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folktale:1001:apresentacao:pornografia

Pornografia

R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.

  • Falar do grosseiro sensualismo dos semitas é tão injusto quanto chamar de pornográficas As mil e uma noites, pois as licenças verbais da obra são expressões de um primitivismo ingênuo, não de uma intenção depravada.
    • A pornografia em As mil e uma noites só existe com relação aos ocidentais, não com relação aos orientais, que têm um modo muito distinto de apreciar essas coisas.
    • Burton precisou que o turpiloquium miliunanochesco é uma indecência ingênua, infantil, observada na conversação geral das classes alta e baixa desde Tânger até o Japão.
    • Burton afirma que essas expressões são simplesmente descritivas de situações naturais.
  • Os escritores franceses também defendem a inocência das expressões orientais, entendendo que os povos primitivos chamam as coisas por seus nomes e não condenam o que é natural.
    • Um escritor francês disse: “Les peuples primitifs n'y entendent pas malice; ils appellent les choses par leurs noms et ne trouvent pas condamnable ce qui est naturel.”
    • Mardrus, em seu prólogo, entende por povos primitivos aqueles que ainda não têm uma mancha na carne ou no espírito e que vieram ao mundo sob o sorriso da Beleza.
    • Mardrus afirma que a literatura árabe ignora totalmente o produto da velhice espiritual: a intenção pornográfica.
    • Segundo Mardrus, os árabes veem todas as coisas em seu aspecto hilariante; seu sentido erótico só conduz à alegria, e eles riem de todo coração, como crianças.
  • As licenças de As mil e uma noites são inocências e primitivismos, expressão natural de povos que não alcançaram o grau de pudor externo ocidental ou que entendem o pudor de outro modo, como se vê nos costumes de velar o rosto e mostrar os seios.
    • A mulher árabe vela a face e mostra os seios.
    • O arroto na mesa, que entre os ocidentais é de mau gosto, entre os árabes é uma homenagem ao anfitrião.
    • Os orientais seguem comendo com os dedos.
    • O turpiloquium de As mil e uma noites e de todos os livros orientais pertence a essa série de gestos.
  • O que choca os ocidentais hoje é resultado de séculos de elaboração de um sentimento severo do decoro, mas em outro tempo essas licenças também pareciam naturais na Europa.
    • Em todos os escritores europeus da Idade Média e ainda do início dos Séculos de Ouro — Chaucer, Rabelais, Juan Ruiz, Cervantes — encontram-se vocábulos e frases que então se escreviam e diziam sem ferir a delicadeza de ninguém.
    • Aqueles homens escreviam com uma franqueza igual à simplicidade com que falavam e comiam, sem eufemismos nem garfos.
    • O censor teológico de então deixava passar essas expressões, enquanto o censor literário de hoje as tacha por razões de bom gosto e não de moral.
  • A censura a essas ingenuidades não foi imposta por lei ou censor oficial, mas pela autocensura dos homens evoluídos, pela opinião pública e pela sociedade formada por homens e mulheres.
    • A sociedade proibiu essas licenças dos livros e dos salões, relegando-as aos antros e bordéis e aos livros francamente destinados a solazar a plebe ou o burguês a sós.
    • Essa repressão, puramente externa, opera-se em direção ao século XVIII e pertence ao capítulo da boa criação.
    • Ela suprime a expressão, mas permite a intenção, dando lugar a uma literatura mais pornográfica ainda, de uma pornografia espiritual, insidiosa e larvada, que se vale do duplo sentido e do equívoco.
  • Os orientais não chegaram a essa depravação, pois não está na natureza do árabe deleitar-se na imaginação erótica ao modo ocidental, não havendo margem para uma literatura pornográfica como a ocidental em países sem vetos sobre essa matéria.
    • A literatura pornográfica ocidental dos Aretinos do século XVI e dos abades franceses do século XVIII só poderia mover a riso entre os orientais.
    • Mardrus tem razão ao dizer que As mil e uma noites são impúdicas, mas inocentes, ou inocentonas, porque são simplesmente naturais.
