TARJUMAN, NICHOLSON
Nicholson, Ibn Arabi, Tarjuman al-Ashwaq
Ibn Arabi (560–638 H.), o mais célebre de todos os místicos muçulmanos, tem como única obra até então publicada em edição europeia um breve glossário de termos técnicos sufis, editado por Fluegel em 1845 junto com a Tarifat de Jurjani, sob o título Definitiones theosophi Mohjied-din Mohammed ben Ali vulgo Ibn Arabi dicti.
- Nenhum de seus livros havia sido traduzido para qualquer língua europeia.
- Sua vasta especulação teosófica, que causou impressão extraordinária em todo o mundo muçulmano, ainda não dispunha de relato fidedigno.
- A maior parte de seus escritos é em prosa, mas o conjunto poético inclui um Diwan de cerca de 450 páginas, publicado em Bulaq em 1271 H., e várias coleções menores.
- Uma dessas coleções é o Tarjuman al-Ashwaq, ou Intérprete dos Desejos.
- O principal motivo para estudar o Tarjuman foi o fato de ser acompanhado de um comentário em que o próprio autor explica o significado de quase cada verso.
- A brevidade da obra foi também uma forte recomendação, além da posse de um excelente manuscrito submetido a duas colações e correções.
Os manuscritos do Tarjuman al-Ashwaq apresentam três recen sões distintas, o que constitui um curioso problema de história literária relativamente à data de composição dos poemas e do comentário.
- A primeira recensão, representada pelos manuscritos de Leiden 875 (2), Brit. Mus. 1527 e Gotha 2268, contém os poemas sem o comentário; no prefácio, Ibn Arabi menciona sua chegada a Meca em 598 H., o que levou Dozy a supor, sem fundamentos suficientes, que os poemas foram compostos nesse ano.
- Os poemas foram condenados por alguns muçulmanos devotos como frívolos e amatórios.
- A segunda recensão, representada por Leiden 641 e Brit. Mus. 754, contém os mesmos poemas com um comentário e um novo prefácio, em que Ibn Arabi declara tê-los composto durante sua visita aos lugares sagrados de Meca nos meses de Rajab, Shaban e Ramadan do ano 611 H.
- A terceira recensão, representada por Bodl. (Uri) 1276, Munich 524, Berlin 7750 e 7751 e pelo manuscrito citado por Hajji Khalifa, concorda com a segunda quanto à data de composição, mas acrescenta uma declaração sobre as circunstâncias que levaram o autor a escrever o comentário.
- O manuscrito utilizado por Nicholson parece ser único por conter o prefácio da primeira recensão e o acréscimo que diferencia a terceira da segunda.
Dozy acreditava que a data verdadeira de composição, 598 H., estava no prefácio da primeira recensão e que Ibn Arabi a teria postergado treze anos ao publicar a segunda recensão, para apagar a memória de seu escândalo.
- Segundo Dozy, para eliminar a memória de sua ofensa, o poeta não apenas provou pelo comentário que o amor celestial — e não o terreno — era o tema que o inspirava, mas também alegou que os poemas foram compostos em época diferente.
- Dozy afirmou que, por esse artifício, embora não pudesse enganar quem já os havia lido, poderia iludir quem apenas ouvira falar deles e do escândalo que provocaram.
- A teoria de Dozy é considerada insustentável pelos seguintes motivos.
1. Prefácio da Primeira Recensão
Na chegada a Meca em 598 H., Ibn Arabi encontrou um grupo de eruditos e sábios, homens e mulheres, cujos antepassados haviam emigrado da Pérsia nos primórdios do Islã, mencionando especialmente Makinu ddim Abu Shuja Zahir b. Rustam b. Abi r-Raja al-Isbaham e sua idosa irmã, Fakhru n-Nisa bint Rustam.
- Com Makinu ddim, Ibn Arabi leu o livro de Abu Isa at-Tirmidhi sobre as Tradições Apostólicas.
- Pediu a Fakhru n-Nisa que lhe transmitisse Tradições, mas ela se escusou alegando a idade avançada e o desejo de dedicar os últimos anos à devoção; consentiu, porém, que seu irmão escrevesse em nome dela uma licença geral para todas as Tradições que ela havia transmitido, e Ibn Arabi recebeu licença semelhante do próprio Makinu ddim.
