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VELHO DO MAR

Mestres da verdade na Grécia arcaica

  • Ao descrever os filhos de Pontos, Hesíodo enumera em primeiro lugar Nereu, o Velho do Mar, o mais antigo e o mais venerável, definido por três epítetos — alethes, apseudes e nemertes — cuja associação se conforma a uma característica tradicional encontrada também na definição da palavra mântica de Apolo.
    • Passagem citada da Teogonia: “A Onda gerou Nereu, apseudes e alethes, o maior de seus filhos. Chamam-no o Velho porque é nemertes e benigno ao mesmo tempo, porque nunca esquece a equidade, porque conhece apenas pensamentos justos e benevolentes”
    • No Hino Homérico a Hermes, ao tomar a palavra diante dos deuses, Hermes dirige-se a Apolo com um argumento ad hominem, atribuindo a si mesmo as virtudes consagradas do rival — eu direi a Aletheia, eu sou nemertes e eu sou apseudes
    • A oposição fundamental no pensamento grego arcaico não é entre pseudes e alethes, mas entre pseudes e apseudes
    • Pseudes não significa o mentiroso — a noção moderna de mentira é inadequada para caracterizar a diversidade do vocabulário grego, sendo mais adequado evocar a noção de engano, que abrange o dolos, a metis e a apate
    • Nos usos arcaicos de pseudes reconhecem-se dois significados solidários — a palavra que busca enganar e a palavra sem cumprimento, desprovida de eficácia e de realização, valor atestado sobretudo na imagem da palavra mântica
    • Os Pseudeas Logus, filhos de Éris, irmã de Apate, fazem parte dos filhos da Noite na Teogonia
    • O epíteto apseudes designa a palavra, o ato ou o personagem que não busca enganar, aplicando-se sobretudo ao Velho do Mar, aos adivinhos e à palavra oracular
  • A Verdade do Velho do Mar cobre um âmbito duplo — a mântica e a justiça —, e seu significado pleno se revela apenas por meio do estabelecimento das instituições que parecem ter estreitos vínculos com Nereu.
    • Na Teogonia de Hesíodo, Nereu aparece como um justiceiro; ao mesmo tempo, toda a tradição o apresenta como uma potência mântica cuja sabedoria os antigos sempre exaltaram, transmitindo diligentemente seus ditos
    • A filha de Nereu, Eido, recebe o nome de Teonoe porque conhece todas as coisas divinas, o presente e o futuro — privilégio herdado do avô Nereu
    • Glauco, pertencente à mesma família de divindades marinhas, apresenta-se aos Argonautas como o profeta do Velho do Mar — o esposo de Panteidyia, a Onisciente, é um intérprete apseudes
    • No Hino Homérico a Hermes, as antigas divindades que Apolo transmite a Hermes são mulheres-abelhas dotadas de saber mântico que dizem a Aletheia
    • O oráculo de Ismenion é definido como a sede alethes dos adivinhos
    • Tirésias, ao referir-se à própria sabedoria, fala de sua Aletheia
    • Os oráculos noturnos suscitados por Gaia declaram a Alethosyne
    • Cassandra é uma alethomantis
    • Olímpia é chamada de mestra de Aletheia porque lá os adivinhos interrogam Zeus pelas chamas do sacrifício
    • Segundo algumas tradições, Aletheia é o nome de uma das nutrizes de Apolo, o grande deus oracular
  • A Aletheia do Velho do Mar não remete apenas à sua potência mântica, mas abrange igualmente o poder de nunca esquecer a equidade e de ter apenas pensamentos justos e benignos, revelando que, no pensamento religioso, a justiça não é um campo distinto do da Verdade.
    • Nereu é, como sua filha Teonoe, um santuário vivo, um templo venerável de Dike
    • Epimênides, penetrando em pleno dia na gruta de Zeus Díctaios, conversa com os deuses e se detém com Aletheia e Dike
    • Hesíquio define Aletheia por meio das coisas de Dike, os dikaia
    • Segundo Plutarco, Cronos é pai de Aletheia porque é naturalmente o mais justo, e Aletheia é a mais justa de todas as coisas
    • A potência de Aletheia é fundamentalmente a mesma de Dike: a Dike que conhece em silêncio o que acontecerá e o que aconteceu corresponde a Aletheia, que sabe todas as coisas divinas, o presente e o futuro
  • O duplo campo de extensão da Aletheia do Velho do Mar permite definir a natureza das formas de justiça sobre as quais ele preside — procedimentos judiciários que recorrem a formas de divinação, confundindo-se com elas até certo ponto —, e essa forma de julgamento ainda estava em uso no século VI em Mégara.