    • A obra não poderia sustentar parangão com a literatura insidiosa e solapada do romance branco e rosa ocidental.
  • O realismo erótico de As mil e uma noites faz parte de seu realismo natural e é um reflexo do complexo sentimento que, nos países islâmicos, vela o rosto da mulher e deixa ao descoberto seus seios maternais.
    • Nada é menos propício ao erotismo imaginativo do que o espírito do Islã, que põe à satisfação sexual apenas um tope econômico: o das mulheres que cada qual pode sustentar.
    • Os vínculos conjugais se atam e desatam com facilidade no Islã, como se vê na anedota de Harun al-Raschid e o imã Abu-Yúsuf, segundo a qual o bom crente pode casar-se e descasar-se três vezes em um dia.
    • Em um regime social tão expeditivo, não haveria lugar para uma literatura pornográfica, assim como não haveria em um paraíso de nudistas.
  • Existem na literatura árabe tratados de didática erótica, como o Kamasutra e suas imitações, mas todos esses livros são tratados de educação sexual, exposições de técnicas comparáveis a manuais de cultura física, escritos com seriedade como textos de eugenesia rudimentar.
    • Entre esses tratados estão o Kitabu-l-Isha fil'lm n-Nekah (Livro da Exposição na ciência do coito), atribuído ao teólogo Suyuti, e o Kitabu-n-Nauasiri-l-Aik fi-n-Naik (Livro dos esplendentes verdes do Loto na Cópula), do mesmo autor.
    • Também há o Kitabu-r-Rechuisch-scheij ila sebá fi-l Kuuati-l-Bah (Livro da volta do ancião à mocidade na potência da copulação), de Ahmad-ben-Soleimán, apelidado Ibn-Kamal Paschá.
    • O primeiro livro citado de Suyuti começa com a invocação: “Louvado seja o Senhor, que adornou os virginais peitos com tetas e formou as coxas da mulher para que fossem bigornas das moharras (lanças) do homem!”
  • Em vão se buscaria entre os árabes uma literatura francamente pornográfica, destinada exclusivamente ao regodeio sexual ou a procurar satisfação ilusória aos desejos represados, pois as licenças dos escritores são franquezas adânicas ou recursos para mover à hilaridade.
    • Não há margem no Oriente para as lascívias insidiosas, complexas e refinadas que os vetos sexuais inspiram no Ocidente.
    • As desnudezes verbais dos escritores árabes não são exibições, mas franquezas adânicas, naturalidades de gentes que vivem mais segundo a Natureza.
    • A observação de Mardrus é certa: o pornográfico entre os árabes tende ao cômico e é um recurso para produzi-lo, lembrando os filhos de Noé, que riram ao ver seu pai nu.
  • Em vão se buscaria na literatura árabe livros apologéticos ou justificativos da imoralidade sexual, como o Corydon de Gide, pois as histórias de tipo wildeano que figuram em As mil e uma noites são contos para fazer rir.
    • A pederastia é uma praga entre os árabes como sobrevivência de uma prática comum a todos os povos antigos.
    • Não se encontram na literatura árabe livros de intenção wildeana.
  • Quem pensasse, pelos signos exteriores do turpiloquium miliunanochesco, que os árabes não têm pudor, se enganaria, pois o Corão previne qualquer revelação sexual prematura às crianças, e a própria História de Tauaddud mostra uma mulher que vacila em falar sobre a união sexual.
    • O Profeta recomenda no Corão aos crentes que, ao fazer suas abluções, ponham um véu entre eles e os menores de idade.
    • Na História de Tauaddud, a escrava (Noites 269 a 280), ao ser interrogada pelos doutores sobre o tema da união sexual, tem um gesto de autêntico pudor e vacila em contestar, tendo que animá-la o próprio califa.
    • A sapientíssima Sayyidetu-l-Muschaij, ao final de sua muchádila sobre os méritos do varão e da fêmea, se desculpa de ter traspasado os limites do decoro e falado daquilo de que não deve falar uma mulher honesta.
