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Espiritualidade hermética

HANEGRAAFF, Wouter Jacobus. Hermetic spirituality and the historical imagination: altered states of knowledge in late antiquity. Cambridge New York (N.Y.): Cambridge University Press, 2022.

Prólogo

1. Espiritualidade hermética

  • Conhecer o incognoscível
  • Filosofia contra o Egito
  • A virada espiritual

2. Coração das trevas

  • Thessalos em Tebas
  • A luz da divindade
  • Em direção à luz
  • Práticas experienciais privadas

3. A presença dos deuses

  • Vozes distantes
  • A religião do mundo
  • Deuses terrestres
  • A era das trevas

4. Filhos de Hermes

  • Reunindo-se em privado
  • Matéria e alma
  • A economia divina
  • Encarnação profunda
  • Deuses em ação
  • Gnōsis inata e sons poderosos

5. Por um espelho, obscuramente

  • À mercê dos escribas
  • Hermetica e hermenêutica
  • Estranheza no centro

6. Curando a alma

  • Ignorância
  • Iluminação
  • A história da humanidade
  • O missionário

7. O caminho da reverência

  • A beleza da bondade e da verdade
  • Reverência e assombro
  • Psicologia hermética
  • O terceiro tipo

8. Tornando-se vivo

  • O caminho de Hermes
  • Loucura espiritual
  • Nascido de novo
  • Gratidão

9. A fonte

  • O Silencioso
  • Dimensões da vida
  • Para além do renascimento
  • O cosmos ressoante
  • Para além das estrelas

10. A conquista do tempo

  • A droga
  • A inscrição
  • Disseminação
  • Transmissão
  • O segredo de Thoth

Epílogo


Prólogo

1. O objeto do estudo é a busca do conhecimento como experiência de estar em contato com a realidade tal como ela é, a partir de textos antigos que pretendem revelar a natureza da realidade e um caminho de libertação da ilusão mental, chamando esse saber de gnose e declarando-o inexprimível, embora o façam por meio da linguagem, o que suscita as questões de saber se os estudiosos podem dizer a verdade sobre verdades além da erudição, se a verdade só pode ser experimentada e se há outros modos de conhecer além da razão e dos sentidos.

2. Sem pretender responder a essas questões filosóficas, o projeto tem objetivos mais modestos, embora ambiciosos, propondo, num primeiro nível, mudar a narrativa sobre a literatura hermética do Egito romano e, num segundo nível, examinar a imaginação histórica e o poder das narrativas, pois a linguagem nunca é mero instrumento de comunicação, mas também meio de encantamento pelo qual autores herméticos, estudiosos e o próprio intérprete procuram enfeitiçar seus leitores e conduzi-los a sua própria versão, aqui a de que uma história melhor é possível e necessária.

3. A relevância desse estudo numa cultura midiática de velocidade e gratificação instantânea reside precisamente em seu ensinamento sobre o feitiço dos phantasmata, fluxo descontrolado de imagens mentais carregadas de emoção que domina a vida consciente e inconsciente, o que põe em questão a confiança no próprio pensamento e no juízo racional quando não se controla a própria mente, pois a consciência humana é fluida e alterável e o que se tem por verdadeiro depende da direção da atenção, de modo que alterações de consciência produzem estados alterados de conhecimento.

4. Os praticantes herméticos acreditavam poder transcender o horizonte da consciência humana até estados de conhecimento absoluto, a gnose, e teriam visto todo saber erudito como produto de uma consciência inferior, reduzida e pouco confiável, ceticismo ao qual seria fácil responder, como fez a maioria dos estudiosos, invertendo o argumento e tratando a gnose como ilusão irracional, o que equivaleria a descartar a convicção central dos herméticos e a supor que só a consciência sóbria da erudição alcança o verdadeiro conhecimento.

5. Essa suposição é recusada em favor de um agnosticismo metodológico radical que não afirma nem nega a verdade última das crenças herméticas, considerando a gnose inverificável e irrefutável, não por indiferença, mas por convicção sobre os limites do conhecimento humano, pois os autores herméticos afirmavam ter alcançado experiências de nous divino, exorcismo do corpo, renascimento da alma e realidade não dual que transformaram suas vidas, sem que se possa saber se as inventaram, se se iludiram ou se as viveram de fato, nem pretender, mesmo admitindo que as viveram, um saber superior capaz de explicá-las.

