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Isis
A. J. PERNETY. Fables egyptiennes et grecques.
Capítulo Quarto — História de Ísis
- Conhecendo-se a genealogia de Osíris, conhece-se a de Ísis sua esposa, pois ela era sua irmã — e pensa-se comumente que ela era o símbolo da Lua, como Osíris era o do Sol, mas era tomada também pela Natureza em geral e pela Terra, segundo Macrobe.
- Macrobe — afirma que daí vem o fato de se representar essa deusa com o corpo todo coberto de mamas
- Apuleio (Metamorfoses, l. 11) — está do mesmo sentimento que Macrobe e faz a seguinte descrição da deusa: “Uma cabeleira longa e bem provida caía em ondas sobre seu colo divino; ela tinha na cabeça uma coroa variada pela forma e pelas flores que a ornavam. No meio, na frente, aparecia uma espécie de globo, em forma quase de espelho, que lançava uma luz brilhante e argentina como a da Lua. À direita e à esquerda desse globo se elevavam duas víboras ondulantes, como para enquadrá-lo e sustentá-lo; e da base da coroa saíam espigas de trigo. Uma veste de linho fino a cobria inteiramente. Essa veste era tão fulgurante, ora por sua grande brancura, ora por seu amarelo açafroado, enfim por uma cor de fogo tão viva, que meus olhos ficavam deslumbrados. Uma simarra notável por sua grande negrura passava do ombro esquerdo abaixo do braço direito e flutuava em muitas dobras descendo até os pés; era bordeada de nós e flores variadas, e salpicada de estrelas em toda sua extensão. No meio dessas estrelas mostrava-se a Lua com raios semelhantes a chamas. Essa deusa tinha um sistro na mão direita, que pelo movimento que lhe dava produzia um som agudo mas muito agradável; da esquerda carregava um vaso de ouro cuja asa era formada por um áspide que erguia a cabeça com ar ameaçador; o calçado que cobria seus pés exalando ambrosia era feito de um tecido de folhas de palma vitoriosa. Essa grande deusa cuja doçura do hálito supera todos os perfumes da Arábia feliz, dignou-se falar-me nestes termos: Sou a Natureza, mãe das coisas, senhora dos elementos; o começo dos séculos, a Soberana dos Deuses, a Rainha dos manes, a primeira das naturezas celestes, a face uniforme dos Deuses e das Deusas: sou eu que governo a sublimidade luminosa dos céus, os ventos salutares dos mares, o silêncio lúgubre dos infernos. Minha divindade única é honrada por todo o Universo, mas sob diferentes formas, sob diversos nomes, e por diferentes cerimônias. Os frígios, os primeiros nascidos dos homens, chamam-me a Pessinontiana mãe dos Deuses; os atenienses, Minerva Cecropiana; os de Chipre, Vênus Páfia; os de Creta, Diana Dictina; os sicilianos que falam três línguas, Prosérpina Estigiana; os eleusinos, a antiga deusa Ceres; outros, Juno; outros, Belona; alguns, Hécate; outros, Ramnúsia. Mas os egípcios que estão instruídos da antiga doutrina honram-me com cerimônias que me são próprias e convenientes, e chamam-me pelo meu verdadeiro nome: a Rainha Ísis”
- Ísis era mais conhecida sob seu próprio nome nos países fora do Egito do que Osíris, porque era considerada como a mãe e a natureza das coisas — e esse sentimento universal deveria ter aberto os olhos daqueles que a consideram como uma rainha real do Egito e pretendem adaptar sua história fictícia à história real dos reis desse país.
- Os sacerdotes do Egito contavam, segundo o testemunho de Diodoro, vinte mil anos desde o reinado do Sol até o tempo em que Alexandre o Grande passou à Ásia
- Diziam também que seus antigos deuses reinaram cada um mais de mil e duzentos anos, e que seus sucessores não reinaram menos de trezentos — o que alguns entendem do curso da Lua, e não do Sol, contando mesmo os meses por anos
- Eusébio — coloca Oceano, o primeiro de todos, por volta do ano do mundo 1802, época em que Nemrod começou o primeiro a arrogar-se a superioridade sobre os outros homens; dá a Oceano por sucessores Osíris e Ísis
- Pelo cálculo cronológico, não se encontra lugar algum para colocar os reinados de Osíris, Ísis, do Sol, de Mercúrio, de Vulcano, de Saturno, de Júpiter, do Nilo e de Oceano
- O retrato de Ísis dado por Apuleio é uma alegoria da obra, palpável para quem leu atentamente os escritos que dela tratam — sua coroa e as cores de suas vestes indicam tudo em geral e em particular.
