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esoterismo:yates:1969:4

4 Fludd e a época de Jaime I

YATES, Frances A. Theatre of the World. London: Routledge & Kegan Paul; Chicago: University of Chicago Press, 1969.

1. A extensa produção publicada de Robert Fludd, embora contenha informações valiosas sobre sua trajetória e o pensamento de sua época, permaneceu pouco explorada pela pesquisa moderna, em parte pela dificuldade de interpretação de sua linguagem e de suas construções filosóficas.

2. A grandeza, a multiplicidade e o caráter místico dos livros latinos de Fludd favoreceram uma recepção desigual, marcada pela indiferença ou admiração dos ingleses e pelo interesse de leitores estrangeiros dispostos a compreender e utilizar conhecimentos cuja obscuridade dificultava seu reconhecimento na Inglaterra.

3. A publicação continental das obras de Fludd e sua participação em controvérsias envolvendo Mersenne e Kepler contrastam com sua limitada utilização nos estudos ingleses sobre religião, filosofia, ciência e literatura da época de Jaime I.

4. A investigação da composição e da publicação dos volumes sobre o macrocosmo e o microcosmo oferece um acesso parcial à relação de Fludd com sua época, envolvendo aspectos importantes de sua vida e de sua atividade intelectual.

5. A publicação sucessiva dos grandes volumes entre 1617 e 1619 pressupõe uma preparação prolongada, confirmada por referências autobiográficas que permitem reconhecer a elaboração de partes da obra em períodos anteriores, como ocorre no relato de uma aplicação da astrologia à descoberta de um furto.

6. Durante sua permanência em Oxford, Fludd teria utilizado cálculos astrológicos para identificar o responsável pelo roubo sofrido por seu tutor e recuperar o dinheiro, em uma ocasião na qual estava tão absorvido pela redação de um tratado musical que quase não saía de seu quarto.

7. O período de residência de Fludd no St. John’s College, entre 1592 e 1600, permite situar nessa década a elaboração do tratado musical, enquanto a identidade do tutor mencionado pode corresponder a John Perrin, professor de grego e participante dos trabalhos relacionados à tradução autorizada da Bíblia.

8. O tratado musical elaborado antes de 1600 pode ter correspondido à seção posteriormente publicada na história técnica do macrocosmo, cuja representação pelo Templo da Música remeteria, assim, a uma concepção desenvolvida em Oxford muito antes de sua impressão alemã em 1618.

9. O St. John’s College constituía um centro da renovação anglicana de orientação litúrgica associada a William Laud, na qual a recuperação da música e o uso do órgão receberam especial atenção, enquanto as relações de Fludd com William Paddy o aproximavam desse ambiente intelectual e religioso.

10. A presença do organista e dos tubos de órgão nas representações musicais de Fludd adquire significado adicional quando relacionada à elaboração de seus estudos no mesmo ambiente universitário em que se promovia a restauração da música na liturgia.

11. As viagens iniciadas após sua saída de Oxford conduziram Fludd a círculos católicos franceses, nos quais discutiu geomancia, aperfeiçoou a arte da memória e ensinou ciências matemáticas a membros da família de Guise, compondo para diferentes destinatários partes de seus estudos de aritmética, geometria, perspectiva, arte militar e música, enquanto sua cosmografia remontava ainda ao reinado de Elizabeth.

12. A passagem dos círculos anglicanos de Oxford aos círculos católicos franceses acompanhou a elaboração de sua obra, e seu retorno à Inglaterra permitiu consolidar uma prática médica paracelsista que combinava tratamento e persuasão, mantinha relações com Paddy, Selden e Harvey e interpretava a circulação sanguínea como expressão da correspondência entre os movimentos do macrocosmo e do microcosmo.

13. A preparação de volumosas publicações estrangeiras aproxima novamente Fludd de Dee, pois ambos alcançaram reconhecimento continental e divulgaram fora da Inglaterra grande parte de sua produção, sendo a possível utilização de trabalhos inéditos de Dee um elemento adicional, ainda hipotético, dessa continuidade.