  • Esses passos indicam que também entre os orientais existe o sentimento de pudor e o bom gosto, atuando como censura autônoma e marcando zonas pudendas na literatura, tendo essa censura relegado o turpiloquium à esfera do plebeu e malsonante.
    • Nos livros e, sobretudo, nas revistas ilustradas como o Al-Ahram, do Cairo, guarda-se a mesma pulcritude e delicadeza que nas publicações ocidentais.
    • As liberdades verbais seguem subsistindo na conversação, na literatura falada, que é irresponsável, mas não na literatura impressa.
    • A letra de molde impõe à palavra responsabilidade e consciência; a palavra se vê a si mesma melhor na letra de forma e se ruboriza.
  • Sempre, mesmo nos tempos de maior licença, existiu a urbanidade no homem e no escritor o decoro, o pudor verbal, sendo que os senhores nunca se expressaram com a liberdade da plebe.
    • Nos escritores do século XVII espanhol, em Cervantes, pode-se seguir a dupla linha plebeia, popular e aristocrática, nos respectivos linguagens de Sancho Pança e Dom Quixote.
    • Há povos que desde seus primeiros momentos literários se mostram limpos desses títulos sensuais e grosseiros, como o ariano, por isso chamado de povo de senhores.
    • Os poemas sânscritos mais antigos aparecem puros de toda contaminação sensual.
  • Gregos e romanos alcançaram cedo a linha do decoro, que entre os romanos se tornou proverbial como integrante de sua “majestas”, relegando a licença de tema e expressão à zona do pudendo e punível.
    • Ovídio pagou com o desterro suas licenças no Ars amandi.
    • O pornográfico, o obsceno, ficou logo entre eles relegado aos antros e bordéis.
    • Marcial, o ibero, que é já outra coisa, dá cem a zero ao pobre Ovídio em seus Epigramas sem sofrer dano maior, primeiro porque rima sátiras condenatórias do vício e segundo porque as atiborra de sal.
  • Não se deve esquecer os contos milesios dos gregos nem as comédias fesceninas dos romanos, que são literatura primitiva e tosca, como sua linguagem ainda não cristalizada, mas vê-se o pudor com que em Dáfnis e Cloé são tratados os mistérios sexuais.
    • Nas decadências se acentuam os extremos, pois são extremas elas mesmas.
    • O decoro, as boas formas se exageraram tanto que pesam sobre o homem, e por reação surgem o libertinagem verbal e o naturalismo como regressão rousseauniana à Natureza.
    • No final do século XVIII surgem livros como La Glu, de Richepin, que provocam um clamor de protesta e a palavra infamante: pornografia.
  • A reação do público e da crítica ocidental é a mesma que uma versão de As mil e uma noites sem véus tem que provocar, embora se trate apenas de licenças verbais que no Oriente a ninguém chocam.
    • Os ocidentais passaram por essa evolução do pudor e do bom gosto e não consideram elegante nem decente o exibicionismo oriental.
    • Galland fez muito bem em velar essas desnudezes de expressão, agindo como Sem ao lançar piedosamente seu manto sobre seu pai — um gesto pudico de alto valor na Bíblia.
    • As edições integrais só se justificam a título de documentação científica, de curiosidade intelectual, e devem ficar reservadas para leitores capacitados por seu autocontrole.
  • A pornografia, como tal, não tem nenhum interesse nem valor defensível; o único defensável é o direito do escritor sério a expressar integralmente a verdade da vida e do ser, como faria um naturalista.
    • É muito difícil que um escritor assim eluda a nota de pornográfico e não tenha que passar toda a vida se defendendo.
    • Foi necessário um processo muito longo para estabelecer as regras do bom gosto que regem sobre a humanidade vestida.
    • O processo inverso não será menos longo, até que se recupere a naturalidade suficiente para ver naturalmente essas naturalidades.
    • Até lá, todo esse setor da vida natural estará reservado para círculos de intimidade.
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