- Ísis passava pela Lua, pela Terra e pela Natureza; sua coroa formada por um globo brilhante como a Lua o anuncia a todos
- As duas serpentes que sustentam esse globo são as mesmas que as do monumento de A. Herennuleius Hermès explicado no capítulo primeiro; o globo é também a mesma coisa que o ovo do mesmo monumento
- As duas espigas que dele saem marcam que a matéria da arte hermética é a mesma que a Natureza emprega para fazer tudo vegetar no universo
- As cores que sobrevêm a essa matéria durante as operações estão expressamente nomeadas na enumeração das cores das vestes de Ísis: uma simarra de grande negrura — palla nigerrima splendescens atro nitore — cobre o corpo de Ísis de tal modo que deixa apenas entrever por cima outra veste de linho fino, primeiro branca, depois açafroada, enfim de cor de fogo — multicolor bysso tenui praetexta, nunc albo candore lucida, nunc croceo flore lutea, nunc roseo rubore flammea
- Apuleio havia sem dúvida copiado essa descrição de algum filósofo, pois todos se exprimem da mesma maneira a esse respeito — chamam a cor negra de “o negro mais negro do que o próprio negro”, nigrum nigro nigrius
- Homero — dá descrição semelhante a Tétis quando ela se dispõe a ir solicitar os favores e a proteção de Júpiter para seu filho Aquiles (Ilíada, l. 9, v. 93): não havia no mundo, diz esse poeta, vestimenta mais negra do que a sua
- A cor branca sucede à negra, a açafroada à branca e a vermelha à açafroada, precisamente como relata Apuleio
- D'Espagnet — é perfeitamente conforme a essa descrição de Apuleio e chama essas quatro cores os meios demonstrativos da obra
- As espigas de trigo provam que Ísis e Ceres eram um mesmo símbolo — o sistro e o vaso ou pequeno recipiente são as duas coisas requeridas para a obra, a saber, o latão filosófico e a água mercurial.
- O sistro era comumente um instrumento de cobre, e as varetas que o atravessavam eram também de cobre, às vezes de ferro
- Os gregos inventaram depois a fábula de Hércules que expulsa as aves do lago Estinfale fazendo barulho com um instrumento de cobre — um e outro devem ser explicados da mesma maneira
- Dom Bernard de Montfaucon — mencionado como fonte para os atributos de Ísis nos monumentos antigos gregos
- Ísis era frequentemente representada com um cântaro sobre a cabeça e às vezes com uma cornucópia na mão, para significar em geral a Natureza que fornece tudo abundantemente, e em particular a fonte de felicidade, saúde e riquezas que se encontra na obra hermética
- O serpente que a acompanha nos monumentos gregos era o símbolo de Esculápio, deus da Medicina, cuja invenção os egípcios atribuíam a Ísis — mas há mais razões para considerá-la como a própria matéria da Medicina Filosófica ou universal empregada pelos sacerdotes do Egito para curar toda espécie de doenças, pois a maneira de fazer esse remédio estava contida nos livros de Hermès, que só os sacerdotes tinham o direito de ler
- Trimégiste (In Asclepio) — afirma que Ísis não foi a inventora da Medicina, mas que foi o avô de Asclépio, ou Hermès, cujo nome ele portava
- Não se deve acreditar em Diodoro nem na tradição popular do Egito, segundo a qual Ísis teria inventado não apenas muitos remédios para a cura das doenças, mas contribuído infinitamente para a perfeição da Medicina e encontrado mesmo um remédio capaz de proporcionar a imortalidade, de que teria feito uso por seu filho Hórus.
- Tudo isso deve ser explicado alegoricamente: seguindo a explicação que fornece a arte hermética, Ísis contribuiu muito para a perfeição da Medicina por ser a matéria de que se fazia o mais excelente remédio que jamais existiu na Natureza
- Mas esse remédio não seria tal se Ísis estivesse só — é necessário que ela esteja casada com Osíris, pois os dois princípios devem estar reunidos em um único todo, como desde o começo da obra formavam um mesmo sujeito contendo duas substâncias, uma macho e outra fêmea
- A viagem de Ísis à Fenícia para buscar o corpo de seu marido, as lágrimas que derrama antes de encontrá-lo e a árvore sob a qual ele estava oculto estão todos marcados com o cunho da Arte Sacerdotal.
