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Esoterismo
R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.
A interpretação esotérica das Mil e Uma Noites
- O livro de Roso de Luna, O véu de Ísis, embora não seja uma versão mas uma interpretação das Mil e Uma Noites, pode contudo ser considerado como tal, já que o exegeta, ao interpretar os contos, os reconta a seu modo tomando dados das três versões — Galland, Weil e Mardrus — e oferecendo assim uma nova lição dessas histórias.
- O livro de Roso de Luna constitui o tomo X da série B de sua Biblioteca das Maravilhas e é naturalmente uma interpretação teosófica das Mil e Uma Noites, tendo como chave A doutrina secreta de madame Blavatski — essa mulher extraordinária, essa papisa da Igreja Teosófica, essa Schahrasad russa que no final do século passado conta tantas histórias e fábulas chinesas e tantos contos tártaros à Europa incrédula e ansiosa de crer.
- A Teosofia foi um fenômeno característico do final do século XIX — um fenômeno complexo, com muito de sinceridade e muito de embuste, paralelo em certo modo ao wagnerismo e ao esperanto do doutor Zamenhof, sendo em seu aspecto mais nobre um anseio de recuperar a perdida unidade europeia e de congregar massas dispersas sob alguma bandeira neutra, seja a Bayreuth dos grandes concertos wagnerianos, seja o alto planalto tibetano onde madame Blavatski pretendia ter-se iniciado no segredo de todas as coisas — e a Teosofia queria ser o esperanto das religiões.
- Deu-se o caso, nesse final de século, de que parte da sábia Europa se pôs a aprender novamente seus palitos e seus cartazes, tendo como modelo essa madame Blavatski que, por sua vez, havia sido a aluna de mestres ignorantes, e de que a nova religião teosófica, de base irracional, lograsse seus convertidos precisamente entre os homens cultos que, em razão de sua cultura, haviam deixado de crer em tudo.
- Foi algo análogo ao fenômeno que se deu no século IV na Alexandria de Plotino, Porfírio e Fílon hebreus, quando os filósofos saídos da escola socrática se fizeram teólogos e continuaram a labor racionalista de Sócrates pelo cabo místico de Platão — e da mesma forma que a escola alexandrina pretendia recolher em um corpo de doutrina todo o saber antigo, assim também a Teosofia de madame Blavatski pretendia haver recolhido em A doutrina secreta todo o saber de todos os tempos e a chave de todos os mistérios das religiões e dos mitos.
- Um dos convertidos à nova fé foi o espanhol Roso de Luna, que chegou a ser como o núncio da papisa russa na Espanha — traduziu suas obras e as de seus colaboradores ingleses e compôs outras próprias, formando com elas aquela Biblioteca das Maravilhas que alcançou crescido número de volumes.
- A base da Teosofia estava na Ásia — seu rio de tradição e saber hermético brotava das altas montanhas do Tibet, e seu postulado de que todo o saber da Humanidade procedia da Índia e havia sido patrimônio da raça ariana vinculava-a à questão racial então candente, implicando um título de supremacia da raça ariana sobre todas as demais da Ásia e da Europa.
- Isso explica que o césar Flávio Cláudio Juliano, o restaurador da helenidade, fosse um alexandrino e pusesse sua espada a serviço dessa filosofia mística, do mesmo modo que antes dele Constantino o fizera com a nova religião cristã de fórmula universal mas de raiz semítica.
- Para o teósofo tudo vem da Índia, e o que parece não vir de lá é apenas uma tradição indiana bastardizada — por isso Roso de Luna, ao interpretar as histórias das Mil e Uma Noites, reivindica para a raça ariana esse tesouro de tradições e mitos nelas encerrados, sendo sua tese fundamental que as Mil e Uma Noites são de origem indubitável ário-persa e representam uma nobre tradição indiana de idealismo, pureza e castidade adulterada e deformada pelo grosseiro sensualismo semítico dos árabes.
- Nas primeiras páginas de seu volumoso alegato, Roso de Luna dogmatiza em caracteres destacados: “As Mil e Uma Noites não são, como Mardrus afirma, a grande obra imaginativa dos contistas árabes, mas um destroçado resto da obra iniciática dos ários da Bactriana ou da Armênia, melhor ou pior refletido já no Hasar Afsanah persa, que se crê perdido, como este o foi a seu turno no Muruchu-z-Zahab do século XI atribuído ao historiador Abul-Hanah Alí-Al-Marudi, e no Kitabu-l-Fihrist de Mohammed ben Ishak Al-Nadim do século X, com base nos quais os semitas posteriores formaram o livro que conhecemos, tão plagado de sensualismo corânico e bíblico e tão afastado da pureza prístina dos jains, parsis, hindus, budistas, essênios e demais instituições iniciáticas.”
