5 Homem e espírito
Paracelsus. Selected Writings. Ed. Jolande Jacobi. Princeton: Princeton University Press, 1973
1. A natureza é mestra de todas as coisas, mas recebe do Espírito Santo, com quem forma uma unidade, a instrução que não pode dar por si, transmitindo diariamente essa luz ao homem como num sonho.
2. Tudo o que procede da luz da natureza deve ser aprendido por meio dela, exceto a imagem de Deus, ensinada pelo espírito que o Senhor concedeu ao homem como mestre das coisas sobrenaturais e eternas e que a Ele retorna após a separação entre matéria e espírito.
3. O homem dispõe de duas escolas, a terrestre, cuja mestra é a própria natureza e que ensina as coisas que nela estão, e a celeste, regida pelo Pai que está nos céus, que ensina a sabedoria divina ao homem renascido e da qual procedem apóstolos, profetas e estudiosos de Deus.
4. Tanto o conhecimento do eterno quanto o do perecível procedem de Deus, do qual o homem mortal recebe tudo o que possui.
5. O sumo bem não reside no imperador nem nos benfeitores humanos, pois acima deles há Alguém mais justo que dá a quem dá, e toda busca do bem supremo que permanece na esfera terrena fica aquém do eterno.
6. Seguir a Deus exige que o homem aja por si mesmo, e o poder, que vem de Deus, só é divino quando serve aos outros e não ao orgulho e ao prazer, devendo pesar sobre o governante justo a ponto de torná-lo mais triste que seus súditos.
7. O Espírito Santo é uma árvore de fruto único, mas de sabores diversos, que, como o maná, dá a cada um o que deseja, distribuindo os espíritos de sabedoria, ciência, fé, cura, poder, profecia e línguas e centenas de ofícios, para revelar a grandeza do espírito do qual tudo procede.
8. Todo ofício é duplo, aprendido dos homens ou do Espírito Santo, sendo verdadeiro artista apenas o inventor em quem se sente a ação do Espírito, embora a transmissão desse saber, dos primeiros mestres aos mais recentes, também viva do Espírito, que assim triunfa entre os homens.
9. Residindo Deus no céu, cabe ao homem, e não a anjos ou espíritos, governar e guiar a humanidade, o que exige saber reconhecer o verdadeiro pastor e distingui-lo do lobo em pele de cordeiro, tarefa quase impossível, pois os pastores legítimos só conduzem quando inspirados por Deus, que os nomeia e instrui para que se cumpra sua vontade e não a deles.
10. Entre os maiores dons divinos estão os homens santos iluminados pelo Espírito Santo que ensinam as coisas eternas numa língua de fogo compreensível a muitos e possuem um poder capaz de realizar milagres pela palavra, diante da qual as forças da natureza se calam.
11. Governar um povo exige a graça do Espírito Santo, única capaz de revelar os corações dos governados e tornar justo e benéfico até o governo severo, aplicando-se essa exigência não só às autoridades, mas também aos pais, mestres e senhores, que devem colher da árvore do Espírito Santo a sabedoria e o juízo cujo exercício é justo e perdura eternamente.
12. É loucura pretender estabelecer preceitos humanos eternos, pois todas as coisas são produto do tempo, que rege o homem mas não a Deus, de modo que só os mandamentos divinos são eternamente verdadeiros e os do imperador só subsistem quando derivam deles.
13. O homem deve conduzir seus semelhantes não por força própria, mas por meio de Deus, único construtor capaz de estabelecer e conhecer a rocha sobre a qual se ergue o redil humano, a Igreja, ao passo que os sucessores e guias instituídos pelo orgulho humano jamais tiveram força e procedem de Satanás.
14. O diabo, suprema mentira e inimigo de Deus, suprema verdade, não pode comparecer diante de Deus, mas pode assaltar o homem, dotado da mesma liberdade de ser ou não presunçoso que o diabo tinha quando era anjo, devendo por isso o homem assemelhar-se aos anjos para escapar ao destino do anjo caído.
15. O homem vive para conhecer as obras de Deus, e como o diabo assume a forma de cada estado, mercador, rei, profeta ou médico, assim como Deus se faz presente em cada um deles, é necessário saber discernir em cada ofício o que procede de Deus e o que procede do diabo.
16. Dar a Deus o que é de Deus e ao diabo o que é do diabo exige saber distinguir e classificar corretamente as ações segundo sua origem.
17. O título de profeta, apóstolo ou doutor conferido pelo povo não basta para cumprir o ofício correspondente, pois a palavra de Deus não é dada a todos os que pretendem possuí-la.
18. O coração, dado por Deus na criação com o conhecimento do bem e do mal e a lei de não fazer ao outro o que não se quer para si, é a rocha sobre a qual se sustenta todo homem não escolhido para ofício especial, razão pela qual os pagãos, embora não pertencendo ao povo eleito, não foram condenados, bastando-lhes permanecer sobre esse fundamento.