14. A estreia editorial de Fludd ocorreu em defesa da fraternidade rosacruz, com uma Apologia publicada em 1616 e um tratado em 1617, enquanto seu contato com Michael Maier pode ter contribuído para o envio dos manuscritos ao continente, sem esclarecer definitivamente a natureza de sua relação com os rosacruzes.

15. A publicação da primeira parte do macrocosmo em 1617 foi acompanhada de uma dedicação a Jaime I que o apresentava como representante terrestre da divindade e destinatário das verdades naturais capazes de abrir um caminho para os céus, enquanto o volume do microcosmo seria dedicado ao próprio Deus segundo uma definição hermética.

16. Dois manuscritos permitem esclarecer parcialmente as circunstâncias que levaram Fludd a esperar o interesse e a proteção de Jaime I para sua História dos dois mundos.

17. O manuscrito inglês Uma chave filosófica, provavelmente composto pouco depois dos volumes sobre os dois mundos e parcialmente publicado em latim em 1623, conserva informações sobre o contexto dessas publicações e sobre a dedicação do primeiro volume ao rei.

18. A dedicação inédita de Uma chave filosófica a Jaime I prolonga a tentativa de vincular os trabalhos experimentais e filosóficos de Fludd ao patrocínio régio.

19. A escolha do rei como patrono fundamenta-se na benevolência anteriormente recebida e na expectativa de que sua proteção resguarde a atividade filosófica contra a inveja e os ataques dos adversários.

20. O relato de uma conversa pessoal com Jaime I sobre uma experiência com trigo confirma algum contato direto entre Fludd e o monarca, embora a ausência de publicação integral do manuscrito possa indicar que a proteção desejada não se concretizou plenamente.

21. A defesa de seus volumes contra acusações de heterodoxia apoia-se na aprovação de leitores eruditos ingleses e estrangeiros, que reconheciam neles a revelação de mistérios naturais anteriormente ocultos por expressões enigmáticas, sendo uma carta de Justus Helt apresentada como testemunho favorável.

22. A avaliação do manuscrito por estudiosos e jesuítas antes de sua impressão teria resultado em ampla aprovação, acompanhada apenas da exigência jesuíta de excluir a geomancia por razões religiosas.

23. A convergência de apreciações favoráveis entre calvinistas, luteranos e católicos sustentava a convicção de Fludd de que sua filosofia podia ser aceita por pessoas religiosas de diferentes confissões, apesar de a geomancia contestada ter permanecido nos volumes publicados.

24. A defesa dos rosacruzes é apresentada por Fludd como tentativa de estabelecer contato com uma fraternidade que jamais teria respondido nem conhecido pessoalmente, ao mesmo tempo que reafirma sua adesão à religião reformada inglesa e admite uma possível proximidade entre sua filosofia e o ideal rosacruz de conhecimento universal da natureza.

25. As acusações de que uma única pessoa não poderia dominar tantas ciências levaram Fludd a afirmar a autoria independente de seus dois edifícios cósmicos e a situar a composição da história do macrocosmo antes de seu conhecimento da fama rosacruz, invocando Andrewes e Selden como testemunhas.

26. A exposição dirigida a um caluniador em Uma chave filosófica traduz a filosofia de Fludd em termos mitológicos, apresentando as harmonias do Pan universal como forças que atravessam a constituição do microcosmo e sua história como uma cena simultaneamente cômica e trágica.

27. A Breve declaração, manuscrito dirigido a Jaime I e associado a Uma chave filosófica por sua escrita e provável datação, defende os rosacruzes e a vinculação de Fludd a eles, fundamenta sua filosofia em fontes antigas e sagradas e reúne testemunhos estrangeiros favoráveis aos volumes sobre os dois mundos.

28. Apesar das diferenças entre as declarações de Fludd sobre sua relação com os rosacruzes, os dois manuscritos demonstram que suas obras eram atacadas por essa associação e que ele buscava no rei um protetor de sua filosofia.

29. A longa preparação dos volumes permite distinguir as datas de composição e publicação de seus conteúdos, enquanto a hostilidade contemporânea e as dúvidas sobre sua autoria individual oferecem um contexto para a hipótese, ainda não comprovada, de incorporação de trabalhos inéditos de outros estudiosos, inclusive Dee.