- Osíris estando morto é lançado ao mar — isto é, submerso na água mercurial ou mar dos filósofos
- Ísis derrama lágrimas porque a matéria ainda volátil, representada por Ísis, sobe em forma de vapores, condensa-se e cai em gotas
- A parte volátil só se reúne com a fixa quando sobrevém a brancura — então a vermelhidão onde Osíris está oculto sob o tamarindo, porque as flores dessa árvore são brancas e as raízes vermelhas
- Essa última cor é indicada ainda mais precisamente pelo próprio nome de Fenícia, que vem de vermelho, cor de púrpura
- Ísis sobreviveu a seu marido e, após ter reinado gloriosamente, foi posta no número dos deuses — Mercúrio determinou seu culto como havia feito o de Osíris, pois na segunda operação chamada segundo obra ou segunda disposição por Morienus, a Lua dos filósofos ou sua Diana, a matéria ao branco significada também por Ísis, aparece ainda após a solução ou a morte de Osíris.
- Morienus (Entrada do rei Calid) — mencionado como fonte para a designação de segunda disposição
- Ela se encontra por isso posta no rango dos deuses, mas dos deuses filosóficos, pois é sua Diana ou a Lua, uma das principais deusas do Egito
- O abade Banier (Mitologia, t. I, p. 483, 484 e alhures) pretende que toda essa história não é ficção e afirma acreditar que Osíris é o mesmo que Mesraim, filho de Cam, que povoou o Egito algum tempo após o Dilúvio.
- Pergunta-se, então, por que todos os autores antigos que falaram de Mesraim e de Menés não fizeram nenhuma menção, ao falar deles, da famosa expedição que o pretenso Osíris fez pela África, pela Ásia e por todo o mundo
- Diodoro — traz a inscrição encontrada em monumentos antigos: “SATURNO, O MAIS JOVEM DE TODOS OS DEUSES, ERA MEU PAI. SOU OSÍRIS, REI; PERCORRI TODO O UNIVERSO, ATÉ OS EXTREMOS DOS DESERTOS DA ÍNDIA, DAÍ PARA O SETENTRIÃO ATÉ AS FONTES DO ISTER; DEPOIS OUTRAS PARTES DO MUNDO ATÉ O OCEANO: SOU O FILHO MAIS VELHO DE SATURNO, SAÍDO DE UM TRONCO ILUSTRE E DE UM SANGUE GENEROSO QUE NÃO TINHA SEMENTE. NÃO HÁ LUGAR ONDE EU NÃO TENHA ESTADO. VISITEI TODAS AS NAÇÕES PARA ENSINAR-LHES TUDO DE QUE FUI O INVENTOR”
- Não se pode atribuir a nenhum rei do Egito tudo o que contém essa inscrição — particularmente a geração sem semente —, ao passo que esse último ponto se encontra na obra hermética, onde se entende por Saturno a cor negra, da qual nascem a branca ou Ísis e a vermelha ou Osíris: a primeira chamada Lua, a segunda Sol ou Apolo
- A inscrição de uma coluna de Ísis, igualmente impossível de aplicar a uma rainha: “EU, ÍSIS, SOU A RAINHA DESTE PAÍS DO EGITO, E TIVE MERCÚRIO COMO PRIMEIRO-MINISTRO. NINGUÉM PODERÁ REVOGAR AS LEIS QUE FIZE, NEM IMPEDIR A EXECUÇÃO DO QUE ORDENEI. SOU A FILHA MAIS VELHA DE SATURNO, O MAIS JOVEM DOS DEUSES. SOU A IRMÃ E A ESPOSA DE OSÍRIS. SOU A MÃE DO REI HÓRUS. SOU A PRIMEIRA INVENTORA DA AGRICULTURA. SOU O CÃO BRILHANTE ENTRE OS ASTROS. A CIDADE DE BUBÁSTIS FOI CONSTRUÍDA EM MEU NOME. ALEGRA-TE, Ó EGITO, QUE ME NUTRIU”
- Comparando essas expressões com as dos filósofos herméticos, encontram-se tão conformes que se é obrigado a convir que o autor dessas inscrições teve em vista o mesmo objeto que os filósofos
- Diodoro — diz que os sacerdotes guardavam inviolavelmente o segredo sobre o que lhes havia sido confiado, preferindo que a verdade fosse ignorada pelo povo a correr o risco de sofrer as penas impostas a quem divulgasse esses segredos
- A conduta pretendida de Ísis em relação aos sacerdotes era por si só capaz de trair esses segredos — e o que a defesa de dizer que Osíris havia sido um homem tem de contraditório com a demonstração pública de seu túmulo deveria fazer suspeitar algum mistério oculto nessa contradição.
