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VITRAY-MEYEROVITCH

Resumo de ensaio de Eric Geoffroy

  • Eva de Vitray-Meyerovitch nasceu em 1909 em uma família francesa aristocrática e muito piedosa, e desde a infância rigorosa já desafiava as premissas do ambiente, questionando ideias recebidas na escola paroquial católica onde a submissão passiva era frequentemente esperada — e admirava a honestidade puritana de sua avó escocesa protestante, que se converteu ao catolicismo romano para casar-se, trajetória que a neta de certo modo viria a repetir.
    • Eva não hesitou em casar-se com um francês de origem judaica russa, pois tinha consciência das conexões espirituais subjacentes entre as religiões
    • Após o casamento com o senhor Meyerovitch, precisou fugir de Paris ocupada pelas tropas nazistas em 1940
  • No início dos anos 1950, sua vida como diretora de pesquisa foi abruptamente transformada pelo presente de um antigo colega indiano que retornava da Paquistão — um livro de Mohammad Iqbal intitulado The Reconstruction of Religious Thought in Islam — cuja prosa combinava lucidez e êxtase, tocando o coração dessa mulher intelectual e sensível.
    • Mohammad Iqbal: filósofo e poeta islâmico do século XX, autor de The Reconstruction of Religious Thought in Islam
    • Nessa obra, Iqbal citava abundantemente Rumi, pelo qual Eva se apaixonou imediatamente
    • Eva lançou-se a traduzir o livro de Iqbal do inglês para o francês e depois mergulhou no estudo do persa para poder ler as obras de Rumi em sua língua original
    • Rumi: Jalaluddin Rumi, poeta e místico persa do século XIII, que se tornaria o guia espiritual central de Eva
  • Quando descobriu Iqbal e Rumi, Eva de Vitray-Meyerovitch estava, como verdadeira discípula, pronta para receber seus ensinamentos, pois possuía uma mente aguçada formada por anos de estudo em diversas áreas.
    • Estudou teologia cristã na Sorbonne por três anos, filosofia grega — com tese doutoral sobre Platão — língua grega antiga, latim, história, direito e psiquiatria
    • Sua interdisciplinaridade e sua maneira de lidar com variados assuntos eram notáveis
  • A busca interior pela realidade absorvia profundamente Eva de Vitray-Meyerovitch, e o que é notável em seu itinerário é que sua vida pessoal e seus compromissos estavam fortemente ligados às suas investigações intelectuais — Rumi tornou-se seu mentor espiritual e a conduziu ao caminho muçulmano, levando-a a converter-se ao islã e a praticar fervorosamente todos os pilares islâmicos e o sufismo até sua morte.
    • Poderia ter permanecido como já era — uma estudiosa católica romana apreciadora do misticismo islâmico — mas o mundo foi abalado pela luta argelina pela independência, em que uma minoria de colonizadores europeus negava a nacionalidade à esmagadora população muçulmana que reivindicava o que era integralmente seu
  • Após a morte do marido, Eva escolheu o caminho difícil de tornar-se muçulmana, posicionando-se ao lado de uma civilização que muitos de seus compatriotas consideravam inferior — e entrou no islã sem renunciar nem negar nada de seu passado, declarando que quando descobriu o islã foi como “um retorno à sua pátria”.
    • Eva experimentou pessoalmente o islã como Din al-Fitra — a religião da natureza pura e original da humanidade
    • René Guénon, outro grande sufi francês e escritor metafísico falecido em 1951, disse de modo semelhante que não poderia converter-se a coisa alguma, pois o islã deve ser assumido como uma evidência e como um lembrete das revelações anteriores
    • A transição de Eva do Cristianismo ao Islã deve ser compreendida pelo papel proeminente concedido a Jesus na tradição islâmica e especialmente no sufismo
    • Seu nome islâmico foi, como era de esperar, Hawwa — tradução exata de seu nome cristão Eva
    • Pela conversão, Eva pagou o preço da rejeição dentro de sua própria sociedade — por muitos amigos, colegas e familiares — e teve de lidar com uma aceitação qualificada pela comunidade que escolheu abraçar, por parte dos que tratam o converso como inferior em estatura, conhecimento e autenticidade
  • Movida por entusiasmo tenaz pela beleza da obra de Rumi, Eva de Vitray-Meyerovitch estudou e traduziu para o francês seus principais livros, tendo o sufismo encontrado sua mais ampla introdução na sociedade ocidental contemporânea por meio dos ensinamentos espontâneos de Rumi.
