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Aquisição de qualidades planetárias
- A doutrina da aquisição de qualidades planetárias gerou intensos debates acadêmicos nas últimas décadas, centrados principalmente na atribuição ou não dessa teoria a Numênio de Apameia.
- Cumont e Leemans incluíram entre os fragmentos de Numênio passagens do Comentário sobre o Sonho de Cipião de Macróbio e o trecho sobre a descida da alma pelas esferas.
- Beutler criticou essa atribuição; Dodds a apoiou; Festugière, Waszink e Des Places aceitaram a posição de Beutler.
- Elferink trouxe novos argumentos em favor de Beutler; De Ley defendeu Leemans; Flamant seguiu De Ley.
- Segundo os testemunhos de Porfírio, Macróbio e Proclo, Numênio e seu discípulo Crônio seriam autores de uma teoria sobre a descida e a ascensão da alma, mas nada permite atribuir-lhes também o motivo da passagem pelas esferas.
- Macróbio descreve a alma descendo do zodíaco e da Via Láctea pelas esferas inferiores, revestindo-se em cada uma delas de um corpo luminoso e adquirindo faculdades específicas associadas a cada planeta.
- Em Saturno, a alma adquire a faculdade racional e a inteligência (logistikon e theoretikon).
- Em Júpiter, a faculdade de agir (praktikon); em Marte, o ardor da energia (thymikon).
- No Sol, a natureza da sensação e da opinião (aisthetikon e phantastikon); em Vênus, o movimento do desejo (epithymetikon).
- Em Mercúrio, a faculdade de expressar e interpretar (hermeneutikon); na Lua, a faculdade vegetativa de fazer crescer os corpos (phytikon).
- Proclo, no Comentário ao Timeu, descreve a descida da alma segundo Cronos como passagem progressiva da vida intelectiva para a vida política joviana, depois para o irascível de Ares, para o concupiscível de Afrodite e finalmente para os princípios criativos físicos de Hermes.
- Na direção inversa, após a encarnação, a alma vive primeiro a vida vegetativa, depois a concupiscível, depois a irascível, depois a política e finalmente a intelectiva.
- Em um segundo texto do mesmo Comentário ao Timeu, Proclo estabelece a homologia entre macrocosmo e microcosmo: a parte intelectiva do homem corresponde à esfera das fixas; o theoretikon a Cronos; o politikon a Zeus; o thymoeides a Ares; o phonetikon a Hermes; o epithymetikon a Afrodite; o aisthetikon ao Sol; o phytikon à Lua.
- Sérvio sintetiza a mesma doutrina afirmando que, ao nascer, o espírito é determinado pelo Sol, o corpo pela Lua, o sangue por Marte, a inteligência por Mercúrio, o desejo de honras por Júpiter, as cobiças por Vênus e o humor por Saturno, devendo tudo isso ser restituído pelos falecidos a cada esfera singular.
- A interpretação dos textos é extremamente difícil, pois não há correspondência perfeita entre as passagens reproduzidas e os próprios autores apresentam inconsistências internas.
- A teoria de Macróbio não corresponde à de Proclo, e Proclo muda de posição no mesmo Comentário ao Timeu, sinal de que utiliza duas fontes diferentes ou que corrige sua fonte única.
- Macróbio trata efetivamente da descida da alma e da assunção de faculdades astrais; o segundo texto de Proclo é uma especulação sobre a homologia macro-microcósmica, não uma descrição empírica da descida.
- O primeiro texto de Proclo pode relacionar-se à descida, mas o tema é tratado por analogia, não de forma empírica como em Macróbio.
- Proclo introduz a noção de “veículo” (ochema) da alma, muito apreciada pelos neoplatônicos tardios e difícil de distinguir com nitidez da doutrina da kathodos-anodos.
- O termo ochema, ausente em Plotino e Porfírio e presente em Jâmblico, Proclo, Damáscio, Simplício, Prisciano, Hermeias e Olimpiodoro, é associado por esses autores a três passagens de Platão que, na realidade, não têm relação direta com o “veículo da alma”.
- Aristóteles fala de um pneuma inato (symphyton) análogo ao elemento de que são feitos os astros.
- Em Galeno, o pneuma é definido como augoeides kai aitherodes.
- O escrito pseudo-plutarquiano De vita et poesi Homeri afirma que a alma, no momento da morte, arrasta consigo o pneumatikon, que age como veículo.
- O termo ochema aparece no Corpus Hermeticum e em Celso e Hipólito; Plotino usa o sintagma leptoteron soma (“corpo sutil”), atribuído por Jâmblico a Eratóstenes e a um certo “Ptolemeu o Platônico”.
- Para Plotino, o corpo sutil é adquirido no céu durante a descida da alma e deposto na ascensão; Porfírio partilha a mesma opinião; para Jâmblico, o ochema etéreo e luminoso é o receptáculo das fantasias divinas e o órgão da mediunidade, sem relação com a descida da alma.
- Proclo resolve o problema postulando dois ochemata: o veículo superior, sumphues, augoeides ou astroeides, é imaterial, impassível e indestrutível; o inferior, pneumatikon, é passageiro e composto dos quatro elementos.
- Na Proposição 209 dos Elementos de Teologia, Proclo descreve o veículo da alma particular descendo ao acumular revestimentos (chitones) cada vez mais materiais e remontando ao se despir de tudo o que é material.
- Nos dois textos citados, Proclo utiliza a ordem “egípcia” dos planetas na versão de Eratóstenes (Lua, Sol, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno).
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