6. Os autores herméticos deixaram textos fascinantes sobre suas crenças, práticas e experiências, cuja compreensão é a tarefa do estudioso, o que conduz ao problema da linguagem e da tradução, isto é, ao que significa pôr algo em palavras, descrever uma experiência como indizível, transmitir por escrito o que se quer dizer ou evitar a perda do sentido na tradução, questões da hermenêutica que o discurso hermético da gnose e da noēsis, percepção direta da realidade última, impõe como aporias inevitáveis da compreensão humana.

7. O estudo entrelaça cinco fios, a hermenêutica, ligada a uma visão das humanidades, o empirismo radical e o agnosticismo metodológico, próprios de um estudo da religião nem religionista nem reducionista, a imaginação histórica e o poder das narrativas, prolongamento da concepção do esoterismo ocidental como produto imaginal reificado de dinâmicas discursivas em que as tradições acadêmicas dominantes definem sua identidade contra a categoria residual do conhecimento rejeitado, a consciência, oriunda dos trabalhos sobre o esoterismo enteogênico e as alterações de consciência como dimensão negligenciada da religião, e o fascínio pela tradição hermética, agora estudada não em seu renascimento renascentista, mas em suas fontes no Egito romano.

8. Quanto à teoria e ao método, adota-se o princípio de mostrar em vez de explicar, deixando as cinco dimensões desdobrar-se gradualmente ao longo dos capítulos como personagens de um romance, numa escrita narrativa linear que exige do leitor descobrir os segredos passo a passo e talvez reler a obra para reunir seus fios, segundo uma circularidade hermenêutica em que o todo se constrói pelas partes e as partes só se compreendem pelo todo.

9. A abordagem difere da habitual entre especialistas da Antiguidade tardia, mais interessados na genealogia histórica e comparativa dos elementos do que no sentido dos textos, método que produziu comentários preciosos, mas arrisca graves equívocos, como ilustraria uma historiadora do futuro que, ao estudar a “cura quântica” de Deepak Chopra, a situasse na história da física quântica e o censurasse por mal compreendê-la, em vez de perguntar o que a expressão significava em seu próprio discurso.

10. Uma abordagem histórica adequada deve começar pelo estudo das fontes primárias em seus próprios termos, pois só compreendendo o que seus autores queriam dizer se podem determinar as trajetórias históricas e os contextos de comparação pertinentes, como no caso do nous, termo comum da filosofia grega que, em vez de ser traduzido segundo os dicionários como mente ou intelecto, deve ser compreendido segundo o sentido surpreendente que lhe davam os herméticos, o que pode levar a reconsiderar as traduções padrão e os pressupostos sobre a mente na filosofia antiga.

11. Os estudiosos tendem, como todos, a explicar o desconhecido pelo conhecido, o que tem efeitos conservadores na pesquisa ao privilegiar as concepções convencionais e cegar para o que não se ajusta aos paradigmas estabelecidos, razão pela qual se adota a abordagem oposta, centrada na diferença, que procura compreender o estranho e deixar que ele desfamiliarize o saber erudito, produzindo estados alterados de conhecimento, pois só depois de compreender o que dizem os tratados herméticos se pode saber com que compará-los e onde buscar suas origens.

12. O objeto do estudo não é a “tradição hermética”, construto erudito de validade duvidosa, nem a “literatura hermética”, conjunto de textos díspares unidos apenas pela referência a Hermes, mas a “espiritualidade hermética”, que exige uma nova categorização dos materiais, organizando-se a obra em capítulos sobre essa categoria, sobre o Egito romano e a importância das experiências espirituais privadas, sobre a visão de mundo do “Logos Teleios” e suas traduções latina e copta, sobre os únicos praticantes herméticos conhecidos pelo nome, Zósimo, Teosebeia e Jâmblico, e sobre os problemas de transmissão textual e as estratégias de reconstrução e interpretação.

13. A segunda metade da obra mergulha nos textos, tratando do “Poimandres” e da cura da alma contaminada pelas paixões, da reverência como abertura do coração à beleza divina e do tornar-se o aiōn do CH XI, do renascimento narrado no CH XIII, em que Tat é libertado das potências das trevas, da experiência hipercósmica da Ogdóade, da Enéade e da Fonte suprema e, por fim, da transmissão dessas experiências pela linguagem e da arte da hermēneia, interpretação ou compreensão que deriva seu nome de Hermes.

14. A espiritualidade hermética era um caminho alegre que celebrava a vida e a luz, destinado a curar a alma da negatividade, libertá-la do medo e da agressão e abrir seus olhos para a beleza da existência, voltado não para a dominação, mas para o conhecimento como compreensão, espírito positivo e entusiasta no qual a obra é oferecida aos leitores.

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