NATUREZA UNIVERSAL
NĀṢER-E KHOSROW; GASTINES, Isabelle de. Le livre réunissant les deux sagesses. Paris: Fayard, 1990.
Dísticos 12-13:
Se me mostrares a Natureza universal em seu estado absolutamente primitivo, saberei que estás entre os que dizem a verdade.
Diz-me ainda quais são sua essência e seus atributos, pois prefiro isso cem vezes mais ao som da flauta de Pã!
A definição nominal de Natureza, conforme os antigos sábios e físicos, é o princípio guardião que mantém cada corpo em sua forma própria, sendo que os filósofos concordam em dar o nome de Natureza universal a esse guardião dos diferentes tipos de corpos gerais, embora divirjam quanto à sua quididade.
- Todo homem que observa a terra como agregado sólido, a água com suas movências, o ar, o fogo, as esferas e as estrelas, cada um com sua forma invariável, é forçado a admitir que existe um guardião para esses corpos diversos.
- As substâncias minerais, vegetais e animais possuem cada uma uma forma distinta, sendo necessário um pintor para a terra e a água que entram na composição dessas formas.
- Tanto na pedra quanto em cada parte do animal ou vegetal (como osso ou madeira), existe um guardião que vela sobre a forma recebida e a manutenção das partes, princípio este que é chamado de Natureza.
- Aristóteles, em seu livro A Física, declara: A Natureza é o princípio do movimento e do repouso, significando que, quando as naturesas parciais (calor, frio, secura e umidade) se unem à substância receptora, há movimento.
- Rhazès discorda dessa tese, argumentando que se as Naturezas viessem do Criador nos corpos, disso seguiria que a Natureza existiria em Deus, o que não é admissível.
- Alguns físicos declaram que a Natureza é uma força divina assignada à guarda do universo; outros professam que o guardião é o vazio; outros ainda que é a umidade ou a umidade acompanhada pelo calor.
- Certos filósofos declaram que é o desejo do Criador, nomeado Natureza, o guardião de todas essas coisas.
A resposta dos hermenautas espirituais (Ahl-e ta'wil) define a Natureza universal como o substituto da Alma universal (Anima mundi), assignado à guarda das diversas espécies de corpos em suas formas próprias, sendo uma substância comum a todas as partes do mundo corpóreo, razão pela qual este é chamado de mundo da Natureza.
- Os hermenautas refutam a tese de que a Natureza seria uma qualidade elementar como o calor ou a umidade, pois estas são formas determinadas, acidentes que não subsistem por si mesmos e não podem agir sobre outra coisa.
- Refutam também a tese de que o guardião do universo seria o vazio, questionando por que a água, o ar, a terra e o fogo não seriam idênticos se o vazio os mantivesse.
- Refutam igualmente a tese de que a Natureza seria a própria Alma, usando o argumento dos seres de geração espontânea (como a mosca, o mosquito ou o rato), cujo agente não pode ser a alma e é certamente uma substância cuja atividade se exerce sobre o corpo.
- A Natureza universal é como um intendente que vela pelo serviço e manutenção do universo, morada da Alma universal, purificando as disposições naturais a partir das quais o homem é constituído.
- É pela obra que emana da Natureza universal que a nocividade de princípios maus (ratos, serpentes, escorpiões) é afastada do homem, sendo a prova evidente de que ela serve à obra da Alma universal.
- As moscas e mosquitos surgem das águas fétidas e solo putrefeito pela natureza para que, ao se dispersarem no ar, evacuem miasmas e puídores.
- A Natureza universal mantém cada uma das naturezas parciais em sua forma própria para que não se desagreguem, sucombam ou se decomponham.
- Por ser ela que põe em movimento as esferas, a Natureza não é nem pesada nem leve; mas é leve por projetar o fogo para a periferia, pesada por levar a terra e a água ao centro, e recebe os nomes de alma crescente, alma sensorial e alma parlante conforme suas diferentes atividades.
- O agente de todas as partes do universo é Um, assim como a alma do microcosmo é una, embora seus atos sejam múltiplos conforme os instrumentos que emprega.
- As obras particulares da Natureza universal (vitriol, sulfure, cogumelo, trufa, moscas, formigas, rãs) são imitações das obras da Alma universal (ouro, prata, vegetais primeiros, voláteis e quadrúpedes engendrados).
- Os teósofos da Religião eterna declaram que a Natureza universal é a aluna da Alma universal, estando situada entre a esfera da Lua e o centro do universo, sendo uma substância imaterial que não ocupa nenhum lugar.
- A existência da Natureza universal na substância corpórea (sombra da Alma universal) resulta, em seu estado absolutamente inicial, da contemplação que a Alma universal projeta sobre sua própria sombra.
- Como exemplo no mundo sensível, quando o sol projeta sua contemplação sobre uma bola de cristal bem redonda e transparente, um fogo (substância ativa) eclode nessa bola.
- Na hierarquia da Instauração criadora (Ibda'), a Natureza universal vem em quarto lugar, após a Inteligência, a Alma e a Matéria.
- Como prova de que a esfera é obra da Natureza universal, se em imaginação se brincam os elementos e as esferas e depois se para, o mundo retornará à forma que tem presentemente, assim como em um frasco com água, terra e ar, após ser agitado, a terra se deposita abaixo da água e o ar acima da água.
- A Natureza universal primeira não muda de estado, sendo impossível que o ar se torne pesado e a terra leve, ou que o ar se mantenha no centro e a terra se eleve acima do ar.
