SIMBOLISMO DAS FLORES E A ROSA ADÂMICA
RTES
- Símbolos vegetais da Aliança.
- O buquê de rosas ou a “Sarça ardente”.
- O florescimento dos estados místicos do coração.
- O lótus dos mil pétalos.
- A Rosa adâmica como teofania da Beleza.
- Como o anjo Iblis recusou sua submissão a Adão.
- Os atributos de Beleza e de Majestade.
- A função noética do intelecto.
- A migração das aves místicas em busca da realeza.
Aquele cujos dois olhos não viram o tempo fugir,
Aquele cujos ouvidos não ouviram a terra suspirar,
Esse não pôde ver brilhar o esplendor de nossa rosa sagrada,
Nem aspirar o perfume dessa rosa preciosa.
O recurso ao simbolismo vegetal é uma constante notável do sufismo de Ruzbehan e mostra-se indissociável da temática das aves, apresentada nas páginas precedentes. Trata-se, mais uma vez, de um traço comum aos poetas e místicos da tradição iraniana. Sanai, Sadi, Attar, Rumi, Hafez — todos exploraram a imagética da natureza e o repertório clássico das flores, não apenas como metáfora poética, mas com finalidades esotéricas. Ruzbehan é, sem dúvida, o mais fiel testemunho dessa tradição literária. Shiraz, a cidade eleita dos poetas e filósofos de cultura persa, onde viveram e ensinaram Sadi, Hafez e Molla Sadra, é célebre pela beleza de seus jardins de tulipas e de rosas de essências raras, variando do vermelho vivo ao rosa opalescente. Nessa cidade das flores, onde Ruzbehan possuía sua morada e seu jardim, o Shaykh dispunha de um espelho epifânico ideal das “Roseiras de contemplações místicas”, que cultivava com fervor no Malakut, isto é, no “jardim do coração”.
A temática das flores entre os mestres do sufismo iraniano do período clássico, de Ahmad Ghazali a Shabestari, passando por Ruzbehan e Rumi, apresenta dois aspectos principais: por um lado, exalta o sentimento profundo da graça e da eleição especiais dos santos iluminados pelo amor divino — sua preciosa rosa mística; por outro, as flores nobres — rosa, jasmim, tulipa, entre outras — são sinais eloquentes da jornada do coração rumo ao encontro do Bem-Amado, marcando as etapas da unio mystica. Tal concepção religiosa é alheia ao espírito profano dos poetas da Plêiade, como Ronsard ou Du Bellay, ou aos autores do Romance da Rosa, trovadores do amor cortês que identificavam a rosa à dama de seu pensamento; enquanto Ruzbehan, aproximando-se de Dante, nela vê a plena manifestação do reino de Deus e a participação dos santos em sua glória. O simbolismo vegetal, mineral e animal — exuberante na literatura persa e enriquecido pela arte da miniatura das épocas mongol e timúrida — combina os recursos da poesia clássica mediante engenhosa adaptação das representações simbólicas do paraíso descritas no Qoran.
Assim, a evocação clássica do “rouxinol pousado sobre a rosa”, leitmotiv da poesia mística persa, deve ser compreendida como imagem da união da alma do místico com o seu objeto de contemplação divina, que a rosa tipifica como teofania da beleza. Essa metáfora traduz, em linguagem poética, o desejo de harmonia entre o homem e Deus, a união espiritual dos complementares — o terrestre e o celeste. Convém, certamente, decifrar essas obras distinguindo vários níveis de significação. O rouxinol do jardim de rosas do Golestan de Sadi torna-se, em Ruzbehan, uma alegoria da contemplação e da fruição dos estados místicos. Mas é Sadi o sufi quem assim se exprime: “Um dia encontrei um pedaço de argila perfumada vinda de meu Bem-Amado. Embriagado por seu perfume, perguntei: És tu almíscar ou âmbar gris? A argila respondeu: Sou apenas um simples pedaço de argila; mas associei-me a uma rosa. Por isso a virtude de minha companheira exerceu sobre mim sua influência; embora eu permaneça a mesma argila que sempre fui.” Nesses versos aparentemente inocentes encontra-se uma exegese teológica da criação de Adão a partir da argila terrestre. Embora o homem seja efêmero e corruptível, sua alma conserva o sopro divino do Espírito, que é sua contraparte celeste — precisamente, a rosa divina.
Herdeiro esclarecido da tradição sufi primitiva, Ruzbehan renova, com sensibilidade própria, esse culto sagrado da beleza e do êxtase amoroso, do qual já testemunhavam certos sufis malamatis de tendência extática, como Bastami, Misri, Hallaj, Hosayn Nuri e Shibli. De fato, recolhera seu ensinamento e comentara suas sentenças. A simbologia dos jardins e das flores, bem como a das aves, reflete, no espelho da “mãe natureza”, as múltiplas metamorfoses interiores da alma à medida que esta descobre a riqueza de seu próprio microcosmo espiritual e desperta à consciência de si mesma. Se a via purgativa a libertou do inferno das concupiscências carnais, a alma dita “malfazeja” já não existe. Agora é o coração no homem que arde pelo desejo de unir-se ao Espírito e sente-se amado por Deus. Ruzbehan chama tal alma de “a noiva da teofania”, pois está preparada para a união nupcial com seu esposo divino. Trata-se, portanto, de uma visão da “natureza transfigurada”, que antecipa, já na vida presente, as cenas da vida paradisíaca prometida aos eleitos — aos fiéis “companheiros da direita”, na escatologia figurada do Qoran.
Ruzbehan conjuga com maestria certas modalidades de sua mística teofânica com o simbolismo das flores, como indícios de florescimento e testemunhos dos privilégios espirituais concedidos aos peregrinos da unidade que caminham ao encontro da divindade. O próprio Adão é percebido como arquétipo profético da beleza essencial revelada sob forma humana, como o desabrochar de uma rosa vermelha na primeira manhã da primavera. Esse tema notável da doutrina ruzbehaniana supõe uma introspecção visionária complexa do simbolismo vegetal em interação com a antropologia espiritual. Sem perder de vista sua interpretação do simbolismo das flores, propõem-se, portanto, neste desenvolvimento, alguns excursus paralelos nas tradições budista, bíblica e islâmica. Tais aproximações levam a constatar que as flores — seja o lótus na doutrina budista, seja a rosa na tradição judaico-cristã, prolongada pela exegese muçulmana — tipificam tanto o florescimento das almas na graça divina quanto sua plena iluminação pela descoberta da divindade, quando esta as investe com a santidade. É essa concepção que sustenta a atitude hermenêutica de Ruzbehan a respeito do simbolismo místico das flores, o qual deriva essencialmente das Sagradas Escrituras antes de tornar-se um locus literário da poesia clássica no islam.