- Para provar a solidez de sua tese, Roso de Luna põe a contribuição suas vastas e variadas leituras em matéria ocultista, revolve mitos, tradições e lendas, lança mão de todas as chaves — entre elas a cabalística —, violenta sem escrúpulo a etimologia dos nomes, lê-os ao contrário como anagramas ou em círculo como no bustrofedão, ou lhes dá um valor numérico redutível a letras em outra chave criptográfica — tudo com uma agilidade que maravilha como espetáculo de alto ilusionismo mental, pois além de malabarista é um funâmbulo na corda bamba da cultura.
- O teósofo, que prometeu levantar o véu de Ísis em que se envolve o mistério de Schahrasad, nunca acaba de fazê-lo, pois sempre fica um véu por levantar — a terminologia que emprega obriga a ler todos os volumes de sua Biblioteca das Maravilhas, a que continuamente remete, de sorte que o último véu nunca acaba de cair e o autor poderia comparar-se a um moroso e avaro proxeneta do mistério.
- Roso de Luna coloca neste livro, como em todos os seus, aquele ardor missionário e aquela fúria dialética que restam em muitos escritores espanhóis como um remanescente das antigas lutas teológicas, unida a uma sutileza de cabalista medieval — faz com as Mil e Uma Noites o que os cervantistas fizeram com o Quixote, e como eles vê mistérios por toda parte, encontrando um sentido oculto nas palavras e nos gestos mais naturais e simples.
- Para o teósofo, por exemplo, um banho não é um banho, mas um batistério, um lugar de iniciação; um alfaiate é um legislador; um barbeiro loquaz, um silencioso mestre pitagórico — e tudo tem para ele um sentido oculto e uma significação ritual que só pode penetrar-se mediante a chave teosófica adquirida no curso de uma longa iniciação maçônica.
- O Pássaro Roc, por exemplo, é a Ave Li do grande poema chinês do Li Sao — e se se quer saber o que é a Ave Li, há que ler o tomo IV da citada Biblioteca das Maravilhas, onde o assunto é tratado mais a fundo, e assim ocorre com tudo o mais, pois o iniciador nunca acaba de iniciar, empregando uma linguagem reticente e cortando o fio de suas histórias pelo mais interessante e intercalando umas nas outras, como a própria Schahrasad.
- A interpretação ariana das Mil e Uma Noites é tendenciosa até mesmo do ponto de vista racial, pois vai unida à tese da supremacia da raça ariana e misturada ao preconceito de castas que cristalizou no final do século passado em um antissemitismo de tipo étnico e não religioso — Roso de Luna compartilhava esse preconceito, que estendia a árabes e judeus, crendo-se um ário, um aristos, um brahmane ou um xátria que olhava com desprezo os semitas, raça segundo ele de comerciantes natos, estampando neste livro estas palavras categóricas: “A lei de castas existe e existirá sempre, embora não fisicamente ou em sociedade, mas na infinita gama das almas.”
- Não é possível aceitar incondicionalmente a tese da origem exclusivamente ariana das Mil e Uma Noites, embora deva aceitar-se e reconhecer-se a parte que o gênio ário ou ário-persa teve em sua elaboração — mas as conclusões absolutas a que Roso de Luna chega só podem ser colmatadas pela fé, pois formulam-se em termos de cronologia de caráter patentemente mítico: para o teósofo, as Mil e Uma Noites datam não do século X nem do IX, mas dos “últimos dias atlantes, ou seja os onze mil anos transcorridos, como mínimo, desde o último afundamento de Poseidonis, a ilha de Platão.”
- A obra de Roso de Luna é uma mistura paradoxal de lucidez e de delírio que não pode aceitar-se sem reservas nem rejeitar-se sem ressalvas — o teósofo iluminado conviva nele com um erudito, e este coloca a seu serviço um material legítimo, tão interessante quanto instrutivo, se dele se desatrela da tese a que está adscrito.
