RICE
CYPRIAN RICE Ο. P.. The Persian Sufis, 2d ed. London, 1969
O fenômeno sufi é de difícil definição, uma vez que seus adeptos nunca pretenderam fundar uma nova religião, mas sim purificar e espiritualizar o Islã por dentro, utilizando textos do Alcorão de maneira análoga ao uso da Bíblia pelos místicos cristãos.
- O movimento sufi visava menos prender os homens a um novo conjunto de regras do que libertá-los de regras externas, abrindo-os ao movimento do espírito, sendo disseminado principalmente pela poesia e pelo canto.
- O dogma central do sufismo é uma interpretação do testemunho muçulmano “Não há deus senão Deus”, segundo a qual o coração humano deve se voltar sempre e sem reservas para o único Amado divino.
- Não se sabe quem foi o primeiro sufi, pois embora ascetas que usavam vestes de lã (suf) tenham surgido no início da história do Islã, o que se conhece como sufismo surgiu misteriosamente no século IX da era cristã, já atingindo a maturidade nos séculos X e XI sem um iniciador ou fundador único.
A identidade e o futuro do sufismo O sufismo constitui um caminho, uma doutrina e uma forma de conhecimento espiritual conhecida como ‘irfān ou ma’rifat, correspondente à gnose grega, possuindo grandes nomes como Maulānā Rumi, Ibn al ‘Arabi, Jami e Mansur al Hallaj, que são familiares em todo o mundo islâmico e além.
- Se a função do sufismo no passado foi espiritualizar o Islã, seu propósito no futuro será tornar possível uma soldagem do pensamento religioso entre Oriente e Ocidente, uma mistura e compreensão ecumênicas que constituam um retorno às origens e à unidade original.
- Apesar de quaisquer preconcepções ou reservas, é difícil, após um estudo cuidadoso de suas vidas e escritos, não reconhecer um parentesco entre o espírito e o vocabulário sufis e aqueles dos santos e místicos cristãos.
- O termo “místico” é usado aqui para significar doutrinas sobre o caminho para Deus ou para a perfeição derivadas da experiência e inspiração interiores, ao invés de raciocínio dedutivo ou tradição positiva, conforme expresso nas palavras de Sheikh ‘Attar sobre os ditos dos grandes místicos.
A primazia persa no misticismo islâmico Considerado em seu conjunto, o que se chama de “misticismo islâmico” é um produto persa, pois a Pérsia é a pátria do misticismo no Islã, embora o fogo místico tenha se espalhado rapidamente pelo mundo islâmico, encontrando combustível em corações de não persas.
- A vingança da Pérsia pela imposição do Islã e do Alcorão árabe foi sua tentativa de transformar a perspectiva religiosa de todos os povos islâmicos através da disseminação do credo sufi e da criação de um corpo de poesia mística quase tão conhecido quanto o próprio Alcorão.
- A combinação, no sufismo, do amor místico e da paixão com um desafio ousado a todas as formas de formalismo rígido e hipócrita teve um efeito fascinante e surpreendente sobre sucessivas gerações muçulmanas em todos os países.
- Através desse saber místico expresso em um meio poético incomparável, a Pérsia conquistou um domínio espiritual muito mais extenso do que qualquer um obtido pelas armas de Ciro e Dario, descobrindo sua verdadeira vocação espiritual entre os povos do mundo.
A transformação interna do Islã pela mente persa e suas raízes antigas Essa ousada transformação do Islã de dentro para fora pela mente mística da Pérsia começou já na vida do Profeta com o papel desempenhado por Salman, o Persa, e revelou-se na rápida espiritualização da pessoa de ‘Ali e na evolução do significado místico de Maomé em torno da noção da “luz de Maomé” (nūr muhammadi).
- A influência da Pérsia levou, por um lado, à formação da Xiita, envolvendo o significado espiritual-místico atribuído ao Imã, e, por outro lado, ao acúmulo de um grande corpo de ahādith (ditos tradicionais) atribuídos ao Profeta para conformar seus ensinamentos ao modelo sufi.
- O vigor do gênio espiritual persa não é um fenômeno que surgiu repentinamente no início do Islã, pois há quem afirme que a corrente do misticismo persa puro seguiu seu curso, ora aberto, ora oculto, ao longo dos tempos, como sugerem os escritos de Suhravardi e da escola Ishraqi.
- A atração exercida e a penetração alcançada por religiões persas, como o Mitraísmo e o Maniqueísmo, até as fronteiras mais distantes do Império Romano, bem como os feitos dos missionários da Igreja Cristã da Pérsia na Ásia, Índia, China e Japão, demonstram que a radiação universal do espírito persa não se confinou ao mundo islâmico.
