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Coisas não faladas

Hidden Intercourse. Eros and Sexuality in the History of Western Esotericism

Introdução: Coisas das Quais Não Falamos

1. O estudo acadêmico do esoterismo ocidental passou rapidamente de especialidade obscura de poucos pesquisadores a campo profissional florescente, com organizações internacionais, periódicos, monografias e congressos, tornando-se tema crescente de discussão pública e crítica, do qual esta coletânea é um dos frutos.

2. As conexões entre o esoterismo ocidental e os domínios do eros e da sexualidade, entendidos de modo muito mais amplo que o sexo, já foram reconhecidas, sobretudo pelos praticantes, mas faltam análises eruditas sobre como e por que esses domínios se entrelaçam tão intimamente e sobre a relação entre a história da sexualidade e a do esoterismo no Ocidente, campo novo, rico e provocador no qual cabe apenas apontar os frutos maduros e esperar que os leitores comecem a colhê-los, embora suas verdades sejam difíceis de apreender por razões intelectuais, linguísticas, políticas, históricas e sociais.

3. O esoterismo e o eros foram ambos objeto de censura, supressão, ocultação e silêncio educado, reprimidos e tornados “ocultos”, e, como Pã, deus grego da fertilidade transformado pela imaginação cristã no Diabo chifrudo de pés fendidos, o reprimido sempre retorna como algo sombrio, sujo e demoníaco, como aquilo de que não se deve falar.

4. Para compreender essa repressão, distinguem-se cinco categorias de “coisas das quais não falamos”, ligadas ao segredo, ao tabu, à ocultação, à intimidade e à inefabilidade, cada uma com seu campo semiótico e suas conotações, cujo exame permite também apresentar os ensaios da coletânea.

Segredos e Rumores

1. O termo esoterismo foi frequentemente entendido como segredos reservados a uma elite e associado à iniciação em sabedorias ocultas em cultos de mistério ou sociedades secretas, segundo a ideia de que certos conhecimentos não devem ser divulgados à multidão por serem profundos, complexos ou chocantes demais para ela, perigosos, como técnicas de poder oculto ou verdades sobre o que realmente se passa na história, capazes de ameaçar a ordem social, ou sagrados demais para serem lançados aos porcos.

2. A exigência de segredo intensifica-se quando as verdades esotéricas se associam à sexualidade, dado o risco particular de incompreensão e profanação, sendo o sexo o segredo por excelência, o que explica a associação dos dois domínios na imaginação social mesmo sem ligação histórica efetiva e a suspeita de que tudo o que se esconde cuidadosamente deve ser escandaloso e obsceno, havendo na coletânea exemplos de ensinamentos sexuais secretos e de ensinamentos secretos tidos por sexuais, dos borboritas e valentinianos às comunidades utópicas, às técnicas e rituais sexuais e às ordens de magia sexual, nos quais as suspeitas, embora exageradas pela polêmica, se revelaram muitas vezes mais ou menos corretas.

Tabu e Transgressão

1. Diferentemente do esoterismo entendido como segredo, a terminologia do esoterismo ocidental adotada desde os anos 1990 designa um conceito guarda-chuva que abrange correntes históricas e ideias inter-relacionadas presentes na cultura ocidental da Antiguidade tardia até hoje, que não incluem necessariamente uma dimensão de segredo.

2. Até muito recentemente, a maioria das correntes do esoterismo ocidental pertencia às coisas das quais não se fala, não por segredo, mas pelo poder do tabu no próprio discurso acadêmico, que via o oculto como área proibida e indigna, levando os estudiosos que dele se ocupavam a ser suspeitos de agendas não eruditas, suspeitas muitas vezes justificadas, mas cujo efeito foi desencorajar também a pesquisa neutra, crítica e histórica e produzir uma grave falta de competência sobre dimensões importantes da herança ocidental, que o estudo moderno do esoterismo procura corrigir falando do que não se fala.

3. A discussão aberta e crítica do erotismo e da sexualidade também foi tabu na pesquisa até o século XX, situação transformada pela psicanálise, pela revolução sexual da contracultura dos anos 1960, termo cunhado por Wilhelm Reich, pelo movimento feminista e pela crítica de gênero e pelo movimento gay e os estudos sobre orientação sexual e religião, tornando-se hoje normal e incontroversa a atenção acadêmica ao eros na religião e na cultura nas sociedades ocidentais liberais, embora ainda tabu em muitas outras partes do mundo.

