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JAMBET

Christian Jambet (1949)

ELMARSAFY, Ziad. Esoteric Islam in modern French thought: Massignon, Corbin, Jambet. London New York (N.Y.) Oxford: Bloomsbury Academic, 2021.

Christian Jambet's Resurrections

A filosofia manifesta-se a partir de um evento de natureza apocalíptica que sinaliza a consumação do mundo e a chegada da grande ressurreição.

  • A indagação central recai sobre o comportamento humano diante do encerramento dos tempos.

A trajetória intelectual de Christian Jambet revela uma transição do ativismo maoísta para o estudo profundo do pensamento islâmico, mantendo a busca por uma dimensão mística da experiência revolucionária.

  • A participação nas massas e a visibilidade de Mao em Pequim configuram processos de revelação e participação repetidos em outros mecanismos revolucionários.
  • A ruptura com o grupo Gauche Prolétarienne ocorre após as revelações sobre o Gulag e as consequências do Grande Salto Adiante, embora aspectos dos ideais maoístas tenham sido preservados.
  • O estudo da filosofia islâmica sob supervisão de Henry Corbin permite o domínio de um vasto corpo de trabalho focado no sufismo, no iluminismo e no xiismo.
  • A reflexão filosófica é acompanhada por monumentos literários como Baudelaire, Blanchot, T.S. Eliot, Yeats e Genet.

A ausência de neutralidade científica no trato com os temas filosóficos aproxima o pensamento das preocupações imediatas da escatologia e da ressurreição.

  • Ao contrário de Massignon, que utilizava al-Hallaj para pensar o desejo, ou de Corbin, que buscava certeza na visão sufi, a ênfase recai sobre a ressurreição como preocupação presente.
  • É somente na morte que o sujeito desejante encontra a certeza de si.
  • A filosofia é compreendida como libertação, autotransformação, cuidado de si e arte da existência, preparando o ser para uma vida futura.
  • O objetivo filosófico é permitir a participação completa entre o intelecto humano e o divino, identificando a própria filosofia como ressurreição.

A busca pela liberdade no pensamento islâmico explora a liberdade criadora do real através do pensamento xiita e da filosofia de Mulla Sadra.

  • A liberdade é expressa como o próprio ser em sua autarquia, independência e verdade.
  • Conceber a liberdade como o próprio ser, em sua autarquia, sua independência completa, e em sua doação livre de necessidade de ser e de verdade.
  • A metafísica da luz de al-Suhrawardi e a doutrina do movimento de Mulla Sadra representam formas de liberdade distantes das noções de autonomia de Kant.
  • O fenômeno da ordem é comparável à proliferação de conceitos em Leibniz, compreendendo a ordem tanto como imperativo quanto como configuração hierárquica do ser.
  • Tudo no universo é uma teofania, uma revelação e manifestação do divino modelada em entidades superiores.
  • A tarefa do filósofo assemelha-se ao desenvolvimento de uma fotografia, observando e interpretando manifestações e visões.
  • O conhecimento procede por apresentação em vez de representação, onde pensar é agarrar e entender é assimilar o conceito a si mesmo.

A epistemologia da imediatez recusa a separação entre metafísica e ontologia, centrando-se na unicidade de Deus.

  • A interpretação do monoteísmo absoluto impulsiona reflexões sobre o lugar do Um no universo ordenado.
  • Grupos como os ismaelitas e sufis abstraem o ser do Um, enquanto Na?ir al-Din al-?usi propõe uma dialética interna que resulta no Um paradoxal, que é e não é ao mesmo tempo.
  • O paradoxo é a forma da verdade na filosofia islâmica, presente nas afirmações de al-Hallaj como Eu sou a Verdade.

O pensamento é estruturado por um historicismo estratificado que reconhece a pluralidade de histórias heterogêneas em paralelo.

  • A história mundial verdadeira resulta da integração dessas modalidades divergentes contra as escatologias de Hegel, Marx e Mao.
  • A Grande Ressurreição de Alamut é estudada como um evento sem arquivos que privilegia os vencidos da história.
  • Existem modos de verdade que são independentes da história ou, em todo caso, resistentes ao curso da história.
  • Minha convicção mais profunda é que o mérito dos pensadores aos quais fazemos alusão é de ter retardado, ou ao menos contradito, por pouco que seja, o curso do mundo.
  • Movimentos como os malamatiyya representam pontos de resistência individual contra a configuração política do Estado.

