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2 Aspectos e lendas

DANIÉLOU, Alain. Shiva et Dionysos: La religion de la Nature et de l'Éros; De la préhistoire à l'avenir. Paris: Fayard, 1979.

O sacrifício de Daksha

1. Qualquer que tenha sido o caráter original do Vedismo, a religião ariana, uma vez estabelecida na Índia, assim como no Irã e na Grécia, tornou-se a religião de uma classe dirigente urbana, guerreira e burguesa, que escravizava as antigas populações e desprezava seus deuses, ritos e costumes.

2. O sacrifício de Daksha expressa o conflito entre a religião da cidade, representada pelo Bramanismo e pelos ritos arianos, e o antigo Shivaísmo, religião do povo e da natureza.

3. Daksha, soberano e sábio védico, organiza um grande sacrifício em honra de todos os deuses, mas exclui Shiva, tido como divindade não védica e impura, embora lhe tenha concedido outrora, por razões políticas, a mão de sua filha Sati, união que simboliza a aceitação contestada do antigo deus dravídico entre os deuses arianos.

4. Na versão do Bhâgavata Purâna, Daksha lamenta ter entregue a filha, por instigação de Brahmâ, a um ser impuro, destruidor dos ritos e das barreiras sociais, que ensina os textos sagrados aos shudras, vagueia nu e desgrenhado pelos cemitérios entre fantasmas, cobre-se de cinzas e de colares de crânios, e que, dizendo-se de bom augúrio, é na verdade de mau augúrio, razão pela qual deseja que esse último dos deuses jamais receba parte das oferendas.

5. Segundo o Shiva Purâna, Daksha é por sua vez amaldiçoado por Nandi, o touro que acompanha Shiva e o personifica no reino animal.

6. Daksha é condenado como mortal ignorante que odeia o único deus incapaz de retribuir o ódio, preso à vida doméstica e a intermináveis ritos movidos por interesse e por uma mentalidade aviltada pelas prescrições védicas, esquecido da natureza da alma, devendo por isso receber a cabeça de um bode e permanecer, com todos os que se opõem ao Grande Arqueiro, em seu ritualismo ignorante.

7. Os inimigos daquele que acalma a dor, com o espírito perturbado pelo cheiro dos sacrifícios e pelas palavras floridas dos Vedas, são condenados a viver em suas ilusões, e os sacerdotes que só pensam em comer, que valorizam o saber por interesse e praticam austeridades e cerimônias apenas para ganhar o sustento, riqueza e honras, são destinados a terminar como mendigos.

8. O sábio védico Bhrigu, que presidia o sacrifício, replica que os seguidores de Shiva são hereges que renunciaram à pureza ritual, usam cabelos emaranhados, colares de ossos e cinzas, consideram sagradas as bebidas embriagantes em suas iniciações e desprezam os Vedas e os brâmanes, suportes da ordem social, sendo os Vedas a única via da virtude, de modo que devem seguir seu deus, rei dos espíritos malignos.

9. O orgulhoso rei-sacerdote Daksha, tendo convidado Vishnu e os demais deuses, não convidou Shiva nem a própria filha Sati, que, comparecendo mesmo assim à casa paterna e vendo que não havia parte das oferendas reservada a seu esposo, insultada pelo pai, deu-se a morte.

10. Em sua aflição, Shiva criou um gênio aterrador chamado Virabhadra, que, à frente dos Ganas, companheiros de Shiva, destruiu tudo em torno do sacrifício sem poupar ninguém e, tendo cortado a cabeça de Daksha, lançou-a ao fogo.

11. O próprio Shiva arrancou a barba do sábio Bhrigu, que vertia oblações no fogo sagrado, vazou os olhos de Bhaga, deus ariano dos bens herdados, e quebrou os dentes de Pushan, deus das riquezas adquiridas.

12. O mesmo ostracismo do deus reaparece na tradição dionisíaca, em que Dionísio é insultado e expulso por Licurgo, rei dos Edônios, e em que, pela impiedade de Minos, que se recusara a sacrificar-lhe um touro, o deus enlouquece Pasífae, que se apaixona por um touro e concebe o Minotauro.

Nomes e aspectos do deus

1. Assim como na floresta não se pronuncia o nome do tigre, jamais se pronuncia abertamente o nome de um deus, evocado apenas indiretamente por adjetivos, sendo a própria palavra deus derivada da raiz div, radiante, e o Gott germânico e o God inglês provavelmente de uma raiz indo-europeia que designa o touro.

2. O Aitareya Brâhmana prescreve a alteração das fórmulas sagradas para evitar a pronúncia direta do nome divino, exigindo que as referências ao deus sejam sempre indiretas, por menção a uma de suas qualidades ou atributos, o que explica a multiplicidade de nomes dos diversos aspectos do divino em todas as mitologias.

3. Na pré-história indiana, Shiva, o Benevolente, parece ter sido chamado Ann, nome também atribuído à deusa e aproximável do Ann hitita, da Anat cananeia e da Ana celta, enquanto no panteão védico Rudra, aquele que causa lágrimas, designa seu aspecto terrível, e os mil nomes do deus, explicados no Shiva Sahasra Nâma, servem de base à fórmula secreta e mágica transmitida ao aprendiz na iniciação, companheira e recurso de toda a sua vida.

4. Nenhuma palavra pode exprimir a majestade divina, que não se deixa circunscrever pela forma ou pela fala, de modo que os deuses são evocados por seus atributos e qualidades manifestados na criação, e os mil nomes de Shiva não passam de epítetos referentes aos diversos aspectos de sua manifestação.

5. Dionísio também aparece sob aspectos múltiplos, como deus-touro, deus que morre, deus-menino, deus abandonado pela mãe e de dupla nascença, e as moedas cretenses o mostram jovem, cornudo, barbudo com o tirso ou montado numa pantera, assumindo em cada região nome e aspecto diferentes.

6. Os paralelos entre os nomes e as lendas de Shiva, Osíris e Dionísio são tão numerosos que restam poucas dúvidas sobre sua identidade original.

7. Skanda, filho de Shiva e assimilado ao segundo Dionísio, partilha com este epítetos equivalentes como nascido do fogo, filho das Plêiades ou das Ninfas e nascido nos juncos ou do pântano, enquanto Shiva e Dionísio se correspondem como primogênito e mais antigo dos deuses, luminoso, benevolente, deus de Nysa, monte sagrado de Shiva, terrível e ruidoso, com um aspecto feminino que é a Dama das montanhas e a Dama branca, além de serem senhor, protetor dos animais, Tempo destruidor, jato de esperma, deus da Beleza e dos Mistérios e adolescente equivalente ao Kouros cretense, chamado também o Misterioso que os gregos identificavam a Hermes.

