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Fábula italiana

CALVINO, Italo. Fábulas italianas. São Paulo: Companhia Digital, 2012.

A questão sobre uma pobreza de produção fantástica do povo italiano foi mal colocada por Comparetti e repetida por Bartoli e Graf, tendo sido Ferdinando Neri (em um ensaio de 1934) quem a enfrentou e recolocou em seus devidos termos.

  • O “balanço” das tradições populares é completamente ilusório, pois os testemunhos são casuais, e os inúmeros confrontos com o folclore de outros países excluem qualquer possibilidade de localização duradoura.
  • Neri esclareceu que, no plano do folclore, o quesito sobre o caráter mais ou menos pobre das fábulas na Itália não tinha sentido, e passou a examiná-lo no plano da história do gosto literário.

As origens da fábula e a influência histórico-geográfica

  • As escolas que estudam as relações entre a fábula e os ritos da sociedade primitiva fornecem resultados surpreendentes, e que as origens da fábula estejam lá parece fora de dúvida.
  • É necessário reconhecer a importância da vida em época “histórica” que toda fábula teve, enquanto pura narrativa de passatempo, com uma sequência de viagens de boca em boca, de aldeia em aldeia.
  • Sobre os resultados (embora frequentemente muito vagos) dos estudos do método fínico poderia ser levada adiante uma pesquisa sobre a história do conto popular italiano, mas tal investigação ainda não foi realizada.
  • De maneira genérica, pode-se dizer que a influência do mundo germânico limitou-se às zonas mais setentrionais, a corrente dominante é a que vem da França, a influência do mundo árabe-oriental consolidou-se principalmente no Sul, e a Toscana exerceu uma função de definição e difusão de “tipos” entre os séculos XIV e XVI.
  • O cantar extrai da fábula seus motivos e por sua vez contribui para moldá-la em sua forma, como se recorda em “Liombruno”, “Gismirante” e na “Istoria di tre giovani disperati e di tre fate”.

A marca medieval e as características da fábula italiana

  • Deve-se estar atento ao “medievalizar” a fábula, pois o povo do século XIX não “vê” as fábulas com as imagens dos livros ilustrados, sendo as descrições esqueléticas e a terminologia genérica.
  • A marca medieval sobre o conto popular permanece forte, com muitos torneios, trabalhos para cavaleiros, diabos e contaminações com as tradições sagradas.
  • O substrato da fábula pagã e pré-pagã inteirou-se das instituições, da ética e da fantasia feudal-cavaleiresca, fundindo-se com a onda de sugestões de origem oriental.

O amor nas fábulas italianas

  • Uma das raras fábulas com “provável origem italiana” é a do amor das três laranjas (ou três cidras, ou três romãs), uma fonte de metamorfoses de gosto barroco.
  • Na fábula italiana perpassa um contínuo e sofrido estremecimento de amor, dominando o gênero “Amor e Psique”, que é o esposo sobrenatural do qual não se pode revelar o nome nem o segredo.
  • Os etnólogos dão interpretações sugestivas sobre o gênero “Amor e Psique”: Psique é a moça que vive nas casas de iniciação, e o conto representa um amor nascido durante a iniciação e condenado a ser rompido pelas leis religiosas.
  • As paixões mais concretas e sofridas das fábulas são aquelas em que primeiro se possui a pessoa amada para vir a conquistá-la só depois.
  • Nas versões apresentadas, foi necessário suavizar toda carga sensual desse gênero considerando as crianças que vão ler ou ouvir as fábulas.

A fábula infantil e a moral

  • A fábula não tinha uma destinação de idade no século XIX, sendo uma expressão plena das necessidades poéticas daquele estágio cultural.
  • A fábula infantil existe como gênero em si mesmo, com tema pavoroso e truculento, detalhes escatológicos ou coprolálicos e versos intercalados com tendência para a lenga-lenga.
  • A moral da fábula está sempre implícita, na vitória das virtudes simples das personagens boas e no castigo das perversidades dos malvados, quase nunca se insistindo de forma sentenciosa.
  • Na história do “Papagaio”, que serve de moldura para outras fábulas, o papagaio, narrando uma história interminável, salva a virtude de uma donzela, exprimindo a inteligência técnica do narrador na paródia das fábulas “que nunca terminam”.

A técnica narrativa e os mundos da fábula

  • A técnica da fábula se vale tanto do respeito às convenções quanto da liberdade inventiva, com um número de passagens obrigatórias e “motivos” que se trocam de um “tipo” para outro.
  • Na Sicília, rei, corte e nobreza são instituições precisas e concretas, com hierarquia, etiqueta e código moral próprios, e os reis não tomam decisões sem consultar o Conselho: “Lu Re tocca campana di Cunsigghiu: eccu tutti li Cunsigghieri. ‘Signuri mei, chi cunsigghiu mi dati?’”; ou “Lu Riuzzu grida: ‘Cunsigghiu!’ e cci cunta lu statu di li cosi.”
  • Na Toscana, rei é uma palavra genérica que não implica nenhuma ideia institucional, limitando-se a designar uma condição abastada, sendo possível encontrar um rei vizinho de outro rei que se visitam como dois bons burgueses.
  • O oposto ao mundo dos reis é o mundo dos camponeses, com o encaminhamento “realista” de muitas fábulas partindo de uma condição de extrema miséria, fome ou falta de trabalho.
  • Existe a fábula camponesa do princípio ao fim, com herói coxo e poderes mágicos como ajuda precária para a força braçal, como no magnífico “Pelo mundo afora” siciliano, em “José Peralta que, quando não arava, tocava flauta” dos Abruzos, em “O presente do Vento do Norte” do Mugello e em “Catorze” das Marcas.
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