1.5 Ficino
HANEGRAAFF, Wouter J. Esotericism and the Academy: Rejected Knowledge in Western Culture. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.
O Teólogo Platônico: Marsilio Ficino
1. A lenda segundo a qual Cosimo de Médici, inspirado por Pletão, teria refundado a Academia de Platão em Florença confiando a Marsilio Ficino, filho de seu médico, o aprendizado do grego, um manuscrito dos diálogos platônicos e a villa de Careggi, repetida por quase todos os estudiosos até 1990, foi então desmascarada por James Hankins como típica ficção mnemo-histórica.
2. Outra história atraente narra a chegada a Florença, em 1462, de um manuscrito do “Corpus Hermeticum” trazido de Bizâncio, cuja tradução Cosimo ordenou a Ficino antes da de Platão, por ser Hermes a fonte mais antiga e autorizada, publicada em 1471 como “Pimander” e considerada por Frances Yates o início da “tradição hermética” do Renascimento, embora seja mais adequado compreender o hermetismo renascentista não como tradição autônoma de magia hermética, mas como dimensão importante da história mais geral do orientalismo platônico.
3. A ficção da Academia florentina não diminui a importância do renascimento platônico nem a centralidade de Ficino, mas compreender a voga de Platão e Hermes exige reconhecer que, na perspectiva orientalista, nem eles nem os demais sábios antigos eram vistos como filósofos autônomos e originais, e sim como porta-vozes inspirados de uma sabedoria antiga, intemporal e universal cujo autor era Deus, ponto que contraria os pressupostos mais básicos da história moderna da filosofia.
4. Na imaginação mística e poética de Ficino, a transmissão da sabedoria de Bizâncio a Florença não se reduzia a contingências históricas, mas manifestava influências espirituais e sincronicidades guiadas pela Providência, embora historicamente se possa rastrear a influência limitada mas específica de Pletão sobre ele, cujo manuscrito possuía e anotava e cujos Oráculos Caldeus e comentários se refletem sobretudo na “Teologia Platônica”.
5. O entusiasmo juvenil de Ficino pela filosofia platônica, anterior ao domínio do grego, baseou-se em autores latinos como Agostinho, Macróbio, Calcídio e Apuleio, que apresentavam Platão como filósofo religioso, e seu fervor pelos sábios antigos e pela poesia pagã alarmou seus mentores, como mostram os diálogos de Lorenzo Pisano, as advertências de Antonio degli Agli para que abandonasse Platão e a censura de Bartolomeo Scala aos tolos que filosofam com os pagãos.
6. Na maturidade, Ficino parece ter lamentado seus excessos juvenis, contando ter caído numa heresia perniciosa da qual o salvou o arcebispo Antonino ao recomendar-lhe a “Suma contra os Gentios” de Tomás de Aquino, e confessando, numa carta a Martinus Uranius, sua relutância em publicar as traduções juvenis de Orfeu, Homero, Proclo e Hesíodo para não parecer querer restaurar o culto antigo dos deuses e demônios, justamente condenado.
7. Ao contrário de Pletão, Ficino via na poesia uma fonte genuína de revelação, seguindo Petrarca e Boccaccio na convicção de que os antigos teólogos haviam sido poetas que falavam das coisas divinas sob o véu da fábula mitológica, concepção de teologia poética que tinha em Orfeu e Moisés seus principais representantes.
8. A conciliação entre a primazia da sabedoria antiga e a superioridade do cristianismo, bem como a primazia de Moisés, parece ter preocupado pouco Ficino, que no “Pimander” de 1463 apresentou uma genealogia de seis antigos teólogos, Hermes, Orfeu, Aglaofemo, Pitágoras, Filolau e Platão, mencionando sem tomar partido a opinião de Agostinho sobre a posterioridade de Hermes em relação a Moisés, até que a partir de 1464, inspirado por Pletão e pelos Magos adoradores de Cristo, passou a colocar Zoroastro como o mais antigo, antes de Hermes e de Moisés, e a sugerir que Abraão levara a sabedoria zoroastriana ao sair de Ur dos Caldeus.
9. A primazia atribuída a Zoroastro, chefe dos Magos e suposto autor dos Oráculos Caldeus, tornou natural a equivalência entre sabedoria antiga e magia, convertendo a prisca theologia numa prisca magia, implicação que Ficino evitou explicitar, mas que Giovanni Pico della Mirandola formulou sem ambiguidade ao ligar a magia pitagórica à tradição mosaica e ao identificar a magia de Zoroastro com o culto de Deus e a investigação das virtudes da natureza, chamada por uns teurgia e por outros Cabala ou magia.
10. A Cabala surge assim como mais um equivalente da sabedoria antiga, revelando-se a facilidade com que esta se transformava em prisca magia ao ser atribuída a Zoroastro como sua autoridade mais antiga.