8. Ganapati, chefe dos Ganas e guardião da porta da deusa, corresponde aos Coribantes que cercam o Zeus cretense e ao Apulunas anatólio, deus das Portas, sendo montado num rato como Apolo é Smintheus, e a lista de correspondências estende Shiva-Dionísio como senhor das montanhas, rei, caçador, arqueiro, deus supremo, louco errante, hermafrodita, falo e pilar, senhor do Yoga que ensinou ao mundo o conhecimento de si e a comunicação com os seres sutis, os animais, as plantas e os deuses, mestre da dança, da música e da embriaguez extática pela qual os bhaktas ou bacantes recebem sua sabedoria, deus da primavera, do erotismo criador e da nova colheita, montado no touro que é sua manifestação animal e veículo de redenção no altar do sacrifício, presente na figueira sagrada e nas pedras preciosas, cingido de serpentes, nu e lascivo, pregador da embriaguez, do amor e do desapego, deus da volúpia e da morte, benevolente para os que o veneram e terrível para os inimigos, como mostra o rei de Tebas despedaçado vivo pelas bacantes, pois quem não venera o falo divino, fonte de toda vida, está votado à destruição, ao erro, à loucura e à morte física e espiritual.

9. Assim como não se deve pronunciar o nome de um deus, tampouco se deve olhá-lo, temor que na Grécia provém da herança minoica, como mostram Tirésias cegado por ter visto Palas no banho e Zeus envolto numa pele de carneiro para ser contemplado por Héracles, enquanto na Índia se atribui ao olhar dos deuses um poder fulminante, capaz de reduzir Kâma a cinzas ou de decapitar Ganesha, e não se deve olhar o Sol ao nascer nem ao se pôr.

Pashupati, senhor dos animais

1. Rudra, que habita florestas e selvas, é Pashupati, senhor dos animais selvagens, cujo rebanho abrange todos os seres vivos, inclusive o homem, numa hierarquia contínua em que bichos, homens e deuses diferem apenas de papel e de nível, pois não há deus sem animalidade, animal sem humanidade nem homem sem parcela de divindade, distinguindo-se em cada ser humano o pati, o mestre próximo dos deuses, o pashu, o rebanho em que predomina o animal, e o pâsha, o laço ou armadilha, conjunto de leis que mantêm unidos os elementos da matéria e o ser vivo aprisionado na criação.

2. Não há outra moral além do respeito ao pâsha, isto é, à interdependência entre o animal e o divino em nós, ao lugar que ocupamos na obra divina e às afinidades e responsabilidades que nos ligam às espécies animais e vegetais, sendo o pâsha a lei natural, ou seja, a lei divina, enquanto toda outra moral é mera convenção social sem valor universal e sem relação com a religião, e por toda parte onde se estende o culto de Shiva-Dionísio reaparece a importância dada ao mundo animal e vegetal, aspecto frequentemente ignorado pelos especialistas modernos do mundo antigo.

3. O papel desempenhado pelas plantas e pelos animais nos mitos e nos ritos, um dos aspectos mais evidentes da cultura grega, permanece inexplicado pelos estudiosos modernos.

4. Shiva declara aos deuses que os Titãs só poderão ser destruídos se cada deus assumir sua natureza animal, a espécie que corresponde no reino animal ao princípio que encarna no plano universal, e, diante da hesitação divina, ensina que reconhecer o próprio animal não é decadência e que só os praticantes dos ritos dos irmãos dos animais, os Pashupâtas, podem superar a animalidade, levando deuses e Titãs a se reconhecerem como gado do Senhor, conhecido por isso como Pashupati.

5. Para velar pelos animais, pelas plantas e pelos homens, Shiva criou os Vidyeshvaras, mestres do saber que se apresentam como gênios das florestas, sátiros, ninfas, fadas e anjos da guarda, protetores da criação comandados por Pashupati, que através deles se manifesta em toda a natureza, residindo nas montanhas e florestas, onde se pressente sua presença misteriosa e onde, em cavernas ou lugares isolados, se lhe erguem santuários e se lhe levam oferendas.

6. No mundo celta, o protetor dos animais e dos rebanhos é um deus cornudo, espécie de Silvano indígena nu cujo único atributo é o grande falo, aparecendo também itifálico e sem chifres como o gigante de Cerne, encontrado em imagem semelhante perto de Maastricht, assimilado a Mercúrio no mundo romano, e a combinação de animais cornudos, homens itifálicos e outros símbolos associados a fontes ou lagos ocorre igualmente no Cáucaso entre cerca de 1000 e 600 a.C.

7. O caráter de Shiva como protetor e encantador dos animais foi muitas vezes transferido posteriormente a outras divindades, como Gopala-Krishna, Pã, Orfeu e até Jesus, o Bom Pastor.

8. Todas as divindades são chamadas Pashupâtas, irmãos dos animais, por fazerem parte do rebanho de Pashupati, e todos os que tomam o senhor dos animais por divindade tornam-se irmãos dos animais, integram seu rebanho e podem receber seus ensinamentos.

9. Shiva afirma ter ensinado o sacratíssimo Pashupâta Yoga, pelo qual se realiza a unidade dos seres vivos, e o Sânkhya, que explica a estrutura do mundo, recomendando, diante da efemeridade das coisas do mundo, a prática constante do Yoga do senhor dos animais.

10. A concepção moderna de ecologia pode parecer uma tentativa de retorno a uma verdadeira moral, embora geralmente antropocêntrica, quando se trata não de preservar a natureza a serviço do homem, mas de reencontrar o papel do homem na natureza como cooperador da obra dos deuses, pois uma religião que não respeita a criação em seu conjunto indissolúvel e não é fundamentalmente ecológica não passa de engodo e desculpa para as depredações humanas, sem poder reivindicar origem divina, já que o homem é apenas um elemento num conjunto que constitui a obra de Deus.

O gênio das florestas, o deus lúbrico e nu

1. A identificação do deus e do homem com a natureza implica a nudez, pois o homem verdadeiro é nu e só a religião hipócrita e farisaica da cidade exige vestimenta, de modo que Shiva, os sábios e os monges shivaítas andam nus e sem apegos, sendo a nudez na Índia sinônimo de liberdade, virtude, verdade e santidade, exigida também pelo Jainismo, conhecida pelos gregos através dos gimnosofistas e imposta aos soldados de Alexandre que quiseram seguir os filósofos indianos, dotada ainda de valor mágico e sagrado, como mostra a prescrição de Hesíodo de semear, lavrar e colher nu.

