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folktale:1001:apresentacao:teatro

Teatro e oratória

R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.

  • Os semitas não têm teatro e nunca sentiram, como os gregos, a necessidade ou o gosto de contemplar a vida refletida nesse espelho de arte, apesar de possuírem uma história dramática cheia de episódios trágicos.
    • Os semitas não têm teatro.
    • Eles nunca sentiram, como os gregos, a necessidade nem o gosto de contemplar a vida refletida nesse espelho de arte.
    • É um fenômeno notável que não tenha teatro um povo que tão dramática história possui.
    • A história semita é tão cheia de episódios trágicos, de argumentos que não haveria mais que tomá-los para convertê-los em tragédias literárias.
    • Citem-se tantas lutas civis pelo poder, tanta querela tribal, tantos extermínios em massa, como o dos omíadas pelos abássidas e o da família Barmeki por Harun al-Raschid.
  • Não falta aos árabes, nem na época islâmica nem na pré-islâmica, esse fundo, essa mitologia racial da qual os gregos tiraram suas imortais tragédias, nem tampouco esses quadros reais de costumes de onde surgiu entre aqueles a comédia.
    • A própria Bíblia é uma veia de argumentos teatrais.
    • O livro de Judite, o de Rute, etcetera, inspiraram no Ocidente adaptações teatrais não menos copiosas que as de argumentos clássicos.
    • No entanto, os semitas, donos dessa fonte, não se preocuparam em beneficiá-la.
    • Trata-se, sem dúvida, de um fenômeno de profunda raiz na psicologia racial.
  • Não cabe invocar a razão religiosa para explicar a falta de teatro entre os árabes, pois os persas, também muçulmanos mas de origem ariana, têm um teatro de caráter religioso que dramatiza a paixão e morte de Ali, o amigo de Maomé, e seus filhos.
    • Os persas, também muçulmanos, mas de origem ariana, têm um teatro.
    • O teatro persa é precisamente de caráter religioso.
    • Ele dramatiza a paixão e morte de Ali, o amigo de Maomé, e seus filhos, pelos usurpadores do califado.
    • A peça se representa diante do público em todos os aniversários da luctuosa efeméride.
  • Os turcos, que tampouco são árabes, cultivam o teatro há cerca de um século, gênero em que se distinguiram Munif Pascha, Ekrem Bey, Kemal Bey e outros grandes literatos otomanos, tendo começado tomando argumentos das histórias de As mil e uma noites.
    • Os comediógrafos turcos começaram tomando seus argumentos precisamente das histórias de As mil e uma noites.
    • Essas histórias, adaptadas por eles, se representavam em Bagdá, Damasco e demais cidades do antigo império Abássida, diante de um público de muçulmanos que as presenciava com deleite.
  • Isso não significa que os árabes tenham chegado a ter um teatro, nem sequer sentido a tentação de imitar e emular nesse terreno persas e turcos, o que indica um fenômeno de psicologia racial, talvez do mesmo individualismo que se reflete em suas formas políticas.
    • Não se trata de um fenômeno explicável pela razão religiosa.
    • O teatro é uma manifestação de vida pública, uma dilatação da ágora e do fórum, em consonância com uma fórmula de democracia política que os árabes nunca conheceram, nem antes nem depois de Maomé.
    • Os árabes nunca tiveram essa vida pública que, entendida de uma ou de outra maneira, tiveram todos os povos da Europa.
  • A vida social dos árabes se desliza sigilosa e isolada pelos estritos tabiques do individual, parecendo eles viver apenas para si, vendo-se juntos solidariamente apenas nos templos e nos campos de batalha.
    • Antes de Maomé, as tribos árabes, ainda idólatras, reuniam-se todos os anos na feira de Okazd, em uma espécie de anfictionias raciais, e celebravam uma festa étnica.
    • No programa da festa figuravam, como nas anfictionias helênicas, corridas de cavalos e torneios de armas — jogos e canas dos romances espanhóis — e justas poéticas, para as quais cada tribo enviava seu melhor cantor.
  • Maomé, inimigo dos versos e dos jogos frívolos que distraem o homem do pensamento em Deus, acabou com esses rudimentos de vida pública árabe e, com a revelação de seu Corão, dividiu ainda mais essas sempre divididas tribos.
    • Maomé era inimigo dos versos ou, melhor dito, por sê-lo ele, dos poetas, e dos jogos frívolos que distraem o homem do pensamento em Deus e suas postrimeiras.
    • Ao dirigir o homem para o imã e foco divinos, Maomé o apartou de seus semelhantes e concentrou toda sua vida espiritual nessa hipnose absorvente, incapacitando-o para a vida social ou de relação.
    • Um dos recursos da vida social é o teatro.
    • A partir de então, os árabes não passaram, em matéria de representações dramáticas, dos rudimentares quadros mímicos, mojigangas e palhaçadas de que se fala nessas histórias.
  • À mesma razão se deve que os árabes também não tenham tido oratória, nem oradores famosos como os gregos, pois a oratória, como o teatro, sai da intimidade e solidão da vida estritamente religiosa.
    • A oratória, como o teatro, sai da intimidade e solidão da vida estritamente religiosa.
    • Talvez, se não tivesse surgido o intransigente Profeta, que aspirava a unir seus compatriotas no laço exclusivo da crença em Alá, a evolução das raças árabes tivesse seguido uma linha helênica.
    • Nesse caso, teriam se desenvolvido entre eles esses gêneros literários que as instituições democráticas engendram naturalmente, nos quais é preciso contar com a opinião e tratar de conquistar seu sufrágio.
  • Os árabes poderiam contar hoje com seu Demóstenes, seu Apeles e seu Fídias, pois o temor à idolatria não os teria apartado da representação plástica da figura humana.
    • O temor à idolatria não os teria apartado da representação plástica da figura humana.
    • Tão belos corpos de mulher e homem, de Vênus e Apolos orientais, que apenas celebram os poetas, teriam deixado sua sombra materializada ao passar pelo mundo.
    • Essas sombras não se teriam sumido por inteiro, ao morrer, no abismo insondável da divindade ou do Nada.
  • Faltos de instituições democráticas que favorecem o desenvolvimento pleno da personalidade, os árabes perderam sua opção ao desenvolvimento de seu gênio em mais de um domínio das artes justamente chamadas liberais porque requerem liberdade.
    • Os árabes não haviam passado pelo rasdouro igualitário da teocracia mosaica.
    • Eles foram detidos em seus primeiros voos políticos pelo braço unitário do Profeta de Alá, que os fez irmãos, é verdade, mas na escravidão, ainda que fosse divina.
    • Os árabes perderam sua opção ao desenvolvimento de seu gênio em mais de um domínio das artes justamente chamadas liberais porque requerem liberdade.
  • Os árabes não têm oratória no verdadeiro sentido da palavra, não podendo chamar-se assim as dissertações na presença dos reis nem as arengas ocasionais como as das histórias de Táriq, o conquistador do Andalus, que provavelmente são imitação das de Heródoto e Xenofonte.
    • As dissertações na presença dos reis não podem ser chamadas de oratória.
    • As arengas ocasionais, como as que trazem as histórias de Táriq, o conquistador do Andalus, ou de outros caudilhos militares a suas tropas antes da batalha, também não podem ser chamadas de oratória.

