípios fundamentais em que o método se baseia.”

A compreensão da obra de Ibn Arabi pressupõe a vontade de avaliá-la positivamente, pois a forma como cada um recebe seu pensamento conforma-se ao próprio “céu interior” — esse é o próprio princípio do teofonismo de Ibn Arabi.

  • Ibn Arabi só pode guiar cada homem individualmente ao que ele sozinho é capaz de ver — não conduzi-lo a nenhum dogma coletivo pré-estabelecido: Talem eum vidi qualem capere potui (“Vi-o tal como pude apreendê-lo”).
  • As deformações e rejeições que a espiritualidade de Ibn Arabi sofreu — às vezes por razões diametralmente opostas — decorrem sempre de ter-se evitado o autoconhecimento e o autojulgamento que essa espiritualidade implica.

Ibn Arabi morreu pacificamente em Damasco a 28 de Rabi II, A.H. 638 (16 de novembro de 1240), rodeado de familiares, amigos e discípulos sufis, e foi sepultado ao norte de Damasco, no subúrbio de Salihiya, ao pé do Monte Qasiyun — lugar já santificado aos olhos muçulmanos por todos os profetas, mas especialmente por Khidr.

  • No século XVI, Selim II, sultão de Constantinopla, ergueu sobre o túmulo de Ibn Arabi um mausoléu e uma madrasa.
  • Ainda hoje peregrinos afluem ao túmulo do “discípulo de Khidr” — venerado pelos discípulos como Muhyi'd-Din (“Animador da Religião”), mas atacado por muitos doutores da Lei com os antônimos de seu cognome honorífico: Mahi'd-Din (“aquele que abole a religião”) ou Mumituddín (“aquele que mata a religião”).
  • O paradoxo do túmulo garante a presença de um testemunho inegável que, no coração da religião da letra e da Lei, as supera e transcende profeticamente.
  • Uma imagem paradoxal análoga ocorre ao peregrino pensativo: o túmulo de Swedenborg na catedral de Uppsala — um díptico mental que atesta a existência de uma Ecclesia spiritualis que reúne os seus na força triunfante de um único paradoxo.
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