- Cícero — é mencionado como um dos que afirmam que o segredo consistia em não dizer que Osíris havia sido um homem
- Josué e Moisés — evocados: a Escritura Santa ensina que Josué manteve uma conduta totalmente diferente em relação aos israelitas quando Moisés morreu (Deut. 34), para impedir que os hebreus imitassem os egípcios nesse gênero de idolatria
- Basile Valentin (12 Chaves) — emprega a alegoria do túmulo duas ou três vezes
- Norton (Ordinal) — diz que é preciso fazer morrer o Rei e sepultá-lo
- Raimundo Lúlio, Flamel, o Trevisano, Aristeu na Turba e muitos outros se exprimem no mesmo sentido — mas todos ocultam com muito cuidado o túmulo e o que ele encerra, isto é, o vaso e a matéria nele contida
- Trevisano (Filosofia dos Metais) — diz que o Rei vem se banhar na água de uma fonte, que ama muito essa água e por ela é amado, pois dela saiu, que nela morre e que ela lhe serve de túmulo
- Os sacerdotes instruídos por Hermès tinham, portanto, um outro objetivo que o da história — e as diferentes qualidades de mãe e filho, esposo e esposa, irmão e irmã, pai e filha que se encontram nas diversas histórias de Osíris e Ísis não podem acordar-se com a história, mas convêm muito bem à obra hermética quando se toma sua única matéria sob diferentes pontos de vista.
- Por que Ísis recolhe todos os membros do corpo de Osíris, exceto as partes naturais? — porque essas partes naturais são as terrestres negras e fecundas da matéria filosófica na qual ela se formou, que devem ser rejeitadas como inúteis, e com as quais não pode se reunir por serem heterogêneas
- Por que, após a morte de seu marido, Ísis jura não casar com outro? — porque após a solução perfeita designada pela morte, ela não pode mais por nenhum artifício ser separada de Osíris
- Por que se diz que foi sepultada na floresta de Vulcano? — a inumação filosófica, segundo Filalete (Enarratio methodica) e d'Espagnet, não é outra coisa senão a fixação, ou o retorno das partes volatilizadas e sua reunião com as partes fixas e ígnicas das quais haviam sido separadas; daí Ísis e Osíris serem ditos netos de Vulcano
- Mercúrio foi o intérprete de tudo e servia de conselho a Ísis — ela não podia fazer nada sem Mercúrio, pois ele é a base da obra e sem ele nada se pode fazer.
- Raimundo Lúlio (Teor. Metam., c. 50) — citado: “A Natureza encerra em si mesma a Filosofia e a Ciência das sete artes liberais, contém todas as formas geométricas e suas proporções; determina todas as coisas pelo cálculo aritmético, pela igualdade de um número certo; e por um conhecimento raciocinado e retórico, conduz o intelecto de potência a ato”
- Não se pode razoavelmente atribuir a Mercúrio ou Hermès a invenção de tudo em outro sentido, pois se sabe que as artes eram conhecidas antes do Dilúvio — e após o Dilúvio a Torre de Babel é nova prova disso
- Ísis, segundo Diodoro, construiu templos todos de ouro em honra de Júpiter e dos outros deuses — mas em que lugar do mundo e em que século a história ensina que se tenha erguido um único de semelhante?
- Esses templos não eram outros senão templos e deuses herméticos, isto é, a matéria aurífica e as cores da obra que Ísis constrói de fato, pois ela é a própria matéria
- Por essa mesma razão se diz que Ísis considerava infinitamente os artistas em ouro e outros metais — ela era uma deusa de ouro, a Vênus dourada de toda a Ásia
- A cronologia dos egípcios é igualmente misteriosa — eles não parecem estar de acordo entre si, não porque realmente não o estejam, mas porque quiseram ocultar e embaraçar isso intencionalmente; e não, como muitos ignorantes pretendem, porque queiram estabelecer a eternidade do mundo.
- Com eles ocorreu o mesmo que com os adeptos em todos os tempos, pois estes sempre seguiram os passos dos primeiros
- Um diz que bastam quatro dias para fazer a obra; outro assegura que é preciso um ano; aquele diz um ano e meio; este fixa o tempo em três anos; outro chega a sete, outro a dez anos — mas quem está a par saberá bem conciliá-los, diz Maïer
- Filalete (Enarratio methodica, 3ª Medic. Gebri) — citado: as anos dos filósofos se reduzem em meses, os meses em semanas, as semanas em dias; os filósofos contam os dias ora à maneira vulgar, ora à sua; há quatro estações no ano comum e quatro no ano filosófico
- Há três operações para levar a obra à sua conclusão: a operação da pedra ou do enxofre, a do elixir e a multiplicação — cada uma com suas estações, compondo cada uma um ano; e as três reunidas não formam senão um ano, que termina pelo outono, porque é o tempo de colher os frutos e gozar de seus trabalhos
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