    • Coleman Barks realizou versões em inglês contemporâneo, Eva as traduções para o francês, Annemarie Schimmel trabalhou em alemão — e muitos outros tornaram a inspiração de Rumi acessível a milhões
    • Leili Anvar-Chenderoff traz novas traduções dos poemas de Rumi para o francês
    • Eva tinha cerca de trinta livros sobre sufismo e Rumi quando começou a traduzir os 50.000 versos do Mathnawi para o francês — trabalho que exigiu dez anos de esforço perseverante e resultou em um monumento de 1.100 páginas
    • Mathnawi: grande poema épico-místico de Rumi em língua persa, composto de 50.000 versos
    • Seu último livro foi sobre a Oração no Islã, ditado porque estava demasiado fraca para escrever
    • Escreveu também um livro importante sobre Konya, a cidade de Rumi, que visitou muitas vezes — a Turquia tornou-se sua segunda pátria, e as autoridades turcas a qualificavam de Cidadã Honorária
    • Recebeu o título de Doutora Honoris Causa da Universidade de Selçuk pelos serviços inestimáveis prestados a Rumi e à cultura turca
    • No livro Islam, l'autre visage — publicado em inglês com o título Towards the Heart of Islam: A Woman's Approach — Eva declara que só se sentia em casa na Turquia, especialmente em Konya
  • Eva também viveu seis anos no Egito ensinando filosofia na Universidade de al-Azhar como representante do CNRS — o Centro Francês de Pesquisa Científica — e viajou pelo mundo proferindo conferências sobre o islã e o sufismo.
    • Al-Azhar: universidade islâmica do Cairo, uma das mais antigas e prestigiosas instituições do mundo muçulmano
    • CNRS: Centre National de la Recherche Scientifique, o centro francês de pesquisa científica
  • Através dos séculos, Rumi foi o verdadeiro mestre espiritual de Eva, mas ela recebeu a iniciação sufi do xeque marroquino Hamza Butchichi — que ao recebê-la pela primeira vez apontou para o coração dizendo “Rumi está aqui!”, e Eva desabou em lágrimas.
    • Hamza Butchichi: xeque marroquino sufi ainda vivo, de quem Eva recebeu a iniciação no caminho sufi
    • Eva era também muito ligada a Khaled Bentounes, xeque da tariqa Alawiyya, que como Rumi enfatiza o amor universal — e que, vivendo na França, era mais próximo a ela do ponto de vista cultural
    • Tariqa Alawiyya: ordem sufi fundada pelo xeque Ahmad al-Alawi, com presença significativa na França
    • Najm ed-din Bammate, Martin Lings, S. H. Nasr, Anne-Marie Schimmel e grandes orientalistas como Louis Massignon e Henry Corbin são mencionados como pioneiros no encontro entre o islã e o Ocidente, ao lado de Eva
  • Eva de Vitray-Meyerovitch está entre as raras pessoas que viveram com tal felicidade entre o Oriente e o Ocidente, tornando-se pontes entre ambas as culturas — e sua trajetória, a jornada de uma mulher ao coração do islã, reflete a viagem épica do herói a terras distantes, enfrentando desafios interiores e exteriores.
    • “De suas lutas, ela nos trouxe de volta dons de discernimento, tesouros do Oriente, para um mundo em séria necessidade de respeito mútuo e compreensão. Sua vida de entrega a um propósito superior é um testemunho de determinação para transcender o medo daquilo que é diferente, a fim de descobrir o amor abrangente que nos conecta em toda a nossa rica diversidade.”
    • Eva faleceu em Paris em 24 de julho de 1999
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