4. As dimensões sexuais e eróticas do esoterismo ocidental não surpreendem, sendo onipresentes na história da religião por serem os corpos sempre sexuados, mas há razões para supor uma afinidade eletiva entre esoterismo e erotismo, sugerida pela análise de Elliot Wolfson sobre a natureza erótica do segredo e a natureza secreta do eros na Cabala, pela de Lawrence Principe sobre o simbolismo sexual na alquimia como resultado da necessidade pré-moderna de explicar e ocultar e pela de Allison Coudert sobre o discurso demonológico que associava curiosidade feminina e promiscuidade para preservar as polaridades de gênero.

5. Muitas figuras estudadas acreditavam que nas profundezas da sexualidade se oculta o segredo da religião, do ocultismo, do poder mágico, da espiritualidade, da transcendência, da vida, de Deus e do próprio Ser, conexão não metafórica, mas cósmica e ontológica, configurando uma metafísica do sexo ligada ao destino da alma, diante da qual o historiador deve permanecer agnóstico, embora as fontes sejam claras, como mostra o comentário de Hans Thomas Hakl sobre as instruções de magia sexual de Giuliano Kremmerz.

6. O objetivo dessas instruções não era refinar os prazeres sexuais, subjugar mulheres, praticar jogos eróticos ou promover a libertação sexual, mas desenvolver, por longos regimes de jejum, respiração, castidade, meditação e preparação mágica, uma força mágica superior capaz de vencer tudo, inclusive a morte física.

Ocultar e Revelar

1. Uma terceira categoria abrange coisas de que se gostaria de falar, mas que, sem serem secretas ou tabus, estão ocultas e precisam ser descobertas, sendo a história do esoterismo repleta de referências a sabedorias, mensagens, poderes e realidades ocultos, como em “Ísis sem Véu” de Blavatsky ou na leitura paracelsiana das assinaturas das coisas, e o termo oculto designava originalmente, na filosofia natural, as forças invisíveis e teoricamente inexplicáveis centrais à astrologia, à alquimia e à magia natural, assim como no esoterismo islâmico, segundo Pierre Lory, o lado interior da realidade é real, mas perigoso, por vezes demoníaco e potencialmente erótico.

2. A linguagem do velar e desvelar tem óbvias conotações masculinas, voyeurísticas e eróticas, o que explica outra via pela qual o erotismo penetra os contextos esotéricos, como mostram a leitura de Wolfson dos textos cabalísticos e a análise de Hanegraaff sobre Giordano Bruno e o mito de Actéon, que, movido pelo desejo da beleza eterna, contempla Diana nua, a Natureza desvelada, e é morto e transfigurado nesse ato de transgressão mística e erótica.

3. Inversamente, desde o século XIX manifesta-se uma tendência à “desocultação do oculto”, visível no discurso espiritualista estudado por Cathy Gutierrez e em seus desenvolvimentos posteriores até tendências contemporâneas como as de Esalen, numa democratização do esoterismo ocidental em que o segredo erótico foi revelado e se pode falar do que se sabe.

Intimidade e Pungência

1. As coisas das quais não se fala podem ser também íntimas demais para serem partilhadas, retidas por discrição e não por barreiras iniciáticas, o que remete à experiência religiosa pessoal e à sua descrição psicológica, presente em textos que aludem discretamente a acontecimentos espirituais ou a nuances emocionais refratárias à verbalização e em comunidades que preferiam guardar para si sua experiência comum da presença divina, acessível apenas pela participação cotidiana.

2. A dimensão erótica intervém quase inevitavelmente quando tais experiências envolvem contato íntimo com entidades espirituais personificadas, como mostram os teósofos cristãos do século XVII que viviam com a virgem Sofia um jogo erótico e uma união sexual-espiritual que chegava à gravidez do teósofo, a comunidade que tentava invadir o quarto nupcial da noiva, o deleite erótico na Cabala e no hassidismo, os beijos dos comentários latinos ao Cântico dos Cânticos, os desejos homoeróticos de Ficino e as místicas eróticas dos visionários americanos do século XIX, intimidades que, ao aproximar-se do presente, se tornam mais descritivas, confessionais e textualizadas, raras nos textos medievais, comuns nos meios alemães e holandeses dos séculos XVII e XVIII e abundantes nos documentos ingleses dos séculos XIX e XX, sugerindo também diferenças culturais entre Europa e América quanto ao dizível.

Inefabilidade e Prolixidade

1. Há por fim coisas das quais não se fala porque não se pode, sendo as referências ao inefável mais frequentes no esoterismo do que se imagina, associadas a uma gnose superior que não se transmite por palavras ou símbolos, mas se experimenta diretamente, tema considerado central ao campo e que, segundo Kocku von Stuckrad, distingue o esoterismo do misticismo por sua forte qualidade noética, gnose imediata e intuitiva, completa de uma só vez, mas que exige uma vida inteira para ser explicitada em milhares de páginas, paradoxo pelo qual o inefável produz uma prolixidade quase inacreditável.