19. O espírito sopra onde quer e não em todos, faltando sobretudo naqueles que se julgam o próprio espírito.
20. A força divina e a luz da natureza são juntas indispensáveis para completar o homem, que nada é por si mesmo e só existe pela presença delas como hóspedes em seu interior, residindo nelas, e não na carne e no sangue, o verdadeiro livre-arbítrio.
21. Cristo ordena explorar a natureza das coisas, sendo a fonte da verdade da qual tudo o que não procede é sedução, ao passo que o diabo, com seus mil artifícios e falsos milagres, persegue os homens para desmentir a Cristo e a eles.
22. As grandes coisas criadas por Deus e o poder de usá-las devem ser empregados apenas quando necessários e sempre no caminho do Senhor, pois tudo pode servir tanto ao bem quanto ao mal.
23. Deus quer que o homem conheça suas obras e use os olhos e os sentidos para conhecer a Cristo e sua Palavra, sendo esses dons uma cruz a ser carregada no seguimento de Cristo e não em jogos e prazeres.
24. O corpo humano pertence a Deus e foi feito para Ele, de modo que tudo o que o homem possui, vida, doença, sabedoria, visão, audição e razão, procede de Deus.
25. O corpo abriga o eterno como um anfitrião abriga um hóspede, e a vida que sustenta corpo e alma é uma graça adicional, comparável a uma casa dada gratuitamente por um senhor para que nela se habite.
26. O corpo mortal carece de força, devendo toda a força necessária ser extraída da fé.
27. A fé eleva o homem acima de sua natureza mortal e o torna semelhante ao espírito.
28. A fé no Criador, embora vivida na carne, é inexprimível e inalienável, só podendo ser perdida por quem a rejeita voluntariamente.
29. Pela fé, lançam-se montanhas ao mar com a mesma facilidade com que se lança um grão de mostarda.
30. Morrer pela fé é bem-aventurança, ao passo que morrer pelos artigos de fé é morte nascida de uma fé falsa.
31. O homem, sendo de natureza divina e filho do Altíssimo, pode realizar milagres pelo poder de Deus, desagradando a Deus que o corpo terreno despreze e escarneça dos santos de seu corpo celeste.
32. Os bens criados por Deus no céu e na terra para alimento, bebida, remédio e vestuário são recursos de tipo pagão que servem apenas à vida temporal e perecível, ao passo que o que serve à vida eterna só chega ao homem por meio de Cristo.
33. A Sagrada Escritura é o princípio e o guia de toda filosofia e ciência natural, de modo que o filósofo que não nasce da teologia carece de pedra angular, pois a verdade brota da religião e não pode ser descoberta sem ela.
34. Toda doutrina, mandamento, arte e ordem só tem valor se fundada em Cristo como pedra angular e procedente do céu.
35. O batismo em nome da Trindade impõe viver segundo os ensinamentos divinos, e a razão que ele confere, ao retirar a proteção da inocência infantil, obriga ao conhecimento, à fé, ao amor e ao seguimento de Cristo, bem como ao arrependimento, para não atrair a morte eterna.
36. O batismo é a marca distintiva e eterna do cristão, comparável à libré do servo ou ao hábito do sacerdote, consagração à bem-aventurança que o diabo não pode retirar e que constitui a ordem e o sacerdócio supremos, devendo ser honrada pelas virtudes correspondentes para não se trair o voto feito a Deus.
37. A alma carrega os fardos e alegrias do homem e dispõe da razão, da previdência e da sabedoria para governar o corpo, estando acima delas o espírito, de cuja luz nasce a ordem da vida.
38. A alma tem sua sede no coração, centro do homem e lugar da vida contra o qual a morte combate, e só pode encher-se do amor de Deus se dela se retirar toda oposição a Ele, tornando-se inteiramente pura.
39. A alma nasce quando uma palavra de Deus penetra a concepção carnal no ventre materno, tornando-se o centro do homem e a morada dos impulsos bons e maus, sobre os quais o espírito reina como um rei no meio de seu conselho, livre para seguir os bons ou os maus conselheiros.
40. A alma e o espírito, este o anjo de Deus no homem, procedem ambos da boca de Deus, e os poderes natural e celeste, quando exercidos segundo a vontade divina, permanecem eternamente na alma, onde a sabedoria trazida de suas respectivas origens se converte em obras, como o rei converte conselhos em atos.
41. O espírito, distinto do corpo e da alma, é um terceiro elemento no homem, como uma alma da alma, que após a morte habita onde Deus lhe designa e contém o juízo sobre a alma, o corpo e todas as coisas.
42. A verdade e a justiça, essência de Deus, são o espelho pelo qual o homem conhece a si mesmo e reconhece que nada é enquanto não se assemelha à perfeição do Pai, embora seja deus por ser seu filho.
43. Ninguém vive fora do domínio de Deus, e a dependência recíproca entre senhores e subordinados, em que cada um está acima do outro em alguma esfera, une todos os homens numa sujeição mútua fundada no amor.