- Tudo o que Roso de Luna diz sobre a relação das Mil e Uma Noites com a literatura cavalheiresca do Ocidente, com os mitos nórdicos do ciclo dos Nibelungos germânicos e as Sagas escandinavas; o estudo que faz das lendas e romances populares espanhóis e da literatura de cordel — tudo isso possui validade absoluta, e seu autor nele demonstra um dom de intuição e de alta crítica literária que o coloca no mesmo plano de eruditos de alto voo como Asín Palacios e Bonilla San Martín.
- Só é recusável quando, por efeito de seu astigmatismo mental, deforma involuntariamente as coisas e as põe a serviço de seu dogma teosófico.
- Não pode negar-se-lhe toda a razão em sua tese de que as Mil e Uma Noites tenham ou hajam tido em sua origem um sentido, se não esotérico, ao menos simbólico — desde as primeiras páginas surgem enigmas na própria onomástica dos personagens: por que Schahrasad se chamaria “filha da cidade” e sua irmã Dunyasad “filha do mundo”? Por que os três zâluk da História do carregador e as moças (Noites 9 a 11) são todos tuertos do olho esquerdo? Por que são precisamente sete as viagens de Simbad, o marujo? Todos esses enigmas autorizam a pensar em um sentido arcano do livro oriental, que se não é um livro hermético é ao menos um livro obscuro, semeado de dificuldades para o tradutor e o leitor.
- As Mil e Uma Noites, como o Quixote — com o qual tem tantas analogias por seu realismo projetado sobre um fundo fantástico de lenda e mito, e por seu duplo caráter popular e culto —, é um livro enigmático, mas não aquela criptografia em que Roso de Luna o converte; a dificuldade está em encontrar a chave que o explique, e o mais verossímil é que essa chave se tenha perdido para sempre, como se perdem as coisas daquele Oriente pleno de indolência em que tudo confina, já desde seu surgir, com o esquecimento.
- A diferente grafia com que os nomes aparecem nas distintas versões dificulta ainda mais o esclarecimento dos enigmas vinculados à onomástica — Schahriar converte-se em Schahrban na edição de Breslau; Weil transcreve Schahryar, Schahzenan, Scheherazad e Doniazad; Burton escreve Schahryar, Schahzaman, Schahrazad e Dunyazad; Mardrus, Schahriar, Schahzaman, Schahrazade e Doniazade —, e cada uma dessas grafias implica uma interpretação diferente.
- O orientalista Alemany y Bolufer, no prólogo à sua versão espanhola do Panchatantra sânscrito, sustenta que Schahrasad e Dinarzad são meras deformações de Karata e Damana ou Calila e Dimna e significam respectivamente “a domadora” e “a gralha”, a astuta, e que Schahriar não é senão Schah-Kariar, equivalendo a “o sacrificador” — epíteto que naturalmente quadra ao sanguinário monarca sassânida.
- Roso de Luna toma aí pé para afirmar que os dois irmãos Schahriar e Schahsemán representam dois tipos de humanidade contrapostos: o dos humanos propriamente ditos e o dos jinas ou xamãs, afirmando que “a humanidade jina e a humanidade propriamente dita conviveram outrora, até o aziago dia cantado no poema simbólico das Aves de Aristófanes, em que foram cortadas as comunicações entre os dois, e a quem o Véu de Ísis, ou seja, o Sexo e a Ilusão, atrofiou o terceiro olho da glândula pineal, ou seja da intuição, impedindo-nos com sua cegueira de ver aquela outra super-humanidade… a jina.”
- É muito provável que a noite a mais — que por outro lado não figura em todas as antigas menções do livro — seja de uma qualidade simplesmente poética e responda ao mesmo sentimento supersticioso que inspira a antiga costumes dos reis de distribuir em seus aniversários uma moeda de ouro a mais que os anos que completam, e a moderna costume burguesa de acender uma vela a mais no bolo — uma intenção de comprometer o tempo.
- Não é admissível a ideia de que um livro de tão vária e múltipla paternidade seja a revelação cifrada de nenhuma doutrina esotérica — é muito possível que esses enigmas miliunanochescos só existam em nossa imaginação e nos pareçam tais por nosso inato afã de encontrar mistérios em tudo, ou que, se existem realmente, sejam de pura qualidade poética.
- O fato de que os três zâluk sejam tuertos do olho esquerdo e coincidam em reunir-se em Bagdá na mesma noite procedentes de países distintos pode ser simplesmente um recurso do rapsoda para impressionar com maior força de assombro e ao mesmo tempo ter três personagens em cujas bocas colocar três histórias extraordinárias.