    • Passagem de Teógnis citada: “É preciso que eu julgue este assunto com tanta exatidão como se procedesse com o fio de prumo e o esquadro, que eu devolva equitativamente o devido às duas partes com o recurso aos adivinhos, às aves, aos altares que fumegam, para poupar-me a vergonha de um erro”
    • As divindades do tipo de Nereu — Proteu, Glauco — habitam no seio dos elementos marinhos e administram uma justiça original de caráter ordálico
    • Documentos cuneiformes publicados por G. Dossin e comentados por Ch. Picard permitem precisar o mecanismo dessas ordálias
    • Em Sumer estão claramente atestadas, a partir do III milênio, formas de ordálias fluviais — a mensagem do jovem rei de Carquemis ao pai Zimrilim prova que no alto Eufrates e em Mari se praticava a ordália segundo procedimento idêntico ao descrito no parágrafo 2 do Código de Hamurábi
    • As cartas de Mari relatam detalhes técnicos sobre as circunstâncias e os modos de imersão, incluindo disputas territoriais entre príncipes rivais resolvidas por equipes de dois homens e duas mulheres que mergulhavam no rio
    • O rei de Mari, na qualidade de soberano dos vassalos em litígio, prescrevia as condições da ordália e encarregava um alto funcionário de presidir como seu representante à boa execução do ritual
    • Passando às populações gregas, esses rituais ordálicos sofreram uma leve mudança geográfica — o meio das ordálias deixou de ser o rio e passou a ser o mar
    • Quando surge conflito entre Minos, culpado de violência contra uma virgem, e Teseu, que tomou sua defesa, a disputa é resolvida por um duelo milagroso — Teseu mergulha no mar e recupera o anel que ele mesmo havia lançado ao fundo do Oceano
    • Heródoto narra no Livro IV o episódio de Frônime, a Virgem sábia, calunada pela madrasta e entregue pelo pai a um mercante chamado Temison, o Justiceiro, que a lança nas ondas do alto mar presa a uma corda e a resgata viva — o mar havia pronunciado seu veredicto
    • Os contemporâneos de Sólon ainda acreditavam que o mar, se não perturbado, é a justiça para todos
  • Além da ordália pelo mar, existe a ordália pela balança, cujo interesse é duplo — frequentemente presidida por um personagem real e colocada sob o signo de Aletheia —, e Ch. Picard demonstrou que um singular erro havia enganado por longo tempo os comentadores da famosa cena do Julgamento no Escudo de Aquiles.
    • Passagem citada do poema homérico: “Dois talentos de ouro irão para aquele que disser, entre eles, a sentença mais justa”
    • O termo talanta designava originalmente a balança ou os pratos da balança, e só num segundo momento passou a designar a unidade de cálculo — assim a balança de justiça desapareceu de um de seus mais antigos testemunhos
    • O Hino Homérico a Hermes mostra a balança presente quando Zeus preside um julgamento, sendo a mesma balança que Zeus, intendente, mantém na mão ao decidir os destinos de uma batalha ou de um guerreiro
    • Nas tradições micenêias, o intendente e a balança eram o olho do rei, sua justiça
    • A taça de Arcesilau de Cirene oferece a imagem de um rei contável — Arcesilau II, sentado no trono e revestido das vestes de cerimônia, supervisiona a arrecadação dos impostos diante de uma alta balança
    • O pensamento mítico conservou a lembrança de um rei que fazia justiça com a balança — Minos, rei de Creta, que preside às sentenças no Hades e reside tradicionalmente na planície de Aletheia
    • Em Minos convergem as duas formas de justiça colocadas sob o signo de Aletheia — com a água e com a balança
  • Por meio das formas de justiça relacionadas com a imagem do Velho do Mar começa a aparecer uma instituição — a função da soberania —, e os aspectos políticos de Nereu se revelam nos nomes de suas cinquenta filhas, uma dezena das quais recebe nomes baseados em virtudes políticas.