Essas arengas são provavelmente imitação das que Heródoto e Xenofonte põem na boca de seus guerreiros.

  • Elas tampouco têm mais garantias de autenticidade que as arengas rimadas de arautos e heróis em Homero e Ferdusi.
  • Em As mil e uma noites se encontram amostras do estilo oratório entre os árabes em forma de arengas, exortações e discussões acadêmicas, como as que Sayyidetu-l-Muschaij sustenta nas Disputas entre o homem e a mulher ilustrada sobre as excelências do varão e da fêmea (Noites 266 a 268).
    • Essas amostras esporádicas não permitem falar de eloquência entre os árabes.
  • Os árabes suprem essa falta de eloquência oral com a eloquência escrita das cartas, das risalat, epístolas de amor ou de assuntos políticos, das quais há múltiplas e brilhantes amostras em As mil e uma noites.
    • As risalat constituem entre os árabes um gênero de composição especial, subdividido em muitos subgêneros.
    • Para cada subgênero se requer um cálamo, um caráter de letra e um estilo distinto.
    • Os árabes seguem observando o protocolo da carta que entre os ocidentais já não rege.
    • Hoje, como nos tempos de As mil e uma noites, é obrigado levar-se à cabeça, em sinal de apreço e respeito, a carta que se recebe, antes de abri-la.
  • A redação de uma epístola exige uma arte complicada que é preciso aprender em livros que tratam disso, sendo a carta no Oriente ainda a epístola, com a solenidade que a palavra tem em Cícero e em Paulo de Tarso.
    • A carta no Oriente é ainda a epístola, com essa solenidade que a palavra tem em Cícero e em Paulo de Tarso.
  • As cartas de enamorados que se inserem em As mil e uma noites estão escritas em um estilo alambicado, de prosa rítmica, coalhada de metáforas e imagens poéticas, em que o autor põe todos os recursos de sua ciência retórica.
    • Essas cartas são verdadeiras joias de literatura romântica.
    • Elas podem sustentar o parangão com as que figuram nos mais famosos livros de cavalaria.
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