- Muitas das coisas que o rapsoda diz soam a estribilho repetido rotineiramente por um homem que já ignora seu sentido exato — pode admitir-se que em sua origem essas histórias tenham sido efetivamente concebidas por mestres iniciáticos que nelas expressavam por símbolos e imagens seu saber arcano, e que a intervenção dos sufis na literatura oriental desses séculos médios introduz nela sem dúvida um elemento místico e esotérico.
- Estamos diante de uma obra cujo processo de criação foi idêntico ao dos mitos e lendas populares, em cujo ponto de partida dormem as recordações confusas do homem pré-histórico e palpitam os sonhos primários do homem já histórico como uma herança subconsciente — e cuja chave há que pedir não a nenhum mago antigo, mas aos antropólogos, filólogos e psicanalistas modernos: Bachofen, Spencer, Frazer, Kirsche, Freud.
- O defeito capital de Roso de Luna é sua obsessão do mistério e seu afã de querer explicar tudo pela chave teosófica, como se fosse uma gazua capaz de abrir todas as portas, sendo que hoje se possuem outras mais seguras de forja científica — o psicoanálise freudiano, por exemplo, auscultan do o subconsciente do homem, origem de todos os mistérios, dá uma explicação mais aceitável, e não menos poética, de mitos e lendas, que não são no fundo senão expressão de complexos psíquicos análogos aos que por regressão se dão nas neuroses.
- Goeth afirmou: “A mitologia é a loucura dos deuses.” — mas são os homens os que criaram as mitologias.
- O intento de Roso de Luna representa uma regressão ao ponto de partida dos primeiros investigadores do livro — os indianistas —, baseando-se na existência de um perdido manuscrito primitivo, e é a mesma história de sempre: o conto do Hasar Afsanah, que por sua vez seria trasunto de outro anterior igualmente perdido, levando as Mil e Uma Noites cada vez mais longe na indagação de suas origens, até deixar perdido o investigador ante o imenso, para não dizer infinito, do tempo e do espaço pré-históricos.
- As Mil e Uma Noites, em sua forma atual, não são senão um caos poético em que se confundem toda classe de elementos heterogêneos, uma obra informe em que colaboraram todas as raças do Oriente, inclusive os tártaros — que tiveram também com Ulug Bey seu momento de esplendor cultural e incrustaram suas contribuições na ganga primitiva, de que ainda restam vestígios na toponímia miliunanochesca como Caxgar e Cabul.
- Essa riqueza de elementos é o que dá às Mil e Uma Noites uma amplitude panorâmica e um ar enganoso de Bíblia — e de fato o é em certo modo, pois induz a extrair dela uma filosofia geral da história; mas precisar essas linhas e sistematizar essa filosofia é um empenho vão, pois irradiam em direções diversas e antagônicas.
- Roso de Luna esquece que as Mil e Uma Noites não são um livro, mas muitos livros — e é impossível generalizar sobre elas; o mestre teósofo opera uma eliminação caprichosa do que não se ajusta à sua visão simplista, apagando do texto tudo o que lhe não parece ário, sendo que não se sabe em que pode apoiar-se para atribuir todo o idealismo aos ários e todo o materialismo aos semitas.
- Não aparece a poliandria à cabeceira do Mahabharata? Não se conta já no Hitopadexa a história do filho de príncipe que derruba sobre um sofá a esposa do mercador? E não está todo o Gita-Govinda saturado de espécies eróticas não menos, mas mais fortes que as do Cântico dos Cânticos?
- A gnose que o teósofo invoca é patrimônio e obra comum de todos esses povos indo-persa-semitas que em certo tempo convergiram na mesma latitude geográfica — naquela Babilônia, ponto de reunião e de despedida de claros saúdos e confusos adeuses —, e o mesmo teósofo o reconhece implicitamente em seus percursos pelos mitos antigos, movendo toda a escala do ocultismo com chaves bramânicas e rabínicas.
- Encerrar-se em uma única interpretação e ajustar-se a um critério apriorístico é como amarrar as mãos para desatar um nó — tudo deve tomar-se a título de documentação, com caráter presuntivo e nada mais; e quando assim o faz Roso de Luna, suas elucubrações resultam interessantes como estudo erudito; quando se afasta dessa linha não faz mais que acrescentar outro conto, não menos maravilhoso, aos do livro.
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