A transição do ativismo para a erudição islâmica é ilusória, pois as preocupações com a revolução permanecem fundamentais no estudo do pensamento de Mulla Sadra.

  • As obras iniciais como Apologia de Platão e os textos coescritos com Guy Lardreau, L’Ange e Le Monde, já orbitavam os temas da liberdade e da ordem.
  • Julian Bourg descreve a evolução para uma postura ética como um jansenismo contemporâneo após o fracasso de 1968.
  • Peter Starr identifica uma reinvenção do paradigma da alma bela de Hegel sob influência de Lacan nos primeiros trabalhos.
  • Andrew Gibson utiliza a teoria do evento de Alain Badiou para ler a obra como uma contra-fenomenologia do espírito através de Alamut.

A relação com o pensamento de Lacan é marcada por uma tensão onde se escreve com e contra o psicanalista.

  • O real em Jambet distancia-se da definição lacaniana de impossível, pois no universo de Avicena não há real no sentido lacaniano.
  • O real lacaniano é o refugo, o que cai da corrente.
  • Jambet busca demonstrar a correspondência entre conhecimento e verdade, opondo-se à disjunção lacaniana onde a verdade é o que falta ao conhecimento.

A influência de Foucault é determinante na concepção de uma oposição não dialetizável entre forças de submissão e de libertação.

  • Foucault é visto como alguém que compreendeu a política espiritual do Islã xiita e a transformação do dogma em teologia política na revolução de 1979.
  • O estilo de Foucault é descritivo, buscando o que aparece na própria superfície da fala grega ou romana sem buscar estruturas ocultas.
  • Não se busca o sentido escondido, mas se busca antes o sentido aparente, o qual é em realidade mais escondido do que o sentido supostamente escondido.
  • A estética da existência e a estilização da liberdade regulam a conduta não pela oposição entre permitido e proibido, mas pelo cuidado de si e pela sabedoria.
  • A ontologia de si mesmo é um nominalismo, expressão de experiências históricas descontínuas e reais que rompem com a noção cristã de livre-arbítrio.

A revolução angélica defendida em colaboração com Guy Lardreau exige uma nova ontologia que interrompa a alternância entre revolução e tirania personificada pela figura do Mestre.

  • O Anjo simboliza a possibilidade de um outro mundo contra todas as potências e dominações.
  • Contra todas as potências e as dominações, manter a esperança de que um outro mundo, apesar de tudo, é possível.
  • A concepção política do mundo é denunciada como uma forma de ver harmonia onde reina a guerra e liberdade onde a ordem é aperfeiçoada.
  • A essência da concepção política do mundo é desejar um mestre sem o saber.
  • A oposição entre o oculto e o aparente traduz-se nos polos da hermenêutica arábica como al-Ba?in e al-?ahir.
  • A rebelião é a única oposição eficaz contra a tirania da comunidade política, sendo a alma a marca no sujeito do desejo de rebelião.
  • O rebelde sozinho opõe esta vida que ele tanto ama à decadência política ou à atroz monotonia da desigualdade e da injustiça.
  • Lin Biao é evocado como o rebelde que encarnou o espírito da Revolução Cultural, entendida como algo que toca as pessoas em suas próprias almas.
  • Se revolução cultural significa o que questiona o homem no que ele tem de mais profundo, sua alma muito mais que suas relações sociais.

A imortalidade da alma e a mudança de ser são fundamentais para derrotar a morte, que é o mestre absoluto.

  • Mulla Sadra define a morte e a ressurreição como mudanças no ser em vez do fim de todas as coisas.
  • A revolução cultural é o aperfeiçoamento contínuo de uma alma devotada à finitude de uma eterna memória da opressão.
  • A alma deve mudar para que o mundo mude, sendo a vitória da alma boa sobre a corrupta uma forma de recriação.
  • Exemplos de rebelião absoluta são encontrados nos sufis malamatiyya e em figuras como Teófilo e Maria, que abandonam a riqueza e a vaidade.
  • Condenar o próprio ser para arrancar dele a alma.

