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Alberich

LECOUTEUX, Claude. Les nains et les elfes au Moyen Age. Paris: Imago, 1988.

Alberîch e Siegfried

  • O nome Alberîch — que significa “elfo poderoso” ou “poderoso entre os elfos” — é surpreendentemente raro na literatura germânica medieval, aparecendo apenas duas vezes entre mais de cem anões catalogados nos textos entre 1150 e 1340, e sua forma nórdica Álfrikr surge na Þiðrekssaga af Bern, compilação norueguesa de meados do século XIII.
    • O Nibelungenlied — Canção dos Nibelungos — foi composto no sul da Alemanha nos primeiros anos do século XIII a partir de fontes muito mais antigas
    • Siegfried encontra Alberîch ao chegar ao pé de uma montanha onde os filhos do rei Nibelung — Nibelung, o filho mais velho, e Schilbung — tentam dividir o tesouro dos Nibelungos e pedem ao herói que arbitre a partilha em troca da espada Balmung
    • Alberîch, guardião designado do tesouro, ataca Siegfried usando seu manto mágico que o torna invisível — é derrotado, jura fidelidade ao herói, que lhe rouba o manto e lhe confia a guarda do tesouro
    • Na última aparição de Alberîch, após o assassinato de Siegfried, Kriemhild ordena que o tesouro dos Nibelungos seja transportado para Worms
    • Alberîch é descrito como um velho homem de barba, dotado de força considerável — o épico Biterolf und Dietrich, escrito por volta de 1260, afirma que esse anão possuía a força de vinte homens, sem qualquer objeto mágico que a justificasse
    • O motivo da fraqueza física dos anões, difundido nas cortes do século XIII, não é portanto original
  • O nome Nibelung — formado de nibel-, “névoa, nevoeiro, nuvem”, cognato do nórdico antigo nifl e do latim nebula, com o sufixo germânico -ing/-ung indicando pertença e linhagem — revela que o reino dos Nibelungos é um império mítico comparável ao Niflheimr nórdico, o “Mundo da Névoa”, nome do reino dos mortos na mitologia escandinava antiga; e o nome Schilbung, cujo elemento schilb- remete à raiz proto-indo-europeia skilp, relacionada ao latim scirpus — “junco” —, aponta para o mundo aquático.
    • A raiz proto-indo-europeia nebh-, postulável a partir de nibel-, forma numerosos topônimos ligados a corpos d'água — a névoa é uma das formas assumidas pela água, liberada por ondas e rios
    • O Niflheimr nórdico é cercado por rios furiosos — o que não parece ser coincidência
    • Essas etimologias estabelecem uma conexão entre os senhores de Alberîch e o elemento água
  • O Reginsmál — o Discurso de Reginn, poema da Edda Poética — preserva traços muito mais antigos da lenda de Siegfried do que o Nibelungenlied e revela que o tesouro dos Nibelungos tem origem aquática e natureza maldita, sendo a reparação financeira que os deuses Odin, Hœnir e Loki pagaram pelo assassinato de Otr, filho do rei Hreidmar.
    • Loki pescou o anão Andvari que nadava sob uma cachoeira na forma de um lúcio e exigiu o tesouro que ele guardava; Andvari reteve um anel, que Loki tomou à força, desencadeando a maldição: “Este ouro que Gust possuía será a morte de dois irmãos e causa de discórdia entre oito príncipes; meu tesouro não será útil a ninguém”
    • Fáfnir, segundo filho de Hreidmar, apoderou-se do tesouro e transformou-se em dragão para protegê-lo — Siegfried mata o dragão, episódio célebre graças ao Anel dos Nibelungos de Wagner — e mata também Reginn, irmão de Fáfnir, igualmente pelo tesouro
    • Hagen, vassalo do rei Gunther dos Burgúndios e grande defensor de sua honra, assassina Siegfried precisamente por causa do tesouro, que tornaria o herói mais poderoso que os Burgúndios — e depois afunda o tesouro no Reno
    • Um paralelo pode ser estabelecido entre o Reginsmál e o Nibelungenlied sem esquecer que a lenda de Siegfried é originalmente franca, não escandinava
  • Todas as figuras associadas ao tesouro revelam conexão com a água — Otr significa “lontra”; Andvari assume a forma de um lúcio; o tesouro vem da água e a ela retorna — e o nome do anão Andvari, que significa “Guardião do Sopro” no sentido do princípio vital, corresponde ao nórdico antigo andi/önd, “sopro, vento, espírito”, termo regularmente empregado pelos clérigos para traduzir animus e anima.
    • A palavra alemã para alma é Seele, derivada do gótico saiwala, “pequeno lago” — indicação clara de que a água ocupava lugar central nas crenças dos antigos germânicos sobre o princípio vital
    • O lexema alb/alf-, “elfo”, deriva da raiz proto-indo-europeia albh-, cujo sentido primário é “branco, claro” — cognato do latim albus — raiz que subjaz também ao nome do rio Elba e ao nórdico antigo elfr, “rio”; em alto-alemão antigo, o cisne se chama alpiz e o amieiro — árvore que prefere zonas úmidas — albari
    • A família de criaturas à qual Alberîch pertence está intimamente ligada à água em suas duas formas simbólicas mais antigas — a vida, associada ao animus, e a morte, evocada por nibel e nifl