    • As filhas de Nereu com nomes de virtudes políticas são Leagore, Evagore, Laomedeía, Polínoe, Autonoe, Lisianassa, Temisto e Prônoe
    • Nereu porta dois epítetos significativos — é o Velho, o presbyteros por excelência, que simboliza a Velhice em seu aspecto benéfico em oposição a Geras, a Velhice maldita, encarnando o princípio de autoridade que cabe naturalmente aos homens idosos
    • Hesíodo confere a Nereu o epíteto de doce, benevolente, epios — qualificativo que habitualmente caracteriza o pai de família em oposição às crianças, os nepioi
    • No verbo epyein, a língua grega connota o esplendor da voz e a autoridade que emana de um chefe, razão pela qual o epíteto é tradicionalmente atribuído ao personagem real
    • Em oposição ao nepytios — aquele que é incapaz de participar das deliberações da ágora —, o rei é o homem que possui a palavra autoritária por excelência e toma decisões sábias para o maior bem de seu rebanho
  • A função de soberania, tal como se revela nas tradições míticas e nas civilizações do Próximo Oriente, é caracterizada por sua globalidade — o rei é o pastor de homens, detentor e dispensador de riquezas, senhor das estações e dos fenômenos atmosféricos —, e nesse quadro a justiça não está diferenciada, sendo inseparável de todas as outras atividades do soberano.
    • No sistema palazial micenêio, o Anax centraliza todos os poderes — domina a vida econômica, política e religiosa —, e a função de soberania é inseparável da organização do mundo
    • Quando o rei esquece a justiça ou comete uma falta ritual, automaticamente a comunidade é oprimida por desgraças, pela fome e pela esterilidade que atinge mulheres e rebanhos
    • Em mãos o rei porta o cetro, testemunho e instrumento da autoridade, pelo qual emite themistes — decretos e julgamentos que são espécies de oráculos
    • O termo themistes pode aplicar-se tanto às palavras de justiça quanto às palavras oraculares de Apolo, e a potência da deusa Têmis cobre tanto o âmbito da mântica quanto o campo da justiça e da vida política
    • Minos é um rei que mantém com o pai dos deuses um comércio pessoal no interior de uma caverna no monte Ida — Minos, mestre de Aletheia, é um rei que pratica a mântica incubatória
    • Pausânias descreve em Trezena a tumba de Píteu, rei daquelas terras, representado no exercício da justiça sentado no trono entre dois ministros — esse rei de justiça é também um rei adivinho, chamado de cresmologo, fundador do altar dos Themides
    • Em Tebas e em Esparta, as casas reais conservam cuidadosamente oráculos de grande importância para a condução da coisa pública
    • Uma inscrição arcaica de Argos fala de um privilégio de consulta oracular concedido a magistrados qualificados como oficiais; uma inscrição do santuário de Talamai informa que os principais magistrados de Esparta recebiam durante o sono as inspirações de Pasífae
  • O procedimento divinatório da incubação — o mais antigo meio de divinação — goza de estatuto privilegiado tanto no plano mítico quanto no plano histórico, e o oráculo de Trofônio em Lebadeia ilustra exemplarmente seu funcionamento e as representações mentais solidárias a essa instituição religiosa.
    • Trofônio, o Nutridor, presta seus oráculos em um antigo santuário identificado com uma antiga Tholos, tumba em forma de colmeia que teria sido a de um rei beócio
    • A consulta se efetua à maneira de uma descida ao Hades — após dias de recolhimento e severas interdições alimentares, o consulente realiza sacrifícios a Trofônio e outras divindades
    • Dois jovens chamados os Hermes lavam e ungem o consulente de óleo antes de conduzi-lo ao oráculo
    • Antes de penetrar no oráculo, o consulente se detém junto a duas fontes contíguas — a primeira se chama Lethe, a segunda Mnemósine
    • A água da primeira fonte faz esquecer toda a vida humana; a da segunda permite ao consulente conservar na memória tudo o que viu e ouviu no outro mundo
    • O corpo do consulente é introduzido pelos pés e joelhos na boca oracular e, segundo se diz, é tragado como se um rio rápido o arrastasse em seus vórtices
    • Após algum tempo em estado de inconsciência, o consulente é retirado pelos responsáveis pelo oráculo e feito sentar no trono da Memória, de onde aos poucos recobra a faculdade de rir
    • A descida ao Hades do consulente de Trofônio é o correspondente ritual da experiência religiosa pela qual o adivinho ou o poeta inspirado penetram no mundo invisível — Memória e Esquecimento são valores essenciais em ambos os casos
  • A Aletheia judiciária e divinatória adquire todo o seu significado nesse contexto, pois Aletheia é uma espécie de duplicata de Mnemósine, e a equivalência entre as duas potências se estabelece em três pontos — equivalência de significado, de posição e de relação.