Deus é compreendido não como o oposto da liberdade, mas como o nome sob o qual o ato infundado da liberdade pode ser pensado.

  • O Um da primeira hipótese do Parmênides de Platão é a única ideia ocidental pagã a figurar o Anjo.
  • Se o Um pode simbolizar o dois, é porque sua natureza é irredutivelmente dupla.
  • A dualidade ou dualitude é ontologicamente prioritária ao Um, sem possibilidade de síntese hegeliana ou reconciliação.
  • Como reconhecer as exigências do dois, da dualidade não dialetizável?

Alamut

A ressurreição angélica é localizada historicamente nos eventos de Alamut em 1164, onde se proclamou o fim do mundo e a libertação da morte.

  • Hassan ibn Buzurg Ummid é o líder que realiza o projeto platônico de converter o vínculo social em relação de puro amor.
  • A comunidade deu a si mesma a tarefa de cumprir o desejo essencial do platonismo; ela quis converter o vínculo social em um puro vínculo de amor.
  • A literatura de T.S. Eliot, Yeats, Blanchot e Borges suplementa a história onde os arquivos são ausentes.
  • A revolução ensaia a ressurreição, sendo o ato de pensar um mundo melhor o início da sua construção.
  • Os ismaelitas de Alamut são vistos como os maoístas da Idade Meia, realizando uma revolução que toca as almas e torna a justiça realidade.

A Ressurreição é inscrita em uma concepção cíclica do tempo que alterna entre períodos de ocultamento e períodos de manifestação.

  • A ressurreição é o evento da tradução do Ba?in para o ?ahir, do esotérico para o exotérico.
  • A gnose ou irfan é o conhecimento que torna a humanidade una com o saber espiritual.
  • Os Amigos de Deus não sentem nenhuma dificuldade em conservar a gnose, no sentido de que os ensinamentos da exegese esotérica moldam com sua marca suas almas espirituais e se tornam consubstanciais à substância de sua alma.
  • A hermenêutica do símbolo consiste em explicitar as puras formas espirituais e gravá-las nos corações dos buscadores.
  • O Imam é a própria Ressurreição, sendo o mestre da manifestação dos significados ocultos.
  • No instante da ressurreição, a realidade oculta reverte a dominação do aparente, o dia e a noite trocam seu poder, e uma alegria infinita quer colocar fim à antiga servidão.
  • O messianismo é o tornar-se-mundo da interpretação.

A libertação chega quando o medo de uma deidade vingativa desaparece, permitindo a purificação da conduta dos literalistas.

  • A vida após a ressurreição é uma conversão a uma nova ordem legal e política baseada em significados espirituais revelados.
  • É culpado por não reconhecer e cumprir o absoluto; é culpado por dar uma forma relativa, submetida ao esquema geral da lei, ao absoluto e ao imperativo.
  • A confissão de fé islâmica é lida como uma afirmação de divisão interna ao Um: O Um não é Um, o Um é um.
  • A alteridade inerente ao Um é expressa na fórmula: O Outro é o Outro e não é o Outro; portanto, o Outro é o Outro.
  • A dualitude no coração do ser fundamenta a ética pós-Alamut, baseada na pedagogia ou ta’lim.
  • O Imam incorpora o princípio da liberdade divina como um sujeito que oferece uma configuração discursiva à alteridade.
  • É o desejo da verdade no sujeito que suscita a aparição do imam e que demonstra a necessidade de seu ato de ser.
  • O ismaelismo quer ao mesmo tempo a emergência da verdade e a transmissão iniciática do saber.
  • A abolição da lei das cinco orações canônicas dá lugar a uma prece autêntica perpétua, onde os rostos das almas estão voltados para a presença divina.
  • A ética ismaelita prioriza o tornar-se si mesmo do outro, eliminando o foco na individualidade.

O Imam de Alamut revela a Ressurreição como a encarnação do imperativo divino Be! que retorna a criação ao seu momento originário.