- Makinu ddim tinha uma filha jovem chamada Nizam, com o sobrenome Aynu sh-Shams wa l-Baha, extraordinariamente bela e renomada por seu ascetismo e pregação eloquente.
- Ibn Arabi elogia seus dons intelectuais, literários e espirituais, observando a nobreza de sua natureza, realçada pela convivência com o pai e a tia.
- Ibn Arabi a celebrou nos poemas desta coletânea com o estilo e o vocabulário eróticos, sem poder expressar nem uma pequena parte dos sentimentos que a lembrança de seu amor por ela suscitava.
- O autor declara: “Sempre que menciono um nome neste livro, aludo a ela; e sempre que choro por uma morada, quero dizer a morada dela. Nestes poemas significo sempre influências divinas e revelações espirituais e analogias sublimes, segundo o modo mais excelente que nós, sufis, seguimos… Que Deus proíba que os leitores deste livro e de meus outros poemas pensem em algo inconveniente para almas que desprezam o mal e para espíritos elevados que estão ligados às coisas do Céu! Amém!”
- Os poemas foram compostos em Meca, durante a visita aos lugares sagrados nos meses de Rajab, Shaban e Ramadan, e neles Ibn Arabi aponta alegoricamente para diversos tipos de conhecimento divino, mistérios espirituais, ciências intelectuais e exortações religiosas, valendo-se do estilo erótico por ser este o mais adequado às almas humanas.
2. Prefácio da Segunda Recensão
O prefácio da segunda recensão reproduz, após uma lista dos nomes e títulos de Ibn Arabi, o mesmo parágrafo conclusivo da primeira recensão, com a indicação explícita do ano 611 para a composição dos poemas em Meca, sem variação adicional.
3. Prefácio da Terceira Recensão
A terceira recensão é idêntica à segunda, acrescentando apenas uma declaração sobre os motivos que levaram o autor a escrever o comentário.
- O comentário foi escrito a pedido do amigo al-Masud Abu Muhammad Badr b. Abdallah al-Habashi al-Khadim e al-Walad al-Barr Shamsu ddim Ismail b. Sudakin an-Nuri, na cidade de Aleppo.
- Shamsu ddim havia ouvido um teólogo observar que a declaração de Ibn Arabi no prefácio do Tarjuman — segundo a qual os poemas eróticos se referem a ciências e realidades místicas — não era verdadeira, e que provavelmente ele havia adotado esse recurso para se proteger da acusação de compor poesia erótica sendo um homem famoso pela religião e pela piedade.
- Ofendido com tais observações, Shamsu ddim as repetiu a Ibn Arabi, que começou a escrever o comentário em Aleppo; parte dele foi lida em voz alta em seus aposentos na presença do teólogo mencionado e de outros sábios, por Kamaluddin Abu l-Qasim b. Najmu ddim, o Cadi Ibn al-Adim.
- O comentário foi concluído com dificuldade e de modo imperfeito, pois Ibn Arabi estava com pressa para continuar a viagem.
- Ao ouvir o comentário, o crítico declarou a Shamsu ddim que nunca mais duvidaria da boa-fé de qualquer sufi que afirmasse atribuir significação mística às palavras do uso comum, e passou a ter excelente opinião de Ibn Arabi.
Com todos os materiais disponíveis examinados, a teoria de Dozy sobre a falsificação da data é considerada insustentável pelos seguintes motivos.
- (a) Ibn Arabi não implica, no prefácio da primeira recensão, que os poemas foram compostos em 598 H.; ao mencionar sua chegada a Meca nesse ano, fala de seu conhecimento de Nizam como algo passado e de Makinu ddim como já falecido.
- (b) A hipótese de que 598 H. seja a data de composição não é exigida pelos fatos; nenhum argumento foi avançado para mostrar que a data de 611 H., fornecida pelo próprio autor, seja impossível ou improvável — não há nada de incrível na afirmação de que, visitando os santuários sagrados de Meca nesse ano, o autor foi inspirado pelas cenas familiares a celebrar em estilo místico sentimentos de amor ligados a um período anterior de sua vida.
- © Os próprios poemas contêm evidência de que não foram compostos na data que Dozy lhes atribui: os versos 2 e 3 do trigésimo segundo poema indicam que Ibn Arabi tinha 50 anos quando os escreveu; tendo nascido em 560 H., em 598 H. tinha apenas 38 anos, ao passo que em 611 H. tinha 51 — dizer “50” em lugar de “51” é uma pequena licença poética que não exige justificativa, enquanto na suposição de Dozy o autor teria que ter antedatado a própria idade e postdatado os poemas em consideravelmente mais de uma década em cada caso.