    • Equivalência de significado — como Mnemósine, Aletheia é um dom de vidência e uma onisciência que abrange presente, passado e futuro; as visões noturnas dos Sonhos, chamadas Alethosyne, cobrem o passado, o presente e tudo o que deve ser para numerosos mortais durante seu obscuro sono
    • Equivalência de posição — como Mnemósine, Aletheia no pensamento religioso é associada a experiências de mântica incubatória; Epimênides, nos longos anos de retiro na gruta de Zeus Díctaios, conversava com Aletheia acompanhada de Dike
    • Filóstrato, ao descrever o antro em que Anfiarao profetiza e diz a Verdade, pinta diante do oráculo uma jovem vestida de branco chamada Aletheia
    • Equivalência de relação — a complementaridade entre Aletheia e Lethe é a mesma que intercorre entre Mnemósine e Lethe; Luciano narra que na Ilha dos Sonhos avistou dois templos junto a um oráculo incubatório — um de Aletheia e outro de Apate
    • A passagem de Hesíodo relativa ao Velho do Mar é inteiramente construída sobre a complementaridade de Aletheia e Lethe a um duplo nível — etimológico e consciente de um lado, mítico e inconsciente do outro: se o Velho do Mar é verídico, é porque não esquece os themistes
    • Hesíquio observa que as coisas alethea são aquelas que não caem no Esquecimento
    • Entre Nereu alethes e Lethe, filha da Noite, existe a mesma complementaridade que intercorre entre o epíteto apseudes e as palavras de engano associadas a Lethe, e entre a característica de Velho benevolente e a imagem da Velhice maldita
  • Por trás do Velho do Mar — vigário mítico do Rei de Justiça, dotado de saber mântico e mestre de Aletheia — e por trás de Minos — que como Nereu acumula a função real, a justiça, o saber mântico e o privilégio de Aletheia — descobre-se um tipo de homem: o personagem real dotado de dom de vidência.
    • Quando preside a ordália e pronuncia ditos de Justiça, o rei — como o poeta e o adivinho — goza de um privilégio de memória pelo qual se comunica com o mundo invisível
    • Nesse plano de pensamento onde o político interfere com o religioso e a divinação se mistura à justiça, a Aletheia se define por sua complementaridade fundamental com Lethe — seu conteúdo não é mais a palavra cantada, mas os procedimentos divinatórios e os modos de justiça
    • A Aletheia do Velho do Mar, como a do poeta, não é uma verdade de tipo histórico — o rei de justiça não aspira a restituir o passado enquanto passado, pois as provas da justiça são de caráter ordálico
    • Quando preside o julgamento ordálico em nome dos deuses, o rei diz a verdade ou, melhor, faz-se portador de verdade — é um Mestre de Verdade, como o poeta, como o adivinho
    • A verdade, nesse plano de pensamento, está sempre vinculada a certas funções sociais e é inseparável de determinados tipos de homens, de suas qualidades próprias e de um plano do real definido na sociedade grega arcaica por sua função
  • No pensamento arcaico distinguem-se três âmbitos — poesia, mântica e justiça — correspondentes a três funções sociais onde a palavra desempenhou papel importante antes de tornar-se uma realidade autônoma e antes que, na filosofia e na sofística, se elaborasse uma problemática da linguagem.
    • Poetas e adivinhos partilham um mesmo dom de vidência; adivinhos e reis de justiça dispõem de idêntico poder e recorrem às mesmas técnicas
    • Todos os três — o poeta, o adivinho e o rei de justiça — afirmam-se como mestres da palavra, de uma palavra que se define por uma mesma concepção de Aletheia
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