  • A êxtase da ressurreição é acompanhada pela melancolia da incognoscibilidade de Deus.
  • T.S. Eliot é utilizado para pensar o mundo que não é mundo, mas aquilo que não é mundo, em uma escuridão interna e destituição de toda propriedade.
  • A ressurreição é um tempo fora do tempo e um evento histórico fora da história, pertencente à metahistória.
  • Através de Blanchot, evoca-se o convite eterno ao divino através da palavra Vem.
  • Eu digo eternamente: Vem, e eternamente ela está lá.
  • Não podemos fazer o outro vir, podemos apenas deixar o outro vir, abrindo espaço em nossas vidas e almas.

Mulla Sadra

Mulla Sadra é considerado o Hegel do Islã e representa a culminação da ontologia na filosofia islâmica através da integração do finito no infinito.

  • A filosofia do gnóstico é a verdadeira religião, unicamente preocupada com a alma e seu destino.
  • O movimento intra-substancial perpétuo é o conceito central onde tudo está sempre se movendo para ou a partir de Deus.
  • A teodiceia pode servir à libertação ao fundamentar uma ética de revolução e ressurreição perpétuas.
  • Hegel nos dirá: A história é uma teodiceia. Sadra dirá em suma que o movimento substancial do ser é teodiceia.
  • A fidelidade ao evento de si mesmo, em diálogo com Alain Badiou, consiste na insistência e perseverança na intensificação de si.
  • Sejamos fiéis ao evento que somos.

A interpretação é o caminho real para a liberdade, permitindo o abandono de leituras exotéricas em favor da gnose.

  • Praticar o ta’wil não é dar um sentido oculto qualquer a um discurso literal, mas experimentar a letra em espírito.
  • A liberdade é autarquia, independência e soberania da alma em relação ao seu substrato físico.
  • O cuidado de si permite que o fiel se eleve ao paraíso moldado interiormente pela fidelidade ao Imam.
  • O homem configura progressivamente seu ato de ser, decidindo, ao longo de sua vida, mais ou menos conscientemente, do que será seu paraíso ou seu inferno.
  • A boa conduta repetida fortalece a alma, enquanto o hábito vicioso traduz o enfraquecimento do ato de existir.
  • O bom hábito é o fruto da liberdade e permite uma liberdade mais intensa ainda, uma maior facilidade em escolher a via direita.

A filosofia é ressurreição para aqueles que levam uma vida filosófica, sendo esta uma metanoia que muda o homem em sua profundidade.

  • A ressurreição é o resultado de uma revolução no ser, de uma revolução do ato mesmo de existir.
  • Cada um ressuscita segundo a forma de seu desejo, transformando um evento profetizado em uma prova moral.
  • A finalidade última é a extinção de si, equivalente à apatia do sábio estoico.
  • O salvamento espiritual é a felicidade verdadeira, a posse dos inteligíveis.
  • A felicidade real é a presença real do Intelecto agente na alma.
  • Conhecer o fim de toda coisa e receber um vivo encorajamento a deixar este baixo-mundo para viver segundo a vida do outro mundo.
  • Saber que este mundo findará e preparar-se para deixá-lo, sabendo o que será esta hégira espiritual: a passagem do sentido aparente do universo ao seu sentido oculto.

Conclusão

A fidelidade ao evento de nós mesmos é máxima no momento da ressurreição, que é a propriedade mais geral do universo.

  • A comunidade ideal é uma comunidade angélica onde os membros vivem unidos como se não estivessem nos corpos.
  • O amor é o nome do vínculo máximo onde as diferenças se abolem e a sociabilidade atinge sua intensidade máxima.
  • Não é a ruína da sociabilidade, mas sua intensidade máxima que pode e deve figurar o Real do político.
  • A invenção do outro, conforme Derrida, é o advento do evento da verdade que surpreende.
  • Em todos os casos e através de todos os deslocamentos semânticos da palavra invenção, esta permanece o vir, o evento de uma novidade que deve surpreender.
  • O outro chama para vir, e isso só acontece a várias vozes.
  • A mudança significativa deve sempre vir do Outro, de um lugar imprevisível e extra-histórico.
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