O caráter prático do sufismo e seus grandes mestres Embora palavras como ma’rifat ou ‘irfān possam sugerir um movimento especulativo, o sufismo é fundamentalmente uma ciência prática, o ensino de um modo de vida, que exige um treinamento rigoroso sob a guia de um pai espiritual sábio (Pir u Murshid).
- Em um grande escritor místico como Jalal-edDin Rumi, as descrições místicas mais sublimes nunca são inteiramente divorciadas de exortações morais, pois as virtudes morais são vistas como meios para criar as condições necessárias para alcançar uma união mais estreita com o Amado divino.
- A advertência de Sheikh ‘Attar de que os ditos dos grandes místicos são o resultado de empreendimento e experiência espirituais, brotando de uma fonte direta de insight e fontes sobrenaturais de conhecimento, e não de aprendizado mecânico e repetição, destaca a autenticidade da experiência sufi.
A recepção ocidental do sufismo e os grandes estudiosos Por muitos séculos, o vasto tesouro da sabedoria mística persa foi um livro fechado para o Ocidente, sendo somente em 1774 que os Comentários Latinos sobre a Poesia Asiática de Sir William Jones abriram o caminho para o conhecimento dos escritores persas, embora com pouco impacto.
- Foi na Alemanha, no período Romântico, que ocorreu o grande deslumbramento, com o West-östlicher Diwan de Goethe sendo sua primeira consequência, seguido pelos estudos de Ruckert, Herder e outros que fizeram do verso místico persa o fermento do novo movimento poético e filosófico em seu país.
- Na Inglaterra, o estudo da literatura persa foi imensamente impulsionado pelo trabalho magistral e abundante do Professor E. G. Browne, que teve o privilégio de encontrar em R. A. Nicholson um estudioso cujo trabalho resultou na edição anotada de odes místicas do Divan de Shams do Tabriz, na edição de Hujviri e Sarraj, e na sua magnum opus, a edição do Mathnaviyi Ma’navi de Rumi.
O uso da linguagem da mística cristã e o desafio do legado sufi O uso da linguagem da mística cristã para tratar do sufismo justifica-se pela semelhança das operações de Deus com as almas em todos os climas e da resposta similar que as almas humanas lhe dão, embora não se queira afirmar que Billuart ou Bossuet atribuíam necessariamente o mesmo significado aos termos que Rumi ou Bistimi.
- Don Miguel Asin Palacios, ao falar de certos ensinamentos sufis como “um Islã cristianizado” ou ao considerar Ibn Abbid de Ronda um “precursor hispano-muçulmano de São João da Cruz”, mostra que as semelhanças vão além das formas de linguagem, refletindo uma atitude profundamente cristã de abandono aos dons carismáticos (karimāt).
- O estudo dos místicos sufis, que encontraram seu caminho através de desertos sem caminho sem a guia segura de uma autoridade infalível, pode ter a vantagem de inspirar humildade ao se perceber os tesouros místicos que podem ter sido deixados escapar por descuido ou dissipação.
- Conformando-se ao desejo expresso pelo Papa João XXIII em um discurso a abades beneditinos de considerar “não tanto o que divide as mentes, mas o que as une”, o estudo do misticismo islâmico pode contribuir para uma melhor compreensão da vida interior das vastas populações muçulmanas da Ásia e da África.
A relação com o Cristianismo e o sonho ecumênico de Maomé Sob o amplo guarda-chuva do Islã, com seu dogma conciso “Lā ilāha illa ’llāh”, abriga-se uma vasta gama de doutrinas religiosas e práticas devocionais, muito do qual se originou em regiões da Ásia Ocidental onde o Cristianismo e o monaquismo cristão tiveram expansão notável.
- É provável que grande parte dos ensinamentos místicos dos primeiros séculos, difundidos por toda a Ásia Ocidental, tenha sido transmitida às gerações subsequentes após a conquista muçulmana, sendo não apenas retomada, mas também repensada e desenvolvida de maneiras originais pelos devotos.
- Em qualquer esforço para promover o entendimento entre Oriente e Ocidente, seria irrealista deixar de considerar as numerosas populações muçulmanas entre as quais os cristãos orientais vivem e se movem, pois o sonho de Maomé não era fomentar, mas sim curar o cisma entre as mentes ao propor a adesão a um único dogma sobre o qual todos pudessem concordar.
- A visão de Dante na Divina Comédia, que coloca Maomé e ‘Ali entre os autores de cisma, contrasta com a perspectiva de que Maomé sonhava em reconciliar todos através da proclamação de que “Não há deus senão Deus”, sendo ele o Profeta deste anúncio ou “evangelho”.