- Conclui-se que o relato de Ibn Arabi é correto e que a composição do Tarjuman al-Ashwaq foi concluída no Ramadan de 611 H. (janeiro de 1215 D.C.); poucos meses depois, o autor começou a escrever o comentário em Aleppo, que, segundo Hajji Khalifa, foi concluído no Rabi ath-thani do ano seguinte (agosto de 1215 D.C.).
A sinceridade de Ibn Arabi ao afirmar que seus poemas eram místicos em espírito, embora eróticos na forma, deve ser respondida afirmativamente.
- Estudiosos de poesia oriental frequentemente se perguntam se determinado poema de amor é um ode místico disfarçado ou um ode místico expresso na linguagem do amor humano, sem conseguir decidir — mas no caso do Tarjuman o equilíbrio não é tão bem calibrado a ponto de cada leitor poder escolher a interpretação que lhe agrada.
- Alguns poemas não se distinguem de canções de amor comuns, e a atitude dos contemporâneos do autor, que recusaram acreditar que tivessem qualquer sentido esotérico, era natural e inteligível; por outro lado, há muitas passagens obviamente místicas que fornecem a chave para as demais.
- Se os céticos careciam de discernimento, merecem gratidão por terem provocado Ibn Arabi a instruí-los — pois sem sua orientação os leitores mais simpáticos raramente teriam descoberto os significados ocultos que sua fantástica engenhosidade extrai das frases convencionais de uma casida árabe.
- O fato de suas explicações exagerarem não prova sua insinceridade: ele precisava satisfazer seus críticos, e teria sido difícil convencê-los de que os poemas eram místicos em espírito e intenção sem dar uma interpretação precisa e definida de cada verso e de quase cada palavra.
- A necessidade de entrar em detalhes triviais — e um árabe tende a exagerar os detalhes em detrimento do conjunto — leva o autor a recorrer a analogias verbais rebuscadas e a descer com rapidez surpreendente do sublime ao ridículo.
- Ao publicar o comentário, Ibn Arabi omitiu do prefácio as passagens relativas à bela e talentosa Nizam, presentes na primeira recensão, pois certamente haviam sido mal interpretadas e era inevitável que despertassem suspeitas; suprimi-las era apenas privar seus críticos de uma arma poderosa contra a qual não poderia se defender com eficácia.
- Para Ibn Arabi, se Nizam era para ele uma Beatriz — e manifestamente não era outra coisa — um tipo de perfeição celestial, uma encarnação do amor e da beleza divinos, ele corria o risco, aos olhos do mundo, de aparecer como um amante que protesta sua devoção a um ideal abstrato enquanto celebra abertamente os encantos de sua amada.
- Nos poemas ela raramente é mencionada pelo nome, mas há uma ou duas referências particulares, como as dos poemas XX (15–17), XXIX (13–15) e XLII (4–5).
Os manuscritos utilizados para a edição são três, sem discussão dos poemas do ponto de vista literário e artístico nem relato das doutrinas místicas presentes no comentário.
- O manuscrito N, da coleção do próprio editor, datado de 1029 H., contém o texto dos poemas (escritos a tinta vermelha) e o comentário, com inscrições na última página certificando duas colações e correções diligentes; parece ser único por conter o prefácio da primeira recensão e o acréscimo que diferencia a terceira da segunda.
- O manuscrito L, da Biblioteca da Universidade de Leiden, Cod. 875 (2) Warn., contém apenas o texto dos poemas com um prefácio, datado de 992 H.
- O manuscrito M, também da Biblioteca da Universidade de Leiden, Cod. 641 Warn., datado de 984 H., contém texto e comentário.
- O texto árabe impresso é baseado em N, com variantes de LM registradas em rodapé; o texto apresenta muitas irregularidades gramaticais e métricas e não está vocalizado em nenhum dos manuscritos.
- O comentário em N, base da tradução, é às vezes menos completo que o de M, que inclui alguns trechos das Futuhat al-Makkiyya; a versão inglesa do comentário é geralmente muito abreviada, mas as passagens interessantes e importantes foram traduzidas quase palavra por palavra.
- O texto do prefácio e dos poemas será transcrito conforme N, seguido de versão inglesa dos poemas com anotações baseadas no comentário do autor.