30. A explicação de William Foster para a publicação estrangeira atribuía essa escolha à impossibilidade de obter autorização inglesa para livros considerados mágicos, mas Fludd a justificava pelo alto custo exigido pelos impressores locais e pelas condições favoráveis oferecidas no continente, onde a disponibilidade de gravadores qualificados atendia à necessidade de numerosas imagens técnicas, simbólicas e hieroglíficas.

31. A oficina da família De Bry, formada por refugiados protestantes dos Países Baixos espanhóis estabelecidos na Alemanha, consolidou sua especialização em livros ilustrados por meio de grandes coleções de viagens e descobertas, mantendo desde Theodore de Bry vínculos comerciais e artísticos com a Inglaterra.

32. A continuidade da empresa sob Johann Theodor de Bry reuniu gravadores e familiares, entre eles Matthäus Merian e o inglês William Fitzer, cuja atividade editorial incluiu a publicação do tratado de Harvey sobre a circulação sanguínea em 1628, por recomendação de Fludd.

33. A oficina De Bry oferecia condições especialmente adequadas aos grandes volumes ilustrados de Fludd, publicados inicialmente durante sua permanência em Oppenheim e depois em Frankfurt, com gravuras executadas pelo próprio Johann Theodor e possivelmente, em partes posteriores, por Merian.

34. A intensa atividade editorial dos De Bry antes da devastação da Guerra dos Trinta Anos pode ter integrado redes intelectuais próximas do rosacrucianismo, mas essa relação permanece por investigar, enquanto a publicação das obras de Fludd se destaca pela extraordinária quantidade de imagens cuidadosamente articuladas ao texto, apesar das limitações materiais e tipográficas dos livros.

35. A preparação e a transmissão dos desenhos, sua transformação em gravuras e sua inserção correta nos volumes pressupõem uma cooperação rigorosa entre Fludd, na Inglaterra, e os profissionais alemães, cuja organização constitui um problema central para compreender essas publicações.

36. As instruções de Uma chave filosófica para reservar espaços destinados às imagens, respeitadas na publicação latina da experiência com trigo, demonstram que Fludd preparava os manuscritos com indicações precisas de localização das ilustrações, procedimento provavelmente aplicado também aos demais volumes.

37. A comparação das gravuras de Fludd com livros anteriores revela tanto o aproveitamento de imagens já publicadas quanto sua alteração por acréscimos e variações, especialmente perceptíveis nas representações de agrimensura.

38. As imagens de agrimensura inspiradas na Pantometria dos Digges transformam os modelos em cenas mais elaboradas e introduzem mudanças arquitetônicas, entre elas um obelisco semelhante aos representados em um arco triunfal erguido para a entrada de Jaime I em Londres.

39. Os detalhes naturalistas acrescentados às paisagens e às figuras das operações de medição provavelmente resultam da interpretação dos modelos pelos gravadores.

40. Muitas imagens da filosofia musical de Fludd constituem criações novas destinadas a oferecer equivalentes visuais exatos de exposições complexas e a fixar seu conteúdo na memória, sendo o Templo da Música uma fantasia arquitetônica cuja elaboração pressupõe profundo conhecimento do texto e afinidade com seu pensamento.

41. A exigência de correspondência precisa entre argumento e imagem decorre de uma concepção em que o hieróglifo participa simultaneamente da expressão simbólica e da memorização, tornando inseparáveis essas funções mesmo quando seu caráter hieroglífico era criticado por Kepler.

42. A elaboração das centenas de desenhos necessários às gravuras exigia uma familiaridade excepcional com as intenções e os textos de Fludd, circunstância que permite considerar a hipótese de que ele próprio tenha produzido parte dos esboços.

43. A possibilidade de Fludd desenhar suas próprias imagens encontra apoio em seu ensino da perspectiva, da proporção e da cópia de modelos, pois sua capacidade de praticar a agrimensura que ensinava sugere, por analogia, que também poderia executar o tipo de desenho técnico apresentado nos livros.