Alberîch e Ortnit

  • No épico cortês Ortnit, do século XIII, Alberîch aparece como espírito guardião indispensável do jovem rei da Lombardia, distinto do Alberîch feroz do Nibelungenlied e mais próximo de Aubéron pela beleza solar, pela longevidade de quinhentos anos e pelo encontro que se dá numa floresta ou em sua proximidade imediata.
    • Ortnit decide casar-se para assegurar sua linhagem e escolhe a filha de Machorel — o sultão da Síria, na verdade Malek-al-Adel — que vive no Montabur, o Monte Tabor, e manda degolar todos os mensageiros que lhe pedem a filha em casamento
    • A mãe de Ortnit lhe dá um anel maravilhoso com uma pedra: “Em todo lugar que você puder cavalgar, faça-o brilhar. Ele indicará se a aventura está próxima” — o anel funciona como uma espécie de bússola cujo polo magnético é a aventura cavaleiresca
    • Ortnit encontra sob um tília um ser com aparência de criança de quatro anos adormecida; ao acordar, a criatura golpeia o rei com tal força que o deixa atordoado; após breve luta, Ortnit prevalece — mas o texto sugere que a criança deixou-o vencer intencionalmente
    • Alberîch se apresenta: “Sou um anão selvagem e muitas montanhas e vales me estão sujeitos… Meu nome é Alberîch… e sou um rei como você… Você governa o que está sobre a terra e eu faço o que quero com o que está abaixo”
    • Alberîch oferece a Ortnit uma armadura, caneleiras, escudo, elmo e espada fabricados pelos anões na montanha de Goukelsachs
    • O anão rouba o anel de Ortnit e torna-se invisível para quem não o usa; joga pedras no rei e zomba dele: “Para que serviria essa couraça? De que utilidade seria para um reino um tolo como você? Vou dar a armadura a alguém que saiba usá-la bem”
    • Alberîch submete o rei a uma dupla prova — física e intelectual — que o cavaleiro mal supera; o homem de experiência triunfou sobre o jovem inexperiente
    • Alberîch revela ser o pai de Ortnit, fruto de uma violação cometida “num belo dia verde de maio”: “Você deveria esquecer; ela não consentiu” — ato da Terceira Função que engendrou um herdeiro para um casal sem filhos, evitando a extinção da linhagem e o caos do reino
    • O anel — que desempenha aqui a função do animal encantado que guia o cavaleiro rumo à aventura — foi o instrumento pelo qual Alberîch atraiu seu filho até si; o sonho que inspirou Ortnit a partir em busca de aventura foi provavelmente enviado pelo próprio anão
    • Em Muntabur, Alberîch permanece invisível, esbofeteia o sultão, quebra os ídolos, rouba as armas dos inimigos e as lança no fosso da fortaleza, espia conversas, entra no quarto da filha de Machorel, toca música para ela e a convence a seguir Ortnit — comportando-se como um espírito malicioso e travesso
    • Machorel se vinga enviando ovos de dragão à Lombardia; os répteis devastam o país e Ortnit, ao tentar matá-los, é engolido vivo por um deles
    • Em Wolfdietrich — épico escrito como continuação de Ortnit — Alberîch reaparece sem ser nomeado como um anão peludo e barbado que tenta em vão despertar o cavaleiro adormecido pelo poder hipnótico do dragão, figura do hipnális, serpente fabulosa bem conhecida dos eruditos medievais

Álfrikr

  • Na Þiðrekssaga af Bern, o anão Álfrikr — nome que corresponde exatamente a Alberîch — é apresentado como “o mais famoso ladrão e o mais habilidoso de todos os anões” e desempenha papel central na lenda da espada fabulosa Nagelringr, que ele próprio forjou e roubou do casal de gigantes Grimr e Hildr para entregá-la ao herói Thidrekr em troca da liberdade.
    • O Eckenlied — conto de um gigante que parte para enfrentar Teodoric de Berna para agradar três fadas — completa a lenda: a espada foi forjada pelos anões de Goukelsachs, uma montanha oca situada no Dral, rio que corre perto de Troia, e foi subsequentemente roubada pelo rei Ruodlieb
    • Álfrikr não guarda qualquer relação com os dois Alberîchs anteriores nem com Aubéron — a única ligação possível é de ordem tipológica, relativa à forja e à posse de objetos fabricados por anões
    • Álfrikr é um mestre ladrão — o oposto do puro Aubéron, do travesso Alberîch de Ortnit e do feroz Alberîch do Nibelungenlied — correspondendo portanto a um tipo diferente, a outra família de criaturas fantásticas

Alberic

  • No início do século XX, Carl Voretzsch acreditou ter encontrado no personagem histórico-lendário Alberic, o Encantador, o arquétipo de Aubéron — mas a análise mostra que se trata de uma lenda etiológica construída ad hoc para ancorar uma figura literária num passado merovíngio fabricado.
    • Jacques de Guyse, no século XV, coletou em seus Annales historiae illustrium principum Hannonie um fragmento da obra perdida de Hugos de Toul — morto em 1157 — no qual aparece um Alberic que teria vivido na época merovíngia e possivelmente combatido Meroveu
    • Hugos de Toul descreve Alberic como construtor de templos a Mercúrio e Minerva, de castelos nos Vosges e de cidades como Estrasburgo, Toul, Épinal e Plombières; filho de Clodião, rei dos Francos e pai de Meroveu; sepultado na terra dos Nervios — a Bélgica atual — num lugar chamado Ara Alberici, depois Coma ou Huppa Alberici
    • O topônimo La Houppe d'Albertmont corresponde a Albertici mons e não a um hipotético Alberici mons — o que indica formação ad hoc de uma lenda etiológica
    • O único traço de interesse mítico nessa figura é sua relação com a floresta — foi sepultado num pequeno bosque no alto de uma colina, e o antigo francês houppe significa “bosque, arvoredo”
    • Este Alberic não é um anão e o nome que porta era corrente entre os humanos; a época de sua suposta vida era já considerada pelos homens do século XII como tempo de lenda e fábula
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