2. Também o erótico é sobredeterminado e saturado de sentido, nunca plenamente articulável, como sugerem as conexões etimológicas e míticas entre conhecer e ter relações sexuais e o fato de o prazer sexual só poder ser experimentado, de modo que as fontes esotéricas descrevem frequentemente a gnose inefável em termos eróticos de consumação, abraço, êxtase unitivo, beijo, adesão e casamento.

3. Toda linguagem da união sexual implica uma polaridade de duas figuras que se unem, estrutura básica das linguagens, mitologias e simbolismos eróticos da história da religião, à qual se acrescentam as categorias modernas de gênero e orientação sexual, pois a literatura mística erótica está repleta de homens que se unem a divindades masculinas, e, segundo a tese de Jeffrey Kripal, os sistemas místicos masculinos de simbolismo sexual tendem, na ortodoxia, a uma estrutura homoerótica sublimada, ao passo que, quando o divino é imaginado como feminino em união com o aspirante masculino, o sistema tende a tornar-se heterodoxo ou herético.

4. A coletânea confirma essa tese comparativa, pois as tradições de simbolismo heterossexual explícito, como a câmara nupcial valentiniana e as tradições modernas de magia sexual, tornaram-se heterodoxas ou heréticas, ao passo que as incorporadas pelas culturas religiosas dominantes, como a mística nupcial latina, a Cabala e o sufismo, tenderam a uma estrutura masculina homoerótica de amor a um Deus masculino, sem excluir práticas homossexuais em sistemas heteroeróticos, como o culto fálico de Reuss ou rituais de Crowley, nem traços heteroeróticos nos sistemas ortodoxos, como Maria esposa de Cristo ou as consortes espirituais sufis, mas sendo quase impossível obter aprovação ortodoxa para um sistema místico ou mágico explicitamente heterossexual.

5. O ensaio de Hanegraaff sobre Ficino e Bruno ilustra os dois lados dessa tese, pois Ficino, cujos desejos platônicos eram homoeróticos, dedicou-se ao “Banquete” de Platão e a uma vida celibatária sublimada e foi acolhido pela Igreja, ao passo que Bruno, de desejos heteroeróticos, foi queimado, não por esses desejos em si, mas talvez porque eles o impediam de ajustar-se ao sistema religioso homoerótico da época e alimentavam sua linguagem de fogo e paixão, já que pensar heterossexualmente o divino no Ocidente equivale a pensar hereticamente.

6. Essas reflexões suscitam questões fascinantes sobre a ligação entre eros, heterossexualidade, heresia e segredo na história do esoterismo ocidental, sobretudo a de saber se a presença de um sistema heterossexual masculino não é sinal quase certo de que o sistema simbólico será ignorado, negado, reprimido e tornado oculto.

7. Essa é apenas uma das questões, pois os ensaístas formulam suas próprias perguntas e respostas, cujas iluminações podem ser evocadas não para resumir a obra nem encerrá-la, mas em espírito de tentação.

8. Entre os temas da coletânea figuram a leitura esotérica do fruto do Éden como metáfora sexual, ora sinal da Queda e da mortalidade, ora base de técnicas de restauração do andrógino adâmico, a união sexual sacramental da câmara nupcial cristã antiga, os levitas como figura homossexual sacerdotal, hermenêuticas que superam Freud ao ler a água do Salmo 1 como emissão seminal ou a eucaristia como espermatofagia, santos sufis unidos a jinniyas para aumentar sua baraka, o segredo como striptease linguístico, Deus como deleite de todos os deleites, Maria como mãe virgem e amante de Cristo, Ficino como erudito homoerótico em conflito, o enxofre como semente paterna e o mercúrio como sangue menstrual, hermafroditas bicéfalos, sexo masculino com couro de touro, as gravuras de bruxas com unguentos e práticas transgressivas, o modelo platônico do cérebro produtor de sêmen, a Sofia que se casa com um teósofo alemão, o liberalismo social dos espiritualistas americanos e Victoria Woodhull, candidata à presidência e defensora do amor livre, Thomas Lake Harris casado com sua fada divina e sua respiração interna como eletricidade corporal genital, haxixe, espelhos mágicos e mônadas luminosas acessíveis pela magia sexual, o pai da psicanálise italiana envolvido em tradições ocultas, a criação alquímica pela magia sexual de um corpo glorioso sutil capaz de sobreviver à morte e uma cidade tântrica fictícia no Meio-Oeste americano onde o tantra asiático encontra a magia sexual ocidental e a contracultura.

9. Essa lista vertiginosa e ainda inexplicada será esclarecida ao longo da obra, cabendo aos leitores descobrir esses temas e, sobretudo, começar a falar das coisas das quais não se fala.

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