2. A nudez ritual, amplamente difundida nas religiões antigas, aparece com frequência nas literaturas celtas, como no relato irlandês em que se anuncia que será rei o homem inteiramente nu que percorrer ao fim da noite uma das estradas de Tara levando uma pedra e um estilingue.

3. Dionísio também é representado nu e de cabelos longos, quando não usa o manto monástico cor de açafrão, e, sendo deuses, sábios e homens criados nus, as lendas dos Purânas mostram Shiva como adolescente lúbrico que vagueia nu pela floresta, seduz as esposas dos orgulhosos ascetas que pretendiam conquistar o céu pela força da vontade, humilha-os e, espalhando seu sêmen, faz surgir na terra as pedras preciosas e os lugares santos.

4. Na floresta de Dâru, morada de numerosos sábios, Shiva apareceu sob forma estranha para pôr à prova a fé deles, magnífico, inteiramente nu, adornado apenas com as cinzas que lhe cobriam o corpo, passeando com o sexo na mão e exibindo-se nos jogos mais perversos.

5. O senhor apresentava-se como homem de baixa condição, agitando um tição em chamas, com olhos vermelhos e castanhos, rindo violentamente, cantando de modo surpreendente, dançando lascivamente e gritando, errando em volta das ermidas como mendigo, e, apesar da pele escura, era de surpreendente beleza, seduzindo as mulheres com piscadelas, de modo que aquele que vencera o deus do Amor despertava o desejo apenas por sua beleza, atraindo até as mais castas.

6. Shiva viera por conta própria àqueles bosques para zombar dos habitantes da floresta, e, enquanto algumas esposas dos sábios se assustaram, outras, espantadas e excitadas, aproximaram-se dele, beijando-o, tomando-lhe as mãos e disputando entre si o direito de tocá-lo.

7. Bastava um sorriso seu para que as mulheres abandonassem suas ocupações, arrancassem as roupas, soltassem os cabelos, rolassem pelo chão, se abraçassem e, barrando o caminho de Rudra, lhe fizessem gestos lúbricos diante dos próprios maridos, sem que o senhor dissesse coisa alguma, conduta idêntica à das mênades e ao epíteto de Dionísio Gynaimanes, aquele que enlouquece as mulheres, enquanto os grandes sábios, chegando, escandalizavam-se com os atos obscenos do deus nu e perguntavam quem era ele, sem obter resposta.

8. As palavras indignadas dos sacerdotes e sábios nada podiam contra Rudra, como o brilho das estrelas nada pode contra a luz do sol, e eles o acusavam de ter corpo de mau augúrio, de não ter pudor, morada nem ancestrais conhecidos, de ser nu e malfeito, de andar com espíritos malignos, de ser pobre, de ter como único séquito um touro, de não ter casta nem saber, de trazer veneno na garganta, de usar guirlanda de crânios e de se cobrir com a cinza das piras funerárias.

O Linga, princípio de vida

1. O símbolo de Shiva é o Linga ou falo, órgão misterioso pelo qual o princípio criador se manifesta ao gerar um novo ser e se torna visível numa espécie particular, sendo o sêmen, que contém em potência toda a herança dos ancestrais, chamado bindu, ponto-limite e passagem ínfima entre o não ser e o ser, de modo que o sexo é o órgão de comunicação entre o homem, o animal ou a flor e a força criadora que é a natureza do divino, o próprio tipo do símbolo.

2. Shiva declara não ser distinto do falo, que aproxima dele os fiéis e deve por isso ser venerado, estando ele presente onde quer que haja um sexo ereto, e o mundo inteiro repousa sobre o falo, de onde tudo procede, devendo quem deseja a perfeição da alma venerá-lo como o próprio deus, fonte de todo gozo, sol que gera e sustenta o mundo e símbolo da origem de todas as coisas, pelo qual o princípio masculino se torna reconhecível, razão pela qual os emblemas fálicos e o culto do falo desempenham papel essencial onde quer que o culto de Shiva se tenha difundido.

3. A veneração do falo ocorre no Ocidente mediterrâneo e nórdico desde a pré-história e nos cultos dionisíacos até o século VI d.C., nos templos egípcios, nas cerimônias gregas a Dionísio e nas honras especiais prestadas às partes sexuais de Osíris despedaçado, e a veneração do santo prepúcio ainda praticada na Itália talvez seja um vestígio desse culto.

4. Tudo nos seres vivos, humanos, animais ou vegetais, gira em torno do órgão procriador, sendo o homem apenas o portador do falo, servidor de seu sexo, e a noção de deus-pai, transposição puritana da noção de Linga, designa aquele cujo sexo derrama o sêmen no receptáculo, a arghia ou vagina.

5. Na concepção shivaíta, o prazer é a imagem do estado divino, e, como o divino se manifesta ao mesmo tempo como procriação e como prazer, o órgão sexual tem duplo papel, o inferior de procriar e o superior de servir de contato com o estado divino pelo êxtase do prazer, ânanda, sensação do divino, pois, enquanto a paternidade prende o homem às coisas da terra, o êxtase pode revelar-lhe a realidade divina e conduzi-lo ao desapego e à realização espiritual, sendo o falo a única fonte do prazer terrestre e da salvação, capaz de libertar do ciclo das vidas futuras quem o contempla, toca e medita.

6. Na mística shivaíta, como no orgiasmo dionisíaco, o êxtase erótico não é meio de reprodução, mas pura busca do prazer, devendo o símbolo do Senhor ser venerado independentemente de sua função física, da qual o gerar fica excluído.

7. A união de Shiva com sua amante, Shakti, Pârvatî ou Sati, não é procriadora, sendo os filhos de cada um gerados separadamente, como Skanda, deus da Beleza e chefe do exército dos deuses, nascido do sêmen de Shiva caído na boca do fogo sacrificial e depois nas águas do Ganges, e Ganapati, deus de cabeça de elefante venerado antes de toda empresa e protetor da entrada da casa, formado pela deusa com as raspas de sua pele durante o banho.

8. O Linga é sinal exterior e símbolo, mas existe sob duas formas, o órgão grosseiro exterior e o órgão sutil interior, sendo o primeiro venerado pelas pessoas simples, interessadas em ritos e sacrifícios, e destinado a despertá-las para o conhecimento, enquanto o Linga imaterial, sutil e eterno só é perceptível aos que alcançaram o conhecimento, de modo que quem ainda não tomou consciência do sexo mental deve venerar o sexo físico, e não o contrário.

9. O Linga é venerado como pedra erguida ou sobre a imagem antropomórfica do deus, também representado encerrado no Yoni, órgão feminino, forma sob a qual aparece no santuário do templo shivaíta, significando a palavra simplesmente sinal distintivo, de modo que objetos aparentemente informes em que se sente a presença do deus são considerados Lingas, como a pedra bruta adorada como Eros em Téspias, a pedra negra de Meca, o antigo Makheshvara hindu, e a coluna de gelo da gruta de Amarnath, na Caxemira, venerada como Linga nascido de si mesmo.

10. O Linga assume por vezes a forma de um pilar, presente em todo o mundo, como em Cnossos, Tebas ou Malta, onde o deus era honrado como coluna, correspondendo Orthos, o Ereto, a Dionísio-pilar ou Dionísio-Príapo, Shiva de sexo ereto a Sthanu, Coluna, e Dionísio Perikionios, da coluna, sendo o antigo Xoanon o ídolo-pilar da senhora do Heraion e os pilares minoicos imagens não figurativas da divindade.

11. Agyieus, pilar pontudo ou cônico erguido como altar diante das portas, cujo culto, associado sobretudo mas não exclusivamente a Apolo, deriva da veneração minoica do pilar, junta-se ao Omphalos das moedas cretenses e ao culto anatólio da pedra sagrada e do guardião das portas e caminhos, confirmando a origem oriental de Apolo, e o fato de o epíteto ser também atribuído a Zeus e a Dionísio indica que o culto da pedra erguida é anterior à sua associação com Apolo, assim como nos túmulos etruscos o falo simboliza o homem e a casa, a mulher.

12. Erguer um falo de pedra é ato meritório, realizado de preferência em lugares isolados ou nas montanhas, e os antigos santuários de Shiva, como os de Dionísio, situam-se de preferência fora das cidades.

13. O mesmo vale para os megálitos da Inglaterra, da Bretanha, da Córsega e de todo o mundo que vai da Índia ao Extremo Ocidente, sobre os quais há pouca informação no Ocidente, ao passo que os textos hindus conservam todo o ritual de sua instalação e da orientação dos santuários, de modo que todo estudo das religiões pré-históricas da Europa deveria apoiar-se nos documentos indianos.

14. A significação sexual dos menires é universalmente atestada e a crença em suas virtudes fertilizantes persistia entre os camponeses europeus no início do século XX, tendo o complexo megalítico se difundido provavelmente a partir de um único centro no Mediterrâneo oriental ligado ao Tantrismo, sendo Stonehenge, anterior a cerca de 2100 a.C., pré-micênico.

15. Falos erguidos com rosto encontram-se em todo o mundo ocidental, na Grécia e na Índia, como as pedras fálicas celtas encimadas por cabeça humana ou com rosto gravado na glande, e o rosto de glória, Kîrti-mukha, situado acima do santuário do templo shivaíta, é forma elaborada do mesmo símbolo, de cuja boca, no alto da torre fálica, sai todo o universo.

16. Em certas imagens, uma figura inteira aparece encaixada na coluna fálica, como no gundimallam-linga do sul da Índia, do século II a.C. e ainda venerado, com representações semelhantes até na Europa medieval.

17. Os shivaítas usam ao pescoço um pequeno Linga, como faziam os antigos romanos, dos quais Pompeia conserva muitos exemplares, cada casa indiana venera um Linga de pedra e grandes falos de madeira são levados nas procissões do deus, prática que Heródoto associa à identidade entre Dionísio e Osíris, sob o reinado de Príapo nas falofórias de ambos, com participação de homens e mulheres em cantos eróticos e orgias, e no ciclo agrário de Atenas assavam-se bolos em forma de falo ou de serpente cujos pedaços se misturavam às sementes.

18. Até época recente, camponeses alemães, franceses e italianos assavam bolos fálicos na Páscoa e os levavam solenemente em procissão até a igreja, e em Trani, perto de Nápoles, um grande falo de madeira chamado Santo Membro era levado anualmente em procissão até o século XVIII.

19. Atribuiu-se muitas vezes significação fálica a certos objetos ou animais para mencionar o sexo alegoricamente, segundo princípio semelhante ao que proíbe pronunciar o nome do deus.

20. De 6500 a 2000 a.C., na Europa ocidental, o sexo masculino é identificado ao arado, ao machado, ao punhal, à espada, à semente, ao esperma, à chuva, ao sol, à serpente, ao peixe e à água.

21. Vasos gregos mostram festas com grandes falos em forma de peixe, relação precoce que se tornou universal, e os falos alados da Grécia antiga, ainda presentes no santuário de Delos, assim como as aves fálicas representadas como gansos ou galos, origem do termo cock em inglês, ocupam lugar importante na arte popular europeia, enquanto na linguagem popular italiana o sexo masculino continua a ser chamado uccello, pássaro, ou pesce, peixe.

22. Trata-se de sobrevivências de uma terminologia ritual, pois o homem conserva no corpo lembranças da longa evolução dos seres vivos, sendo sucessivamente peixe, ave e mamífero, o que certos ritos tântricos evocam, sendo o homem peixe nas oferendas de esperma por práticas masturbatórias, ave nos ritos iniciáticos com penetração anal, já que a ave simboliza sempre uma significação esotérica, e touro nos ritos de fecundação e união sexual.

23. O falo traz sorte, afasta o perigo e as forças malfazejas e desempenha papel importante nos ritos de iniciação, atribuindo-se-lhe na Antiguidade egípcia e greco-romana o poder de paralisar ou afastar nos templos as forças obscuras e demoníacas.

24. Os que veneram sempre o Grande Deus sob a forma física do Linga ficam libertos do medo, do nascimento e da morte, e na Índia a imagem do Linga e as representações de acoplamentos sexuais protegem o templo e a casa contra o raio e outras calamidades.

25. Nos países celtas da Europa são frequentes figuras destinadas a conjurar êxito, força e potência sexual, homens de sexo enfático dedicados à caça, ao combate, à magia ou aos esportes, como o Gigante de Cerne Abbas, talhado no giz de uma colina de Dorset, espécie de Hércules celta armado de clava e semelhante ao deus irlandês Dagda, que sobreviveu aos séculos com sexo e testículos enormes, apesar da Igreja, e ao qual os jovens casais ainda recorrem antes do casamento, acreditando-se na região que ter relações no oco do vasto falo traz felicidade.

26. Numerosas referências da literatura europeia sugerem que os órgãos sexuais masculinos possuem poder mágico, sobretudo para evitar toda espécie de perigos e desgraças.

27. Na concepção popular ainda viva nos países mediterrâneos, os homens tocam o sexo para afastar o mau-olhado, e os povos agrícolas plantavam muitas vezes nos campos emblemas realistas ou simbólicos do sexo masculino, como os marcos fálicos de limite que sobreviveram até os tempos modernos no sul da Itália, blocos de pedra de onde saía um falo, às vezes com cabeça humana, chamados Príapo, Hermes, Liber, Tutunus ou Mutunus.

28. Nos textos shivaítas, a abóbada celeste é um imenso falo, o âkâsha linga, repousando sobre a terra, órgão feminino e matriz do mundo, sendo a chuva o sêmen que a fecunda e o relâmpago o orgasmo, simbolismo presente também na religião celta, que vê no céu o macho que umedece e fertiliza a terra fêmea.

29. Segundo a história da Itália de Prometheus, em língua etrusca, citada por Plutarco, um falo apareceu na lareira do rei dos Albanos, que ordenou à filha que se unisse a ele, mas ela enviou a criada, da qual nasceram Rômulo e Remo, abandonados na floresta e amamentados por uma loba, e na mitologia celta o poderoso Fergus mac Roich, filho do Grande Cavalo, representa o princípio masculino, com sexo de sete dedos, unindo-se à soberana divina Medb, a Ébria, de sexualidade sem limites.

30. No Skanda Purâna e no Shiva Purâna, os sábios da floresta, chocados com a aparência e a conduta de Shiva, amaldiçoam-no declarando que seu sexo cairá por terra, e o sexo do deus cai imediatamente, tornando-se um imenso pilar que atravessa e preenche os mundos e queima tudo diante de si.

31. O falo deslocava-se pelos infernos, pelo céu e pela terra sem jamais parar, mergulhando todos os mundos e seus habitantes na angústia e privando deuses e sábios de paz e de prazer, simbolismo ao qual se liga também a emasculação do céu fálico evocada por Hesíodo na Teogonia.

32. Desaparecido Rudra, os sábios recorrem a Brahmâ, que os chama de estúpidos e impotentes por terem destruído num instante todos os méritos de suas austeridades, revelando que o homem de sexo ereto que viram era o próprio Senhor Supremo.

33. Brahmâ ensina que nada de bom poderá acontecer nos três mundos enquanto o falo não for estabilizado e que, para acalmar sua fúria, é preciso aspergi-lo com água santa, construir-lhe um pedestal em forma de vagina e flecha, símbolo da deusa, instalá-lo com preces, oferendas, prostrações, hinos e música e invocá-lo como fonte, origem e forma do universo, e Shiva declara aos sábios que o mundo só reencontrará a paz quando seu sexo encontrar um receptáculo, que somente a Dama da montanha pode agarrá-lo e que, se ela o fizer, ele se acalmará imediatamente.

O hermafrodita (Ardhanarîshvara)

1. Um dos principais aspectos de Shiva é Ardhanarîshvara, o hermafrodita, pois no processo da criação o poder de conceber e o poder de realizar, unidos, manifestam-se primeiro num ponto-limite, o bindu, ponto de partida do espaço-tempo, de onde procede a vibração ou som, nâda, substância do universo, sendo o espaço princípio feminino e receptáculo e o tempo princípio ativo masculino, cuja unidade, simbolizada pelo hermafrodita divino, representa Eros, Kâma, o impulso criador.

2. A divindade primordial é essencialmente bissexual, sendo apenas aparente sua divisão em dois polos opostos que dão origem ao mundo, e o divino é definido nos Upanishads como aquilo em que os contrários coexistem, de modo que a união de Shiva e Shakti é volupté, sua realidade, e sua existência separada não passa de ficção.

3. A realidade do mundo é essencialmente a volúpia, centelha produzida pela união dos contrários, e o hermafrodita, imagem da não divisão dos opostos, representa a volúpia pura, permanente e absoluta que constitui a natureza divina, sendo a bissexualidade divina uma das múltiplas fórmulas da totalidade-unidade expressa pela união dos pares de opostos, masculino e feminino, visível e invisível, céu e terra, luz e trevas, bondade e maldade, criação e destruição.

4. A primeira criação consistiu em espíritos, gênios e demônios saídos da boca do ser incriado como materialização de seu sopro vital, e Rudra surgiu primeiro, luminoso como o sol nascente e andrógino, até que a imensidão lhe ordenou que se dividisse, nascendo de seu lado esquerdo uma deusa que se tornou sua companheira e que mais tarde se encarnaria como filha de Daksha, Sati, sua amante.

5. Para procriar um mundo exterior a si mesma, a divindade se divide e os dois polos se afastam, desaparecendo o estado de felicidade absoluta, que só se recria pela união dos contrários, pelo amor, como o hermafrodita divino que dividiu o corpo em duas metades, macho e fêmea, procriando o macho o universo na fêmea.

6. O princípio inicial pode ser concebido como masculino ou feminino, como deus ou deusa, mas em ambos os casos trata-se de um ser andrógino ou transexual.

7. Segundo a tradição frígia relatada por Pausânias, Papas, ou Zeus, fertilizou uma pedra fálica chamada Agdos, que gerou o hermafrodita Agditis, transformado pelos deuses, após castrá-lo, na deusa Cibele, equivalente de Pârvatî, Dama das montanhas e contraparte feminina de Shiva, e a bissexualidade divina reaparece na Anat cananeia de Ugarit, na deusa etrusca, no hurrita Kumarbi, nos acádios Tiamat e Zarvan e no hitita Teshub, filho de Anu e de uma divindade andrógina, encontrando-se imagens de divindades hermafroditas e itifálicas por toda parte desde o neolítico, como a escultura de madeira achada em Somerset, na Inglaterra.

8. Todos os graus da bissexualidade aparecem nos aspectos do deus, viril em suas formas terríveis e efeminado em seus aspectos felizes e benevolentes, assim como a deusa se mostra viril e agressiva como Bhairavî ou Kâlî, potência destruidora que assume o papel ativo na cópula invertida com Shiva, e feminina, modesta e doce como Pârvatî ou Sati.

9. O mesmo ocorre com Dionísio, representado ora como macho barbado na força da idade, ora como adolescente efeminado, confiado por Zeus, ao nascer de sua coxa, a Ino e Atamante para ser criado como menina, zombado por um rei bárbaro por seu aspecto feminino e apresentado sob a aparência de uma jovem ao advertir as Mínias, absurdamente laboriosas e virtuosas, a não negligenciar seus ritos de iniciação.

10. Num fragmento de Ésquilo, o rei interpela o deus como homem-mulher, arranca-lhe as vestes que simbolizavam sua dupla natureza, o véu açafrão, o cinto e a mitra de ouro, e o deixa nu, não privado de virilidade, mas frágil demais para fazê-la valer, enquanto Héracles, o mais viril dos heróis, troca de roupas com Ônfale, e Arjuna, o valoroso príncipe do Mahâbhârata, disfarça-se de eunuco durante o exílio e ensina música e dança à filha do rei Virata.

11. No mito mencionado por Aristófanes e retomado por Platão no Banquete, os primeiros homens eram andróginos e foram divididos em dois por Zeus como castigo pela revolta, assim como nos Purânas os primeiros homens, sábios próximos do divino, geravam filhos por projeção mental, até que Deus criou a mulher e a reprodução sexual para destruir seu poder ameaçador aos seres celestes, e no Gênesis a criação da mulher a partir de uma costela de Adão implica a androginia do homem original, criado à imagem do hermafrodita divino.

12. Como Shiva, o primeiro homem era homem do lado direito e mulher do lado esquerdo, razão pela qual os ritos tântricos com participação feminina são chamados de mão esquerda, sendo o lado esquerdo o lado fraco, reservado às tarefas humildes ou impuras, de modo que oferecer algo com a mão esquerda é sinal de desprezo, a circum-ambulação da imagem divina se faz no sentido horário e, na magia tântrica que invoca o aspecto feminino, em sentido inverso, e todo ser bissexual, como o andrógino, o homossexual e o travesti, é considerado emanação do aspecto transcendente do deus, ser privilegiado à imagem de Ardhanarîshvara, com papel especial nos ritos mágicos, tântricos e xamânicos, pois o fim do Tantrismo é reunir em seu próprio corpo os princípios polares Shiva e Shakti, e a androginia iniciática, expressa por operações, pelo travestimento ou por práticas homossexuais, traduz a crença de que os neófitos acumulam os dois sexos durante a iniciação.

13. Entre os xamãs, o poder divinatório está ligado à bissexualidade, como no gesto ritual da Anasyrma, em que o mago travestido de mulher ergue as vestes para expor o sexo e aparecer como andrógino, na profetisa etrusca que trazia um falo preso à cintura, nos mistérios de Hércules Vencedor, na Itália, em que deus e iniciados vestiam-se de mulher, e no travestismo do culto romano, destinado a promover saúde, juventude, vigor e longevidade.

14. No xamanismo siberiano, o xamã acumula simbolicamente os dois sexos, comportando-se como mulher, usando roupas femininas e às vezes tomando marido, bissexualidade ou assexualidade ritual tida como sinal de espiritualidade, de comércio com os deuses e espíritos e fonte de poder sagrado, pela qual o xamã restaura simbolicamente a unidade entre céu e terra e assegura a comunicação entre deuses e homens, vivendo-a ritual e extaticamente como condição indispensável para superar a condição profana, à maneira dos xamãs siberianos e indonésios que invertem o comportamento sexual para viver concretamente a androginia ritual.

15. Na Grécia, num rito extremo, os servidores de Átis e de Reia mutilavam-se e depositavam seus órgãos viris diante do altar, pois não se pode tornar-se macho sexualmente adulto sem ter conhecido a coexistência dos dois sexos, isto é, não se acede a um modo de ser particular e determinado sem ter conhecido antes um modo de ser total.

16. O objetivo para o qual deve tender a espécie humana é a reintegração progressiva dos sexos até a androginia, tendendo o ser evoluído à bissexualidade, e, segundo estudos recentes sobre o cérebro, o elemento intuitivo, sensível e receptivo liga-se ao lado esquerdo, feminino, correspondente ao hemisfério direito, e o elemento lógico, ativo, agressivo e masculino ao lado direito, correspondente ao hemisfério esquerdo, sendo a comunicação entre os dois hemisférios particularmente desenvolvida no ser bissexual, o que explica por que o artista criativo, o mago e o médium são com frequência bissexuais, bem como o papel dos chamados invertidos nos ritos mágicos e a importância dos ritos de mão esquerda nas práticas tântricas.

17. O mito do andrógino divino é representado simbolicamente pela Fênix, que gera a si mesma e representa a imortalidade, associada à imagem de Cristo quando o Cristianismo se implanta em Roma, e, quando o universo for reabsorvido, os dois princípios opostos voltarão a ser um só, reconstituindo-se o hermafrodita primeiro nas criaturas e depois na própria divindade.

Vishnu e Apolo

1. Na cosmologia indiana, a força centrífuga de explosão de onde provém o universo chama-se Shiva e a força contrária de coesão, centrípeta, que forma os sistemas solares e os astros, chama-se Shakti, oposição presente em todos os aspectos da matéria e da vida, e no Shivaísmo arianizado, indiano ou micênico, Vishnu-Apolo substitui gradualmente a deusa em época relativamente antiga como representação masculina do princípio que a cosmologia shivaíta concebe como feminino, gracioso e juvenil, por vezes transformado em mulher ou dotado de aspectos terríveis como o homem-leão, encarnando-se para proteger da destruição o mundo e a cidade, princípio conservador inseparável e oposto a Shiva, cujo culto convém à religião da cidade que dissimula suas malversações sob uma piedade sentimental e é o preferido das mulheres e dos comerciantes apegados aos bens materiais.

2. No mundo grego, Apolo aparece como irmão e contraparte de Dionísio, que concentra em si todas as contradições e é a mesma coisa que seu contrário, e os contrastes e relações entre ambos lembram os de Vishnu e Shiva, substituindo Apolo a deusa nos ritos, como mostra a morte da serpente Píton, guardiã do santuário de Delfos, pela qual Apolo se apropriou do oráculo da deusa-terra ligada à deusa minoica, mito que simboliza a passagem de uma representação feminina para uma masculina do princípio de proteção e coesão na religião micênica dominada por deuses masculinos.

3. A oposição e a complementaridade dos cultos de Shiva e de Vishnu, bem como a intercambialidade entre a deusa e Vishnu, aparecem muito cedo tanto no Shivaísmo arianizado quanto na religião creto-micênica, sendo muito antigo o templo de Apolo Pítio em Gortina, em Creta, para onde o culto de Apolo teria vindo da Ásia Menor, atribuindo-se ao deus no mundo grego uma origem lídia.

4. Na ausência de Dionísio, é Apolo quem reina sobre Delfos como senhor do oráculo, e na Grécia o deus masculino Apolo substitui a deusa em numerosos santuários.

5. Orfeu, ministro e, segundo alguns, filho de Apolo, partilha a ambiguidade apolínea e é por vezes considerado homossexual, tendo morrido despedaçado pelas mulheres da Trácia e da Macedônia, que lançaram ao mar os pedaços de seu corpo, por lhes ter vedado os ritos secretos e por ter tomado horror a todo o gênero feminino, e Fanes, criação da poesia órfica, é também deus ao mesmo tempo macho e fêmea, que, segundo Nono, tinha os órgãos sexuais do lado do ânus.

6. Sob a forma de Mohini, a Encantadora, Vishnu retoma o aspecto feminino para seduzir Shiva, que, ferido pelas flechas de Eros ao vê-la, deixa jorrar seu sêmen, recolhido pelos sete sábios numa folha e vertido no ouvido de Anjani, filha de Gautama, que engravida e dá à luz Hanuman, o macaco célebre por sua força e suas façanhas, encarnação de Shiva, e é também sob forma feminina que Vishnu seduz os Titãs e lhes rouba o néctar, privando-os da imortalidade.

7. Segundo o Kanda Purânam tâmil, os eremitas da floresta de Târuka, hostis ao senhor, praticavam austeridades e sacrifícios para conquistar o céu, até que Shiva, assumindo a forma de um belo rapaz nu com tridente e tigela de mendigo, foi até lá com Vishnu transformado em cortesã, e, enquanto os eremitas perdiam toda dignidade seguindo a cortesã, suas esposas, excitadas pelos cantos do mendigo, deixavam cair as vestes e os braceletes e perdiam a castidade, até que, reconhecendo em ambos Shiva e Vishnu, os eremitas repreenderam as mulheres e tentaram matar o deus com sacrifícios dos quais saíram um tigre, cuja pele Shiva tomou por vestimenta, um tridente, um antílope, serpentes que se tornaram seus adornos, uma horda de demônios que ele converteu em seu exército, uma caveira que pôs nos cabelos, uma trompa nascida das fórmulas mágicas que guardou na mão e, por fim, o fogo e o gênio Muyalakan, a Epilepsia, que o deus dominou, pondo-se de pé sobre suas costas.

8. As maldições dos eremitas contra Shiva foram ineficazes, e o deus dançou sobre Muyalakan esmagado, fazendo tremer todo o universo, até que, cessada a dança, os eremitas de Târuka se prostraram a seus pés, cantaram seus louvores e receberam a ordem de observar os ritos de seu culto e prosseguir sua vida austera, após o que o deus voltou para sua montanha branca coberta de neve.

9. Em outra passagem do Kanda Purânam, Shiva, querendo mostrar que Vishnu era apenas uma de suas quatro esposas, aproximou-se dele, que repousava como Mohini junto ao oceano de leite, e manifestou o desejo de unir-se a ele, e, diante da recusa da mulher ilusória, que alegava ser infecunda a união entre pessoas do mesmo sexo, o senhor lembrou que Vishnu era apenas a encarnação de um de seus poderes, razão pela qual já pudera dar à luz Brahmâ e assumir forma feminina na floresta de Târuka.

10. Diante da obstinação de Vishnu, o senhor tomou-o nos braços, levou-o à sombra de uma árvore à beira-mar, ao norte do continente do Jambeiro, e uniu-se a ele, ainda sob a forma da Encantadora, transformando-se a seiva que derramaram num rio chamado Ganges e nascendo dessa união um menino de corpo negro e cabelos ruivos, com um ramalhete na mão, chamado Filho de Shiva-Vishnu, Arikaraputtiran, a quem o deus de três olhos concedeu vários dons e a soberania de um dos mundos, e diante do qual Indra, rei do céu, se prostrou quando ele apareceu montado num elefante branco e cercado pelos companheiros de Shiva.

11. No fim do mundo, Vishnu adormece, a força de coesão deixa de agir e o universo, do átomo às galáxias, se dissolve.

O deus dos humildes

1. Shiva, deus das populações pré-arianas, continuou sendo sua divindade preferida mesmo depois de sua submissão e rebaixamento à condição de castas artesanais num mundo dominado pelos invasores arianos, sendo invocado no Hino aos Cem Rudras do Yajur Veda como patrono dos artesãos, carreteiros, carpinteiros, ferreiros, oleiros, caçadores, aguadeiros e florestais, deus dos soldados, mercenários e intrépidos condutores de carros, chefe dos ladrões e saqueadores, como também Skanda, deus dos ladrões a quem se atribui um tratado sobre a arte de roubar, e deus dos vrâtyas, ascetas mendicantes e errantes.

2. No Shivaísmo, a transcendência em relação às normas da vida ordinária traduz-se no plano popular pela figura de Shiva como deus ou patrono dos que não levam vida normal e até dos fora da lei.

3. Sendo deus dos humildes, Shiva dirige seus ensinamentos a todos os homens, e os textos bramânicos o censuram por ter revelado às classes populares os segredos da mitologia, os ritos e os conhecimentos mais elevados e por lhes ter aberto as vias da iniciação, mencionando o Shatapatha Brâhmana os shudras como participantes dos sacrifícios de Shiva e do soma, licor sagrado assimilado ao sêmen do deus, e ainda hoje, nos principais santuários shivaítas, o culto é celebrado alternadamente por sacerdotes brâmanes arianos e sacerdotes-operários shudras, como no país marata, onde a função cabe à casta Gurava, de origem shudra, prova da sobrevivência de um sacerdócio não ariano após quatro milênios de dominação ariana, cujas tradições permanecem mal conhecidas e sem estudo moderno.

4. As festas de Shiva são sempre festas dos humildes, como o Holi, festa da primavera correspondente às Dionisíacas e da qual os carnavais são sobrevivência, em que artesãos e servidores têm o direito de insultar e maltratar patrões, nobres e sacerdotes com injúrias e obscenidades, à maneira dos Ganas, companheiros turbulentos de Shiva, diante dos deuses, dos sábios e dos brâmanes.

O curador

1. Rudra-Shiva, deus do mundo vegetal, conhece todos os remédios e é descrito no Rig Veda como o maior dos médicos, dispondo dos venenos sem temê-los, como mostra o batimento do oceano cósmico por deuses e Titãs, do qual saíram o néctar e o veneno, este bebido por Shiva para proteger o mundo e retido em sua garganta, que se tornou azul, valendo-lhe o nome de deus de pescoço azul, pois a medicina cura pelo uso prudente dos venenos e a serpente, portadora dos mais violentos, forma o colar de Shiva, aspecto que reaparece em Asclépio, cujo culto, importante em Creta, tem na serpente uma companheira constante que remete ao antigo culto minoico das serpentes, e cujas curas milagrosas fizeram dele, no fim do paganismo, o principal adversário de Cristo.

2. O culto da deusa-serpente é tratado mais adiante.

3. O caduceu de Mercúrio, envolto por duas serpentes, é o emblema do corpo de saúde.

O soberano das direções do espaço

1. Shiva é o soberano do universo, e seus diferentes aspectos estão ligados às divindades que regem as direções do espaço, dotadas de simbolismo importante e de ação direta sobre a vida, simbolismo encontrado em Creta, no Egito, nas culturas megalíticas, nas religiões grega e romana e até na Idade Média cristã, essencial para a orientação dos santuários, as posturas de Yoga e a posição dos participantes nas cerimônias rituais.

2. O Atharva Veda e os Brâhmanas mencionam os aspectos do deus que regem as direções do espaço.

3. Como Bhava, a Origem das coisas, Shiva rege o Leste, via da beleza e do sol, e protege os vrâtyas, os humildes, errantes, excomungados e excluídos.

4. Como Sharva, o Arqueiro, rege o Sul, via da morte e dos ancestrais, sendo soberano dos fantasmas e rei dos mundos infernais.

5. Como Pashupati, senhor dos animais, rege o Oeste, direção da noite, da magia e das águas celestes, sendo deus das florestas.

6. Como Ugra, o Terrível, rege o Norte, via lunar onde se encontra a taça inebriante do soma, sendo deus da embriaguez e do vinho.

7. Como Rudra, senhor das lágrimas, ou Agni, o Fogo, rege o mundo inferior, mundo dos Titãs e dos demônios.

8. Como Ishâna, o soberano supremo, rege a abóbada do céu e dos deuses, sendo o deus do Amor.

9. Rudra, o Uivador, Sharva, o Arqueiro, Ugra, o Terrível, e Asani, o Raio, são os aspectos destruidores de Shiva, enquanto Bhava, o Princípio, Pashupati, o senhor dos animais, Mahâdeva, o Grande Deus, e Ishâna, o soberano, são seus aspectos benevolentes.

10. A orientação dos participantes nos ritos é importante, e em toda arquitetura, seja de santuários, templos, casas particulares ou plano das cidades, deve ser estritamente observada, abrindo-se sempre para o leste os templos dedicados aos aspectos benéficos dos deuses, enquanto a via do Oeste é a dos ritos mágicos e a do Sul a dos mortos e dos túmulos, como a Via Ápia em Roma, determinando a orientação até a destinação dos cômodos da casa, com o quarto do amor, sob o signo de Ishâna, o Zênite, construído no alto, sobre os terraços.

11. Para a prática do Yoga e dos ritos benéficos deve-se sempre estar voltado para o leste, regra observada nos santuários cristãos até o fim da Idade Média, de modo que a recente inversão da posição do sacerdote durante a missa deveria, em princípio, tornar o rito maléfico.

O deus da morte

1. Tudo o que nasce deve morrer, de modo que o princípio da vida está associado ao tempo, isto é, ao princípio da morte, sendo o deus criador também destruidor e alimentando-se a vida da morte, pois nada vive senão destruindo e devorando outras vidas, razão pela qual Shiva possui um aspecto aterrador, Bhairava, sendo chamado Kâla ou Cronos, o Tempo, ou Rudra, senhor das lágrimas, e, por eufemismo, Aghora, o Não Terrível, descrito com três olhos, coroa de serpente, ricas joias, rosto coberto pela cinza das piras, cercado de fantasmas, gnomos, espíritos malignos, feiticeiras e demônios, vestido de pele de elefante, adornado de serpentes e escorpiões, com voz de trovão, semelhante a uma montanha de colírio azul, com pele de leão ao ombro, cuja imagem se instala junto às piras funerárias e nos cemitérios.

2. Membros de certas seitas de monges errantes shivaítas, imitando o deus, vivem nus, com o corpo coberto de cinza e os cabelos desgrenhados descoloridos com cal, meditando nos locais de cremação, pois Shiva destrói não apenas o céu e a terra no fim do ciclo, mas as cadeias que prendem cada alma, e o verdadeiro local de cremação é o coração dos fiéis reduzido a deserto, onde o ego é destruído e a ilusão e as ações se reduzem a cinzas, lugar em que dança o Natarâja.

3. Shiva é Mahâkâla, o Tempo do tempo, o Grande Destruidor, venerado sobretudo sob o aspecto de sua energia manifestada, Kâlî, a Potência do tempo, deusa terrível, sempre presente junto às piras e soberano do mundo subterrâneo dos mortos, assim como Dionísio, divindade ctônica que se manifesta no período invernal ou quando retornam as almas dos mortos, a quem convinha o sepulcro presente nos santuários de um deus que tem horror ao contato com a morte, reinando sobre a noite, já que de dia o sol se chama Apolo e de noite Dionísio, e como Osíris, que também reina sobre o mundo dos mortos.

4. Dionísio é nyktipolos, rondador noturno, assim como Shiva é chamado Nishichâra, o que ronda à noite, segurando uma cabeça cortada e trazendo um colar de crânios.

As cinzas e a veste cor de açafrão

1. A cinza, sobretudo a das piras funerárias, representa o que resta de um mundo destruído, e só Shiva existe além da morte, vestido e coberto de cinzas, das quais renascerá um mundo novo, pois toda vida nova nasce de uma vida destruída, e, sendo seu sêmen e sua força criadora nutridos pela cinza da morte, a cinza protege no perigo e no sono, e quem se purifica esfregando-se com ela e domina a violência e os impulsos dos sentidos não recua depois de se aproximar do deus.

2. Os fiéis cobrem o corpo de cinzas como sinal de desapego, pois para eles o mundo ilusório das aparências já está destruído, usando por vezes um unguento branco que simboliza a cinza, como no Catharmos grego, purificação que consistia em friccionar o corpo do iniciado com argila e farinha, confirmada pela recepção de um novo discípulo por Sócrates em Aristófanes, e na Índia os atores que representam o deus nas procissões shivaítas cobrem o corpo de gesso ou de cinzas, sendo o uso da cinza das piras próprio apenas de seitas extremistas relativamente recentes, já que antigamente os shivaítas não cremavam seus mortos.

3. Na Índia, como no mundo celta, a cor do luto é o açafrão, cor das vestes dos monges shivaítas quando não estão nus, prática retomada pelos monges budistas e cor atribuída também ao manto de Dionísio, e, quando o negro se tornou a cor do luto entre os cristãos, os padres passaram a usar a batina negra, por serem, do ponto de vista do mundo, mortos-vivos.

4. O açafrão ou ocre é a cor sagrada de Shiva, e a prática muito difundida de untar adeptos ou pessoas com ocre vermelho simboliza a renovação da vida, como mostram os ossos dos mortos untados de ocre vermelho nos túmulos do paleolítico superior.

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