44. A semelhança de execução entre as ilustrações do teatro e da óptica, assim como o emprego de modelos de olhos provenientes de Fialetti, permite admitir uma autoria comum e eventualmente a participação direta de Fludd, sem estabelecer uma atribuição definitiva.

45. O controle de Fludd sobre a localização das imagens torna improvável que sua escolha fosse deixada ao acaso, e a preparação antecipada dos textos, desenhos e instruções explica como os impressores e gravadores conseguiram publicar os volumes do macrocosmo e do microcosmo em apenas três anos.

46. O retrato de Fludd gravado por Merian, sensível ao caráter visionário do retratado, sugere uma relação favorável entre o filósofo e o artista envolvido na ilustração de seus livros.

47. A organização dessas publicações evidencia a posição singular de um filósofo residente na Inglaterra desde aproximadamente 1605, ocupado em preparar obras estrangeiras que alcançavam interlocutores como Kepler e Mersenne, mas recebiam atenção comparativamente limitada em seu próprio país.

48. A comparação entre Fludd e Francis Bacon permite reconhecer orientações distintas no pensamento inglês, pois Bacon promovia as ciências por meio de uma formação humanista e de uma crítica às opiniões preconcebidas, afastando-se da correspondência paracelsista entre ser humano e universo e possivelmente das formas de magia mecânica associadas à tradição de Dee.

49. A matemática oferece instrumentos indispensáveis à investigação e à demonstração de diversos aspectos da natureza, fundamentando disciplinas como perspectiva, música, astronomia, cosmografia, arquitetura e construção de máquinas.

50. A associação feita por Bacon entre matemática e disciplinas vitruvianas não demonstra necessariamente uma compreensão precisa de suas relações técnicas, sobretudo quando considerada à luz de suas demais observações sobre as artes mecânicas.

51. A matemática pura é valorizada por Bacon especialmente como exercício capaz de corrigir limitações das faculdades intelectuais, cuja utilidade formativa ainda não seria suficientemente reconhecida.

52. A defesa de Dee do aperfeiçoamento das artes matemáticas vinculava de maneira mais concreta a educação técnica dos artesãos à melhoria de suas condições de vida e ao progresso das ciências, antecipando um objetivo posteriormente celebrado no programa baconiano.

53. A filosofia renascentista de Fludd, derivada de Ficino e Pico, marcada por Agrippa e ligada à tecnologia vitruviana, exige reconsiderar os caminhos efetivos do progresso científico inglês, comparando a contribuição dos técnicos formados na tradição de Dee com a dos adeptos de um método baconiano.

54. Além da preparação de livros e da prática médica paracelsista, as competências de Fludd podem ter encontrado outras aplicações no ambiente inglês da época de Jaime I.

55. A tecnologia romana concentrava-se nas necessidades militares, nas obras públicas e nos dispositivos de entretenimento, enquanto a disponibilidade de trabalho escravizado reduzia o incentivo para utilizar mecanismos na diminuição do esforço produtivo.

56. Uma distribuição semelhante das aplicações técnicas pode ser reconhecida no Renascimento europeu, em que os grandes espetáculos cortesãos ofereceram um dos primeiros campos de emprego amplo dessas competências fora da guerra, especialmente nas encenações de Inigo Jones para Jaime I e Carlos I.

57. A tradição das disciplinas vitruvianas estabelecida por Dee e continuada por Fludd oferecia na Inglaterra conhecimentos de perspectiva e mecânica capazes de fornecer a Inigo Jones os artesãos e técnicos necessários aos espetáculos, complementando as novidades que ele poderia ter conhecido em suas viagens italianas.

58. A ilusão teatral e a tecnologia matemática constituíam atividades relacionadas, de modo que os estudos de Fludd sobre perspectiva, efeitos sonoros, combates e máquinas permitem reconhecer um ambiente técnico possivelmente próximo daquele em que Inigo Jones desenvolvia os espetáculos de corte ingleses.

59. A continuidade entre John Dee, Robert Fludd e Inigo Jones exige uma nova abordagem histórica da atividade deste último, fundada no reconhecimento das influências vitruvianas que já circulavam no pensamento matemático e nas práticas técnicas inglesas.

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