11. A importância atribuída por Ficino às fontes pagãs continuou a inquietar seus contemporâneos, como Johannes Pannonius, que não compreendia como um renascimento da teologia não cristã dos antigos poderia servir à Providência, ao que Ficino respondeu com uma síntese madura baseada em três pontos, o progresso religioso por educação divina, a ocultação e purificação e a distinção entre filosofia e religião.
12. O primeiro ponto reformula a perspectiva educativa da pia philosophia dos apologistas, sobretudo Eusébio, segundo a qual os antigos, anteriores a Cristo, não podiam alcançar a verdade cristã suprema, mas eram guiados por Deus em direção a ela por uma inspiração atuante em todas as épocas e povos, descrita por metáforas de geração e crescimento.
13. Essa filosofia piedosa nasceu entre os persas com Zoroastro e entre os egípcios com Mercúrio, em mútuo acordo, foi nutrida entre os trácios por Orfeu e Aglaofemo, atingiu a juventude entre gregos e italianos com Pitágoras e amadureceu em Atenas com o divino Platão.
14. Os antigos teólogos ocultaram os mistérios divinos sob o simbolismo numérico e a fábula poética, só desvelados por Plotino sob influência divina, cuja obra difícil Ficino se julgava destinado por Deus a traduzir e comentar, de modo que a verdadeira sabedoria, libertada da mitologia pagã e superior às fábulas escolásticas e às opiniões peripatéticas destruidoras da religião, conduziria à reforma do cristianismo que a simples pregação da fé não bastaria para realizar, deixando em segundo plano, quanto ao período anterior a Platão, a preocupação genealógica em favor de uma metafísica intemporal em que todos os antigos dependiam diretamente da inspiração divina e não de Zoroastro.
15. O desenvolvimento da sabedoria após Platão e os profetas foi pensado historicamente, pois, à unidade infalível da inspiração, seguiu-se a multiplicidade das interpretações humanas, verdadeiras ou falsas, numa sucessão de velamentos e desvelamentos em que judeus e gentios caíram na ignorância e superstição, as academias pós-platônicas falsificaram a tradição e a verdade sobreviveu apenas nas escolas de Xenócrates e Amônio Sacas e entre sibilas, sacerdotes e poetas inspirados.
16. Após esse declínio, a verdadeira sabedoria foi restaurada em forma superior com Cristo e codificada por Paulo, João e Dionísio Areopagita, voltando a velar-se por uma calamidade na Igreja que ocultou os livros de Dionísio, até ser recuperada pelos platônicos sob influência cristã.
17. Os platônicos usaram a luz divina dos cristãos para interpretar Platão, e os principais mistérios de Numênio, Fílon, Plotino, Jâmblico e Proclo sobre a mente divina, os anjos e a teologia foram recebidos de João, Paulo, Hieroteu e Dionísio, como já sustentavam Basílio e Agostinho.
18. Sobre essas bases os Padres da Igreja, sobretudo Agostinho, restabeleceram a religião antiga em sua forma cristã superior, novamente velada nos séculos seguintes pelo extravio dos platônicos tardios e pelo domínio peripatético no cristianismo, e agora trazida de novo à luz pela Providência por meio da obra de Ficino.
19. A história da religião de Ficino apresenta, assim, três períodos sucessivos de declínio seguidos de três restaurações da sabedoria universal.
20. Essa perspectiva difere profundamente do projeto de Pletão de restaurar o paganismo helenístico contra o cristianismo, pois Ficino estava sinceramente convicto de que o cristianismo era a manifestação suprema da sabedoria antiga, de modo que restaurar esta não era criar uma alternativa pagã, mas resgatar o verdadeiro cristianismo da degeneração e da heresia.
21. O programa ficiniano de uma religião que transcende quase todas as religiões particulares não deve ser confundido com pluralismo, sincretismo, irenismo ou ecumenismo, pois Ficino procura demonstrar apologeticamente que a única religião verdadeira é a cristã.
22. Ficino seguia os passos dos primeiros apologistas e de Agostinho, mas num contexto novo, o de um renascimento de fontes pagãs desconhecidas a serviço da reforma cristã, julgando viver o início de uma nova era em que, após as trevas medievais, retornava a Idade de Ouro com Florença por centro e ele mesmo como instrumento escolhido pela Providência.
23. O cristianismo reformado sonhado por Ficino não se concretizou, sendo superado vinte anos após sua morte por uma reforma eclesiástica muito diversa, mas suas traduções, comentários e escritos fundaram uma corrente não institucional de especulação religiosa que atravessa os séculos XVI e XVII, mal designada como platonismo renascentista, em que Platão serve de rótulo genérico para um complexo de práticas e especulações herdadas da Antiguidade tardia, o orientalismo platônico, convertido no corpus referencial básico do esoterismo ocidental, que abrangeria as tradições místicas, teúrgicas, mágicas, aritmológicas, astrológicas e alquímicas associadas a Zoroastro, Hermes, Pitágoras e Platão e ainda uma corrente especialmente apta a afirmar a primazia de Moisés, a Cabala.
