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ANÕES E ELFOS
LECOUTEUX, Claude. Les nains et les elfes au Moyen Age. Paris: Imago, 1988.
- Na Idade Média, os anões habitavam o mundo humano e eram buscados ou temidos como seres de poder concreto que intervinham na vida cotidiana, no reparo de objetos, na orientação de cavaleiros e no enfrentamento de gigantes e dragões.
- Berthe fiava, Pepino, o Breve, temia o encontro com fadas, a Rainha Pata de Ganso escondia o pé de ganso nas dobras da roupa e São Brandão partiu em busca do paraíso terrestre
- A natureza estava habitada por milhares de criaturas, frequentemente noturnas, entre as quais se encontravam os anões
- Oferendas de comida e roupas eram deixadas sob árvores, em celeiros e estábulos como forma de estabelecer relação com esses seres
- Os anões forjavam armaduras esplêndidas, espadas que não podiam ser embotadas e joias incrustadas com pedras cintilantes dotadas de propriedades maravilhosas
- Os anões permanecem entidades misteriosas, vestígios da antiguidade medieval ocidental que o tempo transformou em personagens diminutos de contos e lendas, apagando a singularidade original de cada um.
- Duendes, elfos, gnomos e trasgos — cada um possuía outrora vida própria e atividade refletida em seu nome
- Séculos de erosão histórica os tornaram fragmentos que os pesquisadores do século XX encontram ao se debruçar sobre textos antigos
- A cristianização representou o golpe definitivo contra os anões, confundindo raças distintas com íncubos, demônios e diabos, e fazendo a Igreja amaldiçoar, adulterar e embaralhar as tradições a ponto de torná-las quase inextricáveis para os pesquisadores.
- A Igreja identificou nesses seres o traço de um paganismo detestado e os fulminoucom o anátema
- Os fios das diversas tradições foram entrelaçados de tal forma que formaram um novelo de difícil desenlace
- A falta de obras recentes e confiáveis sobre os anões contrasta com a familiaridade popular da imagem — homenzinhos barbudos de gorro vermelho, travessos, prestimosos e ágeis — que aparece em jardins ornamentais sem que ninguém questione sua origem.
- As monografias anteriores existentes já são datadas e problemáticas por se apoiarem exclusivamente na literatura cortês ou em coleções relativamente recentes de contos folclóricos, como a dos Irmãos Grimm
- A imagem do anão de jardim é especialmente difundida na Bélgica, na Alemanha e nos Estados Unidos, e menos na França
- Aubéron ou Oberon — também chamado Alberîch — é o mais célebre dos anões medievais e percorreu uma longa trajetória literária e musical que atravessou séculos e fronteiras, desde sua aparição na França do século XII até óperas e melodramas do século XIX e início do XX.
- A primeira aparição de Aubéron se dá em Huon de Bordeaux, texto do século XII de autor desconhecido que alcançou enorme popularidade
- Sir John Bourchier traduziu o romance para o inglês após sua versão flamenga
- Chaucer menciona Aubéron nas Histórias de Cantuária; Robert Greene o leva ao palco na História Escocesa de Jaime IV; Edmund Spenser lhe confere genealogia magnífica na Rainha das Fadas
- Shakespeare consagrou o personagem ao introduzir Oberon em Sonho de uma Noite de Verão
- O Conde de Tressan (1705—1783) redescobriu a figura chamada de “pequeno rei das fadas” e a adaptou para a série literária Bibliothèque universelle des romans
- C. M. Wieland inspirou-se nessa adaptação para escrever seu Oberon (1780), sobre o qual Goethe emitiu o seguinte juízo: “Amaremos o Oberon de Wieland enquanto a poesia for poesia, o ouro for ouro e o cristal for cristal”
- Carl Maria von Weber transformou Oberon em ópera, estreada no Covent Garden em 12 de abril de 1826 e apresentada pela primeira vez em Paris em 25 de maio de 1830
- Émile Roudié adaptou o tema para uma peça em 1912; Alex Arnoux escreveu um melodrama com Oberon como herói em 1922
- Aubéron situa-se na encruzilhada das tradições céltica e germânica, e sua incorporação à literatura no século XIII por um clérigo de Saint-Omer integra a grande renascença do maravilhoso que se acendera um século antes.
- Daniel Poirion escreve: “Temos a sensação de estar diante de um tipo lendário e provavelmente folclórico, mas é difícil situá-lo entre as tradições céltica e germânica”
- Autores e poetas recorreram às tradições orais, às crenças populares e à literatura erudita — geografias, narrativas de viagem — para enriquecer seu repertório de temas e motivos
- Aubéron encarna uma combinação de força e graça, justiça e inteligência, grandeza e caridade, e sua verdadeira natureza arcaica transparece sob o verniz cortês das narrativas medievais, fazendo dele uma ponte entre diferentes literaturas e crenças da antiguidade.
- Pequeno de estatura mas de poderes vastos, corcunda mas belo, Aubéron é o espírito guardião do jovem Huon de Bordeaux
- A questão de saber se o Aubéron da literatura cortês é o mesmo que o Alberîch germânico divide os pesquisadores, e a especialização excessiva em uma única civilização revela-se um obstáculo ao entendimento, pois ignora a intensa circulação de pessoas, manuscritos e crenças na Europa medieval.
- O conceito de homo viator — o homem medieval como viajante — expressa a mobilidade que caracterizava a época
- Mercadores, jograis e clérigos difundiam informações; sínodos, concílios, peregrinações, feiras e festivais promoviam intercâmbios constantes
- A estratificação de culturas resultante de invasões em larga escala, incursões vikings, estabelecimento de entrepostos comerciais e colonização de terras incultas misturou tradições — França e Inglaterra são exemplos eloquentes
- É necessário abraçar o horizonte mais amplo possível sem negligenciar as especificidades de cada civilização, utilizando todo material disponível e iluminando a literatura pelo conhecimento da sociedade e vice-versa.
- Georges Dumézil é evocado como exemplo do que se pode extrair das névoas do esquecimento ao transpor as fronteiras do Ocidente
- A proximidade entre os mundos céltico e germânico se revela no exame dos textos em que os anões desempenham papel importante, enquanto o mundo romano permanece completamente alheio a esse universo.
- O anão está completamente ausente da literatura romana, ao passo que se sente em casa em toda a área germânica
- A literatura arturiana — os romances da Távola Redonda — revela um tesouro de motivos célticos com mitos e deuses ainda reconhecíveis sob disfarce, embora os anões apareçam nela apenas em papéis menores e anônimos
- Para dissipar o mistério dos anões medievais é preciso penetrar numa floresta densa — ora Brocelianda, ora Selva Carbonária — e seguir trilhas parcialmente apagadas, escavando vestígios do passado sob a poeira dos séculos, a fim de responder às questões essenciais sobre o que é um anão, de onde vem e o que encarna.
- Por meio dos anões é possível vislumbrar a coerência das tradições folclóricas e sua conexão com a mitologia e a religião, revelando uma cultura não cristã que existiu paralelamente à cultura clerical e cujos últimos traços resistiram a toda tentativa deaculturação até o alvorecer da era industrial.
- As obras de ficção apresentam uma imagem truncada, mas não surgida do nada — os escritores medievais selecionavam os elementos que serviam a seus propósitos, e os motivos dispersos foram equivocadamente interpretados como meros clichês literários ou ornamentos do gosto pelo maravilhoso
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