Iniciação
ELIADE, Mircea. Sur l'érotique mystique indienne, 1951
Ritos e símbolos de iniciação
1. Uma das marcas do mundo moderno é o desaparecimento de ritos de iniciação significativos, outrora centrais nas sociedades tradicionais, restando apenas vestígios de estrutura iniciática nas comunhões cristãs, como o batismo e a ordenação sacerdotal, já que o cristianismo só se tornou religião universal ao se afastar do clima dos mistérios greco-orientais e se proclamar uma religião de salvação acessível a todos.
2. O mundo moderno dificilmente pode ainda ser chamado de cristão, pois a originalidade do homem moderno reside em sua determinação de se considerar um ser puramente histórico, vivendo num cosmos dessacralizado, ideal que nada tem em comum com a antropologia cristã e é igualmente estranho à imagem de si concebida pelo homem das sociedades tradicionais.
3. É pelo rito iniciático que o homem das sociedades tradicionais conhece e assume sua imagem de si, e, apesar dos inúmeros tipos e variantes de iniciação correspondentes a diferentes estruturas sociais e horizontes culturais, todas as sociedades pré-modernas, que na Europa Ocidental perduraram até o fim da Idade Média e no resto do mundo até a Primeira Guerra Mundial, conferem importância primordial à ideologia e às técnicas iniciáticas.
4. A iniciação, entendida como conjunto de ritos e ensinamentos orais destinados a produzir uma alteração decisiva no estatuto religioso e social do iniciando, equivale a uma mudança radical de condição existencial, sendo a iniciação de puberdade, obrigatória para todos os jovens da tribo, especialmente reveladora, pois por meio de provas e revelações o adolescente é admitido entre os adultos, aprendendo não apenas comportamentos, técnicas e instituições, mas também os mitos sagrados, os nomes dos deuses e as relações místicas entre a tribo e os seres sobrenaturais estabelecidas no princípio dos tempos.
5. A concepção de mundo revelada gradualmente ao noviço não constitui conhecimento no sentido moderno de informação objetiva, compartimentada e indefinidamente corrigível, mas uma história sagrada exemplar e paradigmática, obra de seres sobrenaturais, que funda todo comportamento humano e toda instituição social e cultural, de modo que, assim como o homem moderno se proclama ser histórico constituído pela história humana, o homem arcaico se considera produto final de uma história mítica ocorrida no princípio dos tempos, onde se concentra tudo o que é criador e significativo.
6. Para o homem das sociedades arcaicas a história parece, em certo sentido, fechada e esgotada nos poucos acontecimentos grandiosos do princípio, como no caso do herói mítico que, ao revelar aos polinésios as modalidades da pesca em alto-mar, esgotou de uma só vez todas as suas formas possíveis, de modo que cada pescaria repete o gesto exemplar e imita um modelo trans-humano.
7. Essa história mítica é fechada apenas na aparência, pois não existe sociedade primitiva absolutamente fechada, sem empréstimos culturais externos nem transformações institucionais, mas, diferentemente da sociedade moderna, as sociedades primitivas acolhem todas as inovações como revelações de origem sobre-humana, carregadas de poder mágico-religioso, e, na ausência de memória histórica em sentido estrito, bastam poucas gerações para que uma novidade recente adquira todo o prestígio das revelações primordiais.
8. Embora abertas à história e transformadas por ela, ainda que por vezes em grau mínimo, as sociedades tradicionais tendem a projetar cada nova aquisição no tempo primordial, telescopando todos os acontecimentos no mesmo horizonte atemporal dos começos míticos, e o que as distingue radicalmente da sociedade moderna é a ausência de consciência histórica, ausência inevitável diante da concepção de tempo e da antropologia próprias de toda a humanidade pré-judaica.
9. O acesso dos noviços a esse saber tradicional se dá por instrução prolongada, cerimônias secretas e sobretudo por provas que constituem a experiência religiosa da iniciação, o encontro com o sagrado, as quais implicam em sua maioria uma morte ritual seguida de ressurreição ou novo nascimento, de modo que o momento central de toda iniciação simboliza a morte do noviço e seu retorno à comunidade dos vivos como homem novo, encerrando ao mesmo tempo a infância, a ignorância e a condição profana.
10. No pensamento arcaico, nada exprime melhor a ideia de fim do que a morte e nada exprime melhor a ideia de criação do que a cosmogonia, modelo exemplar de todo fazer, e, por ser manifestação do poder criador dos deuses e irrupção prodigiosa do sagrado, a cosmogonia é periodicamente reiterada para regenerar o mundo e a sociedade, reatualizando o evento primordial e restituindo ao cosmos sua condição originária pura, poderosa, eficaz e com todas as possibilidades intactas.
11. Toda repetição ritual da cosmogonia é precedida por uma regressão simbólica ao caos, como mostram os ritos de Ano-Novo, divididos entre os que significam o retorno ao caos e os que simbolizam a criação, e no cenário iniciático a morte corresponde a esse retorno temporário ao caos, expressão paradigmática do fim do modo de ser da ignorância e da irresponsabilidade infantil, oferecendo a tábula rasa sobre a qual se inscrevem as revelações que formam o homem novo, cuja vida, aberta aos valores do espírito, é tida como a verdadeira existência humana, de modo que a cultura só é acessível aos iniciados.
12. Os ritos de renascimento e ressurreição indicam que o noviço alcançou um modo de existência inacessível a quem não provou a morte, revelando a convicção arcaica de que um estado não pode ser mudado sem ser antes aniquilado, convicção ligada a uma obsessão pelo começo absoluto, a cosmogonia, segundo a qual algo só é bem feito quando feito como se fosse pela primeira vez, quando, pelo poder dos deuses, o ser surgiu do não-ser.
13. A morte iniciática, indispensável ao início da vida espiritual e compreensível apenas em função do nascimento para um modo de ser superior que ela prepara, é simbolizada pelas trevas, pela noite cósmica, pelo útero telúrico, pela cabana ou pelo ventre de um monstro, imagens que exprimem regressão a um estado pré-formal e latente, complementar ao caos pré-cosmogônico, e não aniquilação total no sentido moderno, ligando-se à germinação e à embriologia, e mesmo quando valorizada como ingresso na companhia dos mortos e dos ancestrais conserva o simbolismo do começo da vida espiritual pelo encontro com os espíritos.
14. Para o pensamento arcaico, o homem é feito e não se faz sozinho, sendo formado pelos velhos iniciados, mestres espirituais que aplicam e por vezes encarnam o que os seres sobrenaturais revelaram no princípio, de modo que tornar-se homem exige assemelhar-se a um modelo mítico e ser feito uma segunda vez segundo um cânone paradigmático e trans-humano, nascimento iniciático que, embora às vezes expresso em símbolos obstétricos, não repete o nascimento biológico nem pertence à natureza no sentido secularizado, mas à história sagrada, exigindo o conhecimento de realidades da biografia dos seres sobrenaturais.
15. Mesmo quando parecem tratar apenas de fenômenos naturais, como o curso do sol, os mitos remetem a uma realidade que não é a natureza tal como o homem moderno a conhece, pois para o primitivo a natureza é ao mesmo tempo sobrenatureza, manifestação de forças sagradas e figura de realidades transcendentes, de modo que conhecer os mitos não é, como se pensava no século passado, perceber a regularidade dos fenômenos cósmicos, mas conhecer o que realmente aconteceu no mundo, as obras, aventuras e dramas dos deuses e heróis civilizadores, uma história divina feita de acontecimentos imprevisíveis, embora coerentes e significativos.
16. Em termos modernos, a iniciação põe fim ao homem natural e introduz o noviço na cultura, mas para as sociedades arcaicas a cultura tem origem sobrenatural e é por meio dela que o homem restabelece contato com o mundo dos deuses e participa de suas energias criadoras, mundo em que tudo aconteceu pela primeira vez, das primeiras árvores e animais aos gestos depois religiosamente repetidos, e que só pode ser narrado e não descrito, por consistir na história de atos livres, decisões imprevisíveis e transformações fabulosas, de modo que o noviço é introduzido na história sagrada do mundo e da humanidade.
17. A importância da iniciação para o conhecimento do homem pré-moderno decorre de revelar a seriedade quase assombrosa com que o homem das sociedades arcaicas assumia a responsabilidade de receber e